Crónica de Jogo

Só a raiva valeu o empate ao FC Porto na Boémia

Só a raiva valeu o empate ao FC Porto na Boémia
MARTIN DIVISEK

Exibição pobre do FC Porto frente ao Viktoria Plzen, que se colocou cedo em vantagem, viu Vydra ser expulso e mesmo assim só viu a sua resistência quebrada pela entrada furiosa de Deniz Gül. O empate (1-1) impede o FC Porto de se aproximar muito do apuramento direto para os oitavos de final da Liga Europa

Estando, apesar de tudo, bem dentro dos lugares para seguir em frente, tem sido na Liga Europa que o FC Porto versão granítica de Francesco Farioli tem encontrado os principais escolhos exibicionais. Mas talvez nunca como na viagem à Boémia checa, terra de cerveja e cristal e de um dos momentos menos translúcidos dos dragões esta temporada.

Contrariando boa parte do seu empedernido ADN, uma espécie de relógio suíço de agressivo design italiano, foi um FC Porto estranhamente desesperado aquele que se apresentou frente ao Viktoria Plzen, nunca se recompondo da entrada corajosa do adversário, que na 1ª parte massacrou a equipa portuguesa com transições venenosas.

O golo de Lukás Cérv, logo aos 6 minutos, seria um quadro impressionista dessa barafunda, tão atípica nesta equipa que vai liderando a I Liga também muito pela sua coesão e capacidade de, metronomicamente, gerir jogos. Um mau atraso para Diogo Costa levou a um mau alívio e o mau alívio a uma má perda de bola. Cérv rematou cruzado, de longe, um tiro que surpreendeu Diogo Costa, talvez não impecavelmente colocado.

Estando na frente, os checos, para mais em casa, lidando bem melhor com um relvado que já viu, seguramente, dias mais verdejantes, ficaram nas suas sete quintas, baixando linhas e partindo sempre que possível para o contra-ataque. Antes de se lesionar, Kabongo foi brincando com Alberto Costa e Rosário, para grande irritação de Diogo Costa. Do outro lado, era Memic que não aproveitava a falta de agressividade do dragão, numa apatia pouco vista nesta equipa.

MARTIN DIVISEK

No ataque, o desacerto tinha o nome próprio de Borja Sainz: foi dele o primeiro momento de perigo do jogo, logo aos 3 minutos, e com o FC Porto já em desvantagem faria um simpático passe para o guarda-redes adversário quando foi involuntariamente isolado por um corte adversário.

O final da 1ª parte prometia mudar o jogo, quando o experiente Vydra substituiu o seu guardião para defender com o braço em cima da linha um cabeceamento de Kiwior. O internacional checo acabaria expulso, mas Samu não materializou a dupla penalização: tal como no domingo, em Guimarães, falhou o penálti. No final, o rio de lágrimas que deixou nos ombros dos colegas terão aqui origem e nos fantasmas que estes momentos constroem.

Pensar-se-ia que a 2ª parte seria de redenção do FC Porto, 45 minutos inteiros a jogar com mais um e frente a um adversário com poucas dimensões no seu jogo. Mas as linhas férreas criadas pelo Viktoria Plzen não tiveram como resposta o que fosse de capacidade criadora da equipa de Farioli, que, verdade seja dita, teve nos seus fantasistas, William Gomes e Rodrigo Mora, dois elementos em tarde desinspirada. Sempre com alguém para as dobras, juntando os esforços com a solidariedade que se exige nestas circunstâncias, o Plzen frustrava e frustrava os jogadores do FC Porto que, tal como frente ao Utrecht, nem pareciam em superioridade numérica.

MARTIN DIVISEK

Saltariam do banco os jogadores que ajudaram a que, pelo menos, o FC Porto não saísse da Chéquia com uma derrota desonrosa. O que Varela trouxe em cabeça, Deniz Gül trouxe em fúria. Foi com o turco que os dragões voltaram a criar perigo, logo com dois remates cruzados travados com dificuldade por Wiegele. O crescendo de rancor via-se nos pés de Gül e no seu pouco reprimido inconformismo. E já com o relógio a aproximar-se dos 90’, o avançado recebeu a bola de costas, rodopiou no eixo do adversário e desferiu um potente remate, cheio de raiva, que igualou o encontro.

O golo resgatou um ponto que poderá ser importante para o FC Porto já expectável apertada luta para terminar a fase de liga no top 8, o que levaria os dragões diretamente para os oitavos de final, cortando dois jogos ao calendário. Mas frente ao Rangers, a raiva não pode durar apenas uns meros minutos.

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