Crónica de Jogo

Portugal levou um abanão dos espartanos macedónios no Europeu de andebol

Martim Costa a enfrentar a poderosa defesa da Macedónia
Martim Costa a enfrentar a poderosa defesa da Macedónia
Sebastian Elias Uth

O 7x6 parecia ter resolvido o jogo a favor de Portugal, mas a seleção nacional desperdiçou uma vantagem de cinco golos e foi surpreendida pela Macedónia (29-29). O apuramento para a main round continuará por decidir

Varrendo todas as migalhas de empenho com as mãos e juntando-as num monte para as trocar por prémios, a Macedónia do Norte seria sempre mais bem recompensada. Amarrotar umas camisolas era indispensável para ganhar aos megálitos oponentes. Portugal teve o requinte, o brilhantismo, mas não a robustez daqueles que lhe apareceram à frente.

Paulo Jorge Pereira, tranquilíssimo, marcou a última jogada. Martim Costa soltou-se, mas falhou o remate. O ressalto ficou nas mãos da seleção nacional. Leonel Fernandes tentou de novo e nada. Martin Tomovski estava intransponível. A bola queria, porque queria estar nas mãos dos portugueses – sabe quem a trata bem – e soltou-se do defesa macedónio que a tentava segurar.

O jogo terminaria com a seleção no ataque. A sabedoria popular já sabia o número de vezes que são precisas para algo ser de vez. Os agarrões, os puxões, o inconformismo da Macedónia trancaram o passe para Victor Iturriza.

O empate (29-29) trava o entusiamo de Portugal. A main round continua a estar ali ao lado. Com os seus três pontos e o segundo lugar, os Heróis do Mar jogarão a última jornada da fase de grupos numa posição mais vantajosa na luta pelo acesso à fase seguinte do que a Macedónia, que trazia uma derrota frente à Dinamarca. Superar os tetracampeões do mundo será heróico pelo que uma calculadora, para contar a diferença de golos, deverá estar no kit de prevenção.

Como se nota pelos jogos do Eurofarm Pelister na Liga dos Campeões, o andebol não é um assunto leviano na Macedónia. Embora Portugal esteja a disputar o Europeu em Herning, na Dinamarca, o pavilhão parecia uma embaixada do adversário.

As fervorosas reações da claque inebriaram Portugal. O ímpeto da Macedónia sobrecarregou a equipa de exclusões. Marko Stojkovic e Martin Serafimov escaparam-se com um repouso de dois minutos. Nikola Markoski pôs a cabeça de Francisco Costa debaixo do ombro e não fugiu ao cartão vermelho.

Contra o andebol de peso e furioso da Macedónia, foi com Victor Iturriza, Luís Frade e Salvador Salvador que Portugal amuralhou a baliza. Gustavo Capdeville fez um par de defesas com o resultado em 9-8 que indiciavam uma fuga no resultado não concretizada (terminou com nove paradas).

Os jogadores de Paulo Jorge Pereira obrigavam a Macedónia a arrastar os ataques até às redondezas do jogo passivo. Mesmo quando o fluxo contrário era interrompido, a transição defensiva do oponente compensava.

Francisco Costa e Martim Costa começaram por ser os laterais preferenciais em ataque organizado. O descanso dos irmãos fez Rui Silva ocupar-se da coordenação ofensiva. O ilusionismo aplicado nas assistências para os pivôs colocou o estilo refinado de Portugal à frente do comportamento megalítico existente do lado contrário.

Dois golos de vantagem ao intervalo (15-13) pareciam uma imensidão. Paulo Jorge Pereira recuperou o saudoso 7x6 que a seleção celebrizou nos primórdios do ciclo de presenças em grandes torneios. Um parcial de 3-0 a abrir a segunda parte abalou a Macedónia e, dez minutos depois, Kiril Lazarov pediu desconto de tempo.

Por seu lado, o treinador nacional exigia que Portugal controlasse o jogo, tarefa nem sempre conseguida. Faltou discernimento para gerir a vantagem de cinco golos e Filip Kuzmanovski (15 remates certeiros) carregou a Macedónia até ao empate (27-27).

Os dois minutos de exclusão de Victor Iturriza e Luís Frade não ajudaram à reação. Porém, uma certa indisciplina dos macedónios levou os Heróis do Mar sete vezes para a linha de sete metros, onde Francisco Costa (11 golos) tentava contrariar a iminência de um dissabor.

Talvez este seja um daqueles desgostos que destrancam conquistas épicas, porque, isso é certo, Portugal levou um grande abanão da Macedónia (29-29).

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