Num ato de amizade, o FC Porto deixou Samu redimir-se e o Gil Vicente é que pagou
Samu inaugurou o marcador no Estádio do Dragão
Diogo Cardoso
Enquanto o Gil Vicente teve onze jogadores em campo, a exibição do FC Porto não teve grandes floreados. A diferença esteve na grande penalidade que Samu marcou. Só quando Martín Fernández conseguiu a proeza de ser expulso sem tocar na bola e Martim Fernandes marcou o primeiro golo na equipa principal dos dragões é que a tranquilidade surgiu. Os azuis e brancos chegaram aos cinco jogos no campeonato – melhor ciclo da época – sem sofrerem golos (3-0)
Há poucos registos de um jogador que seja emocionalmente tão transparente como Samu. As lágrimas de Plzeň expuseram o abalo causado pelas grandes penalidades falhadas em dois jogos consecutivos.
A sua corpulência foi uma inata característica que Murilo só conseguiu travar com a irregular força dos braços. O avançado ainda mal se tinha levantado e Gabri Veiga já lhe estava a entregar a bola para marcar a grande penalidade. Não estava cheia de ar, mas cheia de responsabilidade.
O silvo do árbitro sonorizou o muito vento em atividade no Estádio do Dragão. Samu ignorou o apito e deixou-se guiar pelo seu tempo. Respirou fundo como quem se está a preparar para saltar de uma prancha muito alta e vai aterrar na água, esperando não cair de chapa. O espanhol lá se lançou. Foi conservador na marcação. Bola rasteira para o lado esquerdo. Dani Figueira, o substituto do dissidente Andrew, adivinhou o lado sem se conseguir lançar o suficiente para igualar a colocação do remate.
O FC Porto teve para com Samu um ato de amizade. Os dragões nunca deixaram de acreditar nele. Hoje, o balneário ficou mais forte. Se a opção tivesse sido a do julgamento e castigo, neste momento, existia uma cabeça fora da sintonia.
O golo de Samu tranquilizou os azuis e brancos num jogo de poucos floreados. O Gil Vicente testou a capacidade cognitiva dos centrais do FC Porto, Thiago Silva e Jan Bednarek, obrigando-os a tomar decisões e esperando que estas não fossem as melhores. Entrar na estrutura (4x2x2x2) da equipa de César Peixoto estava a ser como tentar colocar a linha numa agulha.
Bednarek a pensar o jogo do FC Porto
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Os gilistas exibiam a competência que os colocou no 5º lugar sobretudo sem bola. Gabri Veiga foi quem mais capacidade demonstrou para desmontar a organização. Borja Sainz apressou demasiado a movimentação e o passe do médio encontrou o compatriota fora de jogo. A posição irregular era óbvia, mas o cético árbitro assistente deixou que Sainz manifestasse a falsa alegria de um golo anulado.
César Peixoto deve ter gastado algumas horas na preparação dos pontapés de canto. Tão bem o FC Porto os defende que o Gil Vicente alternou entre batê-los de maneira curta e longa. Tidjany Touré surgiu sozinho, mas o desvio saiu ao lado.
Faltavam ao FC Porto razões para estar tranquilo apenas com um golo de vantagem. O mapa andante Luís Esteves, conhecedor de todas as maneiras de se ligar aos colegas, acertou no poste num livre. Acabou por ser a derivação de um mesmo nome a acalmar os azuis e brancos.
Decorria o minuto 68 quando Martín Fernández entrou e decorria o minuto 69 quando Martín Fernández foi expulso. No pouco tempo entre a substituição e o momento em que o Gil Vicente ficou em inferioridade numérica, o uruguaio não tocou na bola, embora fosse isso que estava a tentar fazer quando cravou a chuteira no peito de Thiago Silva.
A ponta final do jogo foi dos criativos do FC Porto
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Depois, veio o sotaque português. Martim Fernandes encheu o pé de fora da grande área. O remate saiu fraco e rasteiro. Contou também com a sorte de passar entre as pernas de Marvin Elimbi. Mesmo com todos estes contratempos, o tiro desconchavado valeu ao FC Porto uma margem (2-0) muito mais segura e ao lateral o primeiro golo pela equipa principal.
O rigor tático do Gil Vicente dissipou-se com as penalizadoras ocorrências do jogo. Os criativos do FC Porto regozijaram-se. Oskar Pietuszewski voltou a saltar do banco, demonstrando que é um reforço para o agora. Rodrigo Mora isolou Deniz Gül com um passe de calcanhar. William Gomes desfez os tornozelos de Jonathan Buatu na jogada do 3-0.
A monumentalidade de Diogo Costa foi convidada a aparecer após um cabeceamento de Sergio Bermejo ao segundo poste. Uma vez que a distância para Sporting (7 pontos) e Benfica (10 pontos) parece tão segura, o FC Porto vai-se motivando com pequenos objetivos. Na 19ª jornada, chegou ao quinto jogo consecutivo sem sofrer golos no campeonato, o melhor ciclo da temporada. Muito deve à sua última barreira.