Crónica de Jogo

Nestas batalhas atrás de batalhas do Sporting, dá jeito ter um soldado como Geny - e um capitão como Bragança

Geny regressou da CAN e logo para bisar frente ao Casa Pia
Geny regressou da CAN e logo para bisar frente ao Casa Pia
NurPhoto

Com mais jogadores indisponíveis na bancada do que no banco de suplentes, a vitória do Sporting do Casa Pia por 3-0 foi um conjunto de triunfos. Voltou Geny Catamo, com um bis, voltou Daniel Bragança, 11 meses depois, com um golo. E afastou-se uma potencial minicrise em Alvalade

Não é de admirar que a realização televisiva do Sporting-Casa Pia tenha focado mais vezes a tribuna do Estádio de Alvalade do que o banco do Sporting. Se ao banco sobravam cadeiras, na bancada estava meia equipa, Hjulmand, Maxi, castigados, Nuno Santos (há quantos meses mesmo está parado?), Ioannidis, Pedro Gonçalves, aos quais se juntam Eduardo Quaresma, Diomande, Quenda.

Por ali, na ficha médica, vive-se o dia a dia, batalha atrás de batalha. E frente ao Casa Pia, o Sporting teve várias vitórias importantes.

Não foi só a vitória sólida por 3-0, mesmo que a exibição tenha estado afastada de outros momentos mais cintilantes do leão esta época em casa. Não foi só o voltar aos triunfos, depois do empate em Barcelos e da desilusão na Taça da Liga, onde se piscou o olho a uma mini-crise. Foi também o boost emocional dos regressos - e que regressos -, como que abrindo os braços a dias menos complexos que estarão por vir, mais longe da medicina de catástrofe das últimas semanas.

O jogo é Geny Catamo, que bisou depois de regressar da CAN. E de Daniel Bragança, que marcou o terceiro golo do Sporting no dia em que voltou aos relvados, 11 meses depois de uma terrível lesão no joelho. Debast, há três meses no estaleiro, teve minutos, tal como Ricardo Mangas.

Gerindo o improviso necessário face a tão poucos recursos humanos disponíveis, Rui Borges apostou numa linha de cinco atrás, com Geny à direita e com autorização para fugir. Com um Casa Pia a viver nova fase, poucos dias após a chegada do homem da boina, Álvaro Pacheco, a pressão dos gansos começou por deixar o Sporting pouco confortável e com dificuldades em entrar no jogo.

Luís Guilherme, após o falhanço da noite
NurPhoto

Coletivamente, o jogo da equipa da casa sofria, talvez pela falta de adaptação à surpresa. Luis Suárez juntava-lhe um descalibramento pouco habitual nos poucos momentos de perigo, fosse em jogo corrido ou num par de livres diretos em zona privilegiada. O Sporting parecia pouco fiel a si próprio, tentando de longe, pelos corredores, sem o rendilhado atacante mais habitual.

Precisava de acordar a equipa de Rui Borges e, paradoxalmente, foi um falhanço épico que abanou a equipa já nos minutos finais da 1.ª parte, que caminhava languidamente para a lista dos menos memoráveis 45 minutos em Alvalade esta época. Depois de Suárez ganhar no corpo a corpo a José Fonte, Luís Guilherme, atirado já às feras da titularidade por pouco mais opções existirem, chegou uma nesga de tempo mais tarde ao cruzamento, falhando a baliza escancarada. Mas nem dois minutos depois, o Sporting colocar-se-ia na frente.

Foram segundos inglórios para o Casa Pia, que em pouco mais de nada, e depois de uma 1.ª parte muito consistente a nível defensivo, perderia o seu líder, José Fonte, com lesão muscular depois do lance com Suárez, e o empate, num lance também ele infeliz. Depois do Sporting laterializar bem o fio de jogo após recuperação de bola, Geny surgiu lançado pela direita e rematou, com a bola a bater num adversário antes de entrar entre o poste e Patrick Sequeira, enganado pela trajetória. E ainda antes do intervalo, Inácio, desde sua casa, apontou mira ao moçambicano com um extraordinário passe, que Geny não desperdiçou, dando provas da sua capacidade de decisão em momentos de grande aperto. Em menos de nada, o Sporting afastava problemas de maior.

Bragança voltou a jogar, 11 meses depois, e marcou o último golo do Sporting frente ao Casa Pia
Carlos Rodrigues

Uma das equipas que mais desiludiu na 1.ª volta da I Liga, o Casa Pia entrou na 2.ª parte com vontade de afastar os demónios e uma ideia de coletivo suave. Tiago Morais saltou para campo e foi parte de um par de jogadas de futebol combinativo que obrigaram Rui Silva a um raro momento de atenção e o Sporting a abrir o olho.

As alterações de Rui Borges ajudaram o leão a assentar ideias. Daniel Bragança entrou em campo aos 65’, num momento pele de galinha em Alvalade, fosse pelo regresso do médio, quase um ano depois, ou pela atitude de Gonçalo Inácio, a dar a braçadeira de capitão ao colega, que aos 79’ fixaria o resultado final em 3-0, após recuperação alta de João Simões e passe decisivo, perante uma defesa desequilibrada, de Suárez. Bragança entrou pela direita e rematou para um momento que seria de imensa comunhão, com todo o plantel a rodear o médio português. Há batalhas que valem a pena travar.

Com o FC Porto a sete pontos no final da 1.ª volta, a vitória frente ao Casa Pia era essencial e uma panaceia necessária para um leão à beira de um ataque de nervos e num limbo que poderia facilmente degenerar em crise. E o Sporting afastou cedo os temores.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: lpgomes@expresso.impresa.pt