Crónica de Jogo

Dois momentos de brilhantismo numa batalha de nervos metem o Sporting entre os melhores dos melhores da Champions

Dois momentos de brilhantismo numa batalha de nervos metem o Sporting entre os melhores dos melhores da Champions
Ion Alcoba Beitia

Um golo aos 90'+4 de Alisson deu a vitória ao Sporting frente ao Athletic Bilbao (3-2), a primeira de sempre dos leões em Espanha, e um lugares no top 8 da Liga dos Campeões, entre a nata da Europa. Os leões pontapearam assim mais dois jogos do seu calendário e seguem diretamente para os oitavos de final

Há qualquer coisa de impenetrável em Bilbau. San Mamés ergue-se em pleno centro urbano, apertado entre prédios onde mora gente de verdade, e não num qualquer subúrbio descampado desprovido de almas. San Mamés é um organismo vivo da cidade, não um apêndice visitado a cada duas semanas. Sobreviver aos 50 mil que o enchem a cada jogo é o primeiro de todos os desafios.

E o Sporting titubeou, sim, num primeiro momento perante aquela sólida parede de som. Demorou a encontrar um chão, penou até, como que manietado, para no final dos 90 minutos poder afirmar que não só sobreviveu à batalha de nervos que foi todo o jogo com o Athletic como a vitória militar, por 3-2, valeu um estatuto inédito para equipas portuguesas neste novo formato da Champions.

Um formato que foi feito para os grandes se acotovelarem com os gigantes por um os oito primeiros lugares, talvez não para alguém vindo de outras paragens se esgueirar como quem não quer a coisa, mas o Sporting entrou ali com estrondo e mérito. Não terá sequer de passar pelas agruras do playoff: sendo a 7ª melhor equipa da Liga dos Campeões, vai diretamente para os oitavos de final.

Os altos e baixos emocionais do futebol são imprevisíveis e difíceis de domar. O Sporting entrou praticamente a perder, quando aos 3 minutos Oihan Sancet colocou um ponto final em forma de golo numa sequência de maus passes, perdas de bola e fofice geral dos leões. E demoraria a tomar as rédeas de um jogo que cedo se pôs nervoso. O Athletic está mal dentro de portas e tinha na Champions uma espécie de bote salva-vidas - notou-se nos primeiros minutos vigorosos, sabendo que tinha de ganhar o ambiente, não fosse ele virar-se contra si.

Ion Alcoba Beitia

O empate do Sporting, pouco depois, com Diomande, num canto, a fugir a Berchiche para marcar de cabeça, não era propriamente um presente esperado, mas o Sporting fez depois por o merecer, procurando assentar o seu futebol, perdido algures no caos criado pela atitude feroz do adversário. Porém, a narrativa continuava inquieta de parte a parte. O Athletic colocava-se com rapidez na frente, com poucos toques, parecia desconcertante para um Sporting habituado a fazer o mesmo aos adversários nos seus melhores momentos.

A lesão de Gonçalo Inácio foi um golpe e a entrada de Matheus Reis uma necessidade. A tentar agarrar o jogo, o Sporting viu o brasileiro deixar Guruzeta fugir, não se preocupando em acompanhar a marcha do basco, que teve tempo de rematar ao poste e depois ainda recolher a recarga para voltar a colocar o Athletic em vantagem. Ainda antes da meia-hora já o duelo dava um filme.

Sem resposta criativa para ultrapassar as linhas bem aconchegadas do Athletic, a 1ª parte do Sporting tornou-se de um sofrimento atroz, sem conseguir unir uma jogada, sem arte para galgar metros, perante um rival sempre agressivo e com necessidade de o ser. Mas o filme mudaria depois do intervalo.

As entradas de Pote e Morita voltaram a colocar a história do encontro nos carris em direção a algo que o Sporting só no final pareceu acreditar ser possível. O português trouxe soluções no ataque, o talento para os leões fugirem da fisicalidade do adversário, o nipónico a pausa que era imprescindível. Aos 62’, num raro momento de brilhantismo num encontro em que ele não teve licença para entrar, Pote e Trincão combinaram brilhantemente na passada no corredor central, com o segundo a ficar isolado frente a Unai Simon.

Luis Tejido

O empate era mais penalizador para a equipa da casa, sob o risco de sair já da Champions, e o Sporting começava a sonhar com algo mais. Nos últimos minutos, com um San Mamés em ebulição e os jogadores do Athletic já desesperados, o jogo partiu-se.

De tal maneira que Luis Suaréz ainda se questionará como apareceu, já bem depois dos 90’, completamente isolado em frente a Simon, depois de um canto na área do Sporting em que a equipa da casa só se lembrou de atacar. Perante tamanha oferta, o colombiano até se deslumbrou: atrapalhou-se, num ligeiro tropeço, e isso seria suficiente para ajudar o guarda-redes titular da seleção espanhola a melhor posicionar-se para travar o remate. Só que a recarga calhou a Alisson, recém-entrado, fresco, que driblou um par de adversários - novo raro momento de brilhantismo na batalha - para fazer o 3-2 final, vitória, a primeira de sempre do Sporting em Espanha, que permitiu um pulo glorioso para os leões, que acabam a fase de liga da Champions com dois triunfos especiais. E um lugar entre os melhores dos melhores.

Bilbau tem qualquer coisa de impenetrável, mas este Sporting tem algo de épico.

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