Chamam-lhe tiki-tasca, mas fez o Sporting agigantar-se contra o futebol champanhe do PSG
Luis Suárez marcou ao 90 minutos o golo da vitória
Carlos Rodrigues
Passar do meio-campo estava caro para o Sporting. Luis Suárez foi um poço de rentabilidade e, com máximo sentido de oportunidade, bisou na vitória dos leões contra os campeões da Europa (2-1). A uma jornada do fim, a equipa de Rui Borges tem o top-8 da Liga dos Campeões debaixo de olho
Nem sempre a tribuna de imprensa do Estádio de Alvalade é o lugar mais privilegiado do mundo para se ver a Liga dos Campeões. A altitude do varandim com mesas, tomadas, cabos e ecrãs proporciona um ponto de vista contrapicado, suficientemente longe do relvado para nos sentirmos a espreitar por um microscópio avariado. Por mais esforço que dediquemos ao ato de observar, os jogadores continuam distantes. Mas antes isso do que estar num camarote a beber por um copo de cristal.
O melhor é não pensar assim tão alto. Luis Enrique pode estar por perto e ouvir. No início da época, o treinador espanhol optou por ver os jogos do Paris Saint-Germain de uma zona mais elevada do estádio. É preciso sair da ilha para ver a ilha, não é verdade? Inspirando-se no râguebi, adotou uma perspetiva distinta da que tem no banco para deglutir a sua obra.
Colocando as coisas nesta perspetiva, uma zona em que, se dermos um passo atrás, corremos o risco de cair na Segunda Circular parece o melhor sítio do mundo para ver as estrelas.
Só no onze inicial, os vencedores da edição anterior da Liga dos Campeões tinham o Bola de Ouro, Ousmane Dembélé, e outros quatro jogadores que fizeram parte do top-30 da corrida ao prémio que distingue o melhor do mundo. Nem todos os membros dessa elite foram utilizados. Kvaratskhelia ficou no banco. Já o Sporting, como reserva, tinha David Moreira, Flávio Gonçalves, Eduardo Felicíssimo, Mauro Couto e Rafael Nel.
Quando Luis Enrique decidiu lançar Kvaratskhelia, o speaker teve um engasgo. Os dotes que ao georgiano lhe valeram a alcunha de Kvaradona, por uma questão de simplicidade e de justiça, quase impediram o Sporting de vencer este convívio saudável entre o tiki-tasca e o futebol champanhe. Só que em campo, do início ao fim, esteve Luis Suárez a roer um PSG que fez muitas coisas bem, menos lidar com o oportunismo. No fim, o animador ficou rouco de novo. Desta vez, culpa do épico triunfo (2-1)
Parte dos problemas que o Sporting teve foram criados em Alcochete. Ter colocado um motor em Nuno Mendes quando o lateral era mais novo fez com que agora o tivesse que ver acelerar como o melhor do mundo na sua posição. Daniel Bragança ainda lhe deixou um recado nas redes sociais: “Vem devagar, se faz favor.” Um pedido ignorado com sucesso.
Nuno Mendes a ultrapassar Geny Catamo
Eurasia Sport Images
instantaneamente as saídas através do pontapé de baliza. Para maior desânimo, Nuno Mendes controlava a profundidade nos poucos momentos em que o Sporting a parecia ter ganho. Maxi Araújo ficava sem óleo quando era obrigado a receber de costas.
Se o Sporting tinha as referências de saída mal identificadas – Geny foi esvaziado por Nuno Mendes –, o PSG colocou Fabián Ruiz e Barcola a massacrarem Fresneda, mesmo com a ajuda dada pelo moçambicano. Se o aparecimento de Mayulu na área para corresponder às combinações no lado oposto não surpreendeu, a cabeçada de Zaïre-Emery para o fundo das redes foi inesperada.
Rui Borges deve ter tido uma dificuldade imensa em colocar nomes nas posições que o PSG mais gosta de ocupar. É que Zaïre-Emery, supostamente, era lateral-direito embora nunca tenha respeitado essa incumbência. O lance foi anulado por falta sobre Geny Catamo no começo da jogada. Ousmane Dembélé também não teve melhor sorte com a avaliação dos juízes. Neste caso, bem mais claro, abalroou Rui Silva antes de marcar.
Para Willian Pacho se ter evidenciado tanto, algum trabalho Luis Suárez teve que lhe dar. Porém, o Sporting deve ter aproveitado para respirar no tempo que demorou a regressar do intervalo. O sufoco a que foi exposto assim o exigiu.
João Simões tentou desregular o PSG pela via individual. Sendo que o fez apenas uma vez, pode-se imaginar que beneficiou do efeito surpresa. Ainda assim, foi o suficiente para Geny Catamo rematar à malha lateral.
Chevalier não teve hipótese no lance do primeiro golo do colombiano
MB Media
Para o pouco que conseguiu evoluir no terreno, a quantidade de oportunidades para marcar não foi nada má. A abrir o segundo tempo, um basquetebolista dos leões tinha conseguido chegar ao cruzamento de Trincão, mas Luis Suárez não.
Com defesas que se tornaram pouco exuberantes pelo fantástico posicionamento, Rui Silva tranquilizava o Sporting quanto a remates de ângulos mais complexos. O fora de jogo voltou a salvar o Sporting no cabeceamento certeiro de Ousmane Dembélé.
As saídas para o contra-ataque não foram imensas. Luis Suárez provou que a bravura está no espírito e não no corpo. Ele lutou. Muito. Ganhou o pontapé de canto que fez Alvalade arrebitar. Maxi Araújo beijou a bola. Nas carambolas que, hoje, serviram o futebol precário do Sporting, anotou o 1-0. O Paris Saint-Germain permitiu quatro minutos de esperança. Kvaratskhelia cortou para o meio e encontrou o ângulo.
Tudo no jogo foi efémero, as vantagens, as desvantagens, os controlos e o caos. Sem um estado fixo que pudesse definir os nervos despejados em cima do relvado. Francisco Trincão rematou de fora de área. Chevalier defendeu para a frente e lá apareceu Luis Suárez, o senhor da noite, a colocar o Sporting provisoriamente no top-8 da Liga dos Campeões, em igualdade pontual (13) com os campeões europeus. Pelo menos o play-off já está garantido.