Crónica de Jogo

Até para a equipa dos milagres isto ficou quase impossível: Portugal empata com a Noruega e está perto do adeus ao Europeu de andebol

Salvador Salvador a passar entre os defesas noruegueses
Salvador Salvador a passar entre os defesas noruegueses
EHF

Com Francisco Costa em modo arma secreta, Portugal foi uma equipa necessariamente diferente, mas competitiva como sempre. Ainda assim, a seleção empatou contra a Noruega no penúltimo jogo da main round do Europeu de andebol (35-35) e os objetivos nacionais passam a depender de resultados improváveis

Francisco Costa é membro de uma estirpe de jogadores pelos quase vale a pena esbanjar dinheiro por um bilhete com a garantia de que ele vai dar troco em genialidade. Os adeptos que compraram ingresso para o Portugal-Noruega devem ter tido 72% de desconto, visto que Kiko só entrou a 17 minutos do final.

Concomitantemente, a ponta final foi a melhor fase dos Heróis do Mar no encontro. É inimaginável o abalo mental que Paulo Jorge Pereira terá causado na Noruega quando lançou o melhor marcador do Europeu, fresco, para tentar encerrar a discussão num momento em que o cansaço enferruja todas as ações.

Até aí, viu-se um Portugal necessariamente diferente. A quarta pior equipa do Europeu ao nível de eficácia dos guarda-redes (20,5%) teve em Diogo Valério (12 defesas) um tampão. Além disso, sobressaíram as ligações com o pivô, com Luís Frade (11 golos) a explorar o espaço entre as costelas da defesa nórdica.

Era em ocasiões como esta que as manápulas de marceneiro dos jogadores de andebol tinham que ter a amabilidade de um cirurgião para, mesmo cheias de resina, intervirem numa situação crítica. O sonho de uma medalha estava por um fio e, com o empate (35-35) diante da Noruega, tornou-se praticamente impossível – dependeria de duas derrotas da França e uma derrota e um empate da Dinamarca. Mesmo a presença no jogo de atribuição do 5º lugar está perto de se tornar inconcretizável.

Para tentar evitar um cenário tão desanimador, dava algum conforto a esta seleção, que tanto se honra de andar por mares nunca dantes navegados, estar de passagem por uma rota conhecida. No Euro 2024 e no Mundial 2025, Portugal venceu a Noruega em intromissões concretas no miolo dos gigantes.

A comunicação da Noruega com o pivô tem sido praticamente nula ao longo do Europeu. Portugal entrou a vangloriar-se da sua panóplia de caminhos para o ataque. A titularidade de João Gomes e de Rui Silva, meticulosos passadores, incentivou o cravar da bola em Luís Frade.

Paulo Jorge Pereira reservou a acutilância de Martim Costa lá para os 15 minutos. Um furacão deu-lhe boleia de uma ponta à outra do campo e o lateral travou o ímpeto inicial dos noruegueses (12-12).

Os 84,1% de eficácia de August Pedersen, ponta esquerda norueguês, latejavam na defesa portuguesa. Aos 22 minutos e 15 remates depois, os guarda-redes conseguiram pôr fim à corrente de ar que bafejava a baliza nacional. Diogo Valério colocou uma cancela na baliza pela primeira vez no encontro.

Portugal dispôs de situações de superioridade numérica em momentos nos quais era justo passar para a liderança do marcador, mas foi condescendente no aproveitamento. Patrick Anderson, de mão quente (10 golos) do lado norueguês, desencantava brechas no lado direito da defesa nacional que amenizavam os danos.

Na última posse de bola da primeira parte, os Heróis do Mar tentaram executar um irregular 8x7. O intruso, Victor Iturriza, foi descoberto pela videovigilância e penalizado por ter tentado ser mais um a procurar inverter o resultado desfavorável (18-17).

Torbjørn Bergerud (10 defesas) entrou em despique com Diogo Valério. O guarda-redes português, naquela típica posição de mãos ao ar, estancou dois remates consecutivos. Na sequência, o titânico Luís Frade deu uma liderança (26-25) de que Portugal não usufruía desde o minuto inaugural.

Os portugueses alcançaram uma vantagem de dois golos que não foi bem cuidada. O 35º golo dos Heróis do Mar, marcado por Francisco Costa num remate cruzado do lado esquerdo, com a mão esquerda, desde uma posição de reduzidíssimo ângulo, parecia a maneira perfeita de dar a vitória como garantida. Porém, Simen Lyse viria a responder.

Por mais que o derradeiro jogo contra a Espanha possa ser inócuo, a participação de Portugal no Europeu não o foi. A seleção nacional voltou a levar para uma grande competição a sua postura desafiadora. Será desolador se, um dia, esta geração limpar a resina das mãos sem a medalha que tanto procura.

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