O puto maravilha do FC Porto desbloqueou a estrada para o descanso na Liga Europa
Rodrigo Mora foi titular, marcou um golo e foi a divergência de que o FC Porto cedo precisou
Diogo Cardoso
Pela primeira vez esta época, os dragões tiveram que perseguir uma desvantagem no marcador em casa. Não durou muito tempo: o pressionante Rangers incomodou na saída de bola, mas, guiado pelas pinceladas do talento de Rodrigo Mora, o FC Porto deu a volta (3-1) ainda na primeira parte. Depois, como é seu costume, arrefeceu o jogo, fez o suficiente para controlar e garantiu a passagem direta aos oitavos de final da Liga Europa
Não seria exatamente assim, incomodado quando com a bola, a sentir arrelias de desconforto a lidar com ousadias de pressão alta do adversário, que o FC Porto gostaria de ter arrancado o seu jogo no meio da catrefada de jogos que a UEFA, pelo segundo ano seguido, nos apaparica na derradeira noite da fase liga das suas provas, ávida vendedora da ideia de que mais conteúdo de pontapés da bola, à maior se decorrer em simultâneo, equivalerá a saltos dados pelo nosso entusiasmo.
Nesta Liga Europa macaquinha de imitação com os 18 jogos em simultâneo que são uma balbúrdia de conteúdo, porque a UEFA parece encará-lo como tal, mas numa versão light de -30% ou algo assim de calorias na pompa dos nomes envolvidos, ao sexto minuto já o FC Porto era maltratado pelo Rangers ao tentar sair com passes curtos da sua área. Os escoceses pegaram alto nas marcações ao homem, chatearam Kiwior, taparam a escapatória óbvia para Francisco Moura, o lateral que estava mais ao centro como é habitual, e, sem querer bater a bola longa lá para a frente, sobrou-lhe tentar encontrar Pepê.
Perdida a bola, James Tavernier rápido a pôs em Findlay Curtir que a cruzou à cabeça de Djeidi Gassama. Do lateral com várias épocas de golos aos dois dígitos, ao extremo cruzador para o atacante driblador foi um instante e o Rangers marcava na mesma volta ao relógio que o Viktoria Plzeň na jornada anterior, autores de uma obra: feriam cedíssimo o FC Porto que no campeonato, dos quatro golos sofridos, só consentira um (ao Moreirense) na primeira parte. Com uma hipótese de assinalar outro marco simbólico, um de alento, na sua temporada, a equipa arrancava com uma má novidade.
Foi depois um período de lombas para os dragões, a construção das suas jogadas a sofrer com o trânsito de corpos posto no seu meio-campo. Alan Varela era tapado, os centrais pressionados como os laterais, Froholdt sempre perseguido nas suas correrias para tentar arranjar espaço. Chocada contra um bloco alto como nunca esta época dentro de portas, o FC Porto via-se carente da divergência, de alguém que agitasse as águas dos encaixes. Muito vespertino se viu também quem haveria de as providenciar.
Rodrigo Mora marcou o seu segundo golo esta época na Liga Europa
FERNANDO VELUDO
Ainda Diogo Costa não tinha ido buscar a bola à sua baliza já Rodrigo Mora se pusera a tabelar com Samu, a fugir de adversários, a tentar o passe difícil de tão bonito que seria para encontrar Pepê, lá longe, em vez da falsa fealdade do simples lançamento curto rumo a William Gomes. Sintoma de quem dado é aos abanões no banal, era com receções orientadas, a sua finta curta ou através de tentativas de lançar companheiros no espaço que o “wonderkid”, cognome vindo de Francesco Farioli, fazia por libertar o FC Porto das algemas da pressão intensa do Rangers.
Com a meia-hora de jogo à vista, a equipa encaixou no Rangers, pôs-se esperta a pensar e executar mais rápido no passe e em Mora teve o desbloqueador da jogada que o próprio finalizaria (27’), na área, após a acelerar no miolo. Um nico de sorte ajudou: quem o serviu foi um corte de um adversário. Com pressa lançou depois Pepê, pela esquerda, feito lebre a fugir com a bola de Tavernier transformado em tartaruga, só parado à boca da baliza por um deslizante Emmanuel Fernandez.
Mais certo na saída de bola, o FC Porto melhorou quando mais agressivo se pôs nos duelos, nas disputas, pois era na bola recuperada, a apanhar o Rangers na transição defensiva, que mais desorganizado apanhava o adversário. O aumento das chegadas à área escocesa significou algum murchar da pressão alta dos de Glasgow e os dragões pouca cerimónia fizeram a aproveitá-la.
Vendo Francisco Moura a atacar a última linha, Bednarek catapultou o passe para o lateral quase o apanhar, mas ficar com a sobra da atrapalhação entre Tavernier e o guarda-redes Jack Butland. Prensaram a bola numa sandes mista de corpos e o português tocou-a para golo (36’) à carteiro, só a enfiar o envelope na caixa. O ímpeto já era todo portista, o perlimpimpim de Mora pincelava as jogadas diretas da equipa. O terceiro golpe não tardou a aparecer, na costumeira bola parada a que este FC Porto já habitou: na disputa com Bednarek ao primeiro poste, Hernandez desviou (41’) para a própria baliza. Foi o 15º golo portista esta temporada vindo de um canto.
O FC Porto marcou mais um golo vindo de bola parada
FERNANDO VELUDO
A fatiota indesejada de perseguir uma desvantagem, em casa, pela primeira vez esta época assentou porém bem aos dragões. À boleia de Rodrigo Mora, o seu puto maravilha que antes jogava como tal, descrito como tal por Farioli face ao quão ele se chegava à frente e chamava a si a responsabilidade de resgatar a equipa dos poços em que se fartou de cair com o treinador anterior. Não era o gedelhudo quem estava mal, era o contexto no qual estava metido.
Nas atuais circunstâncias do FC Porto atlético nas correiras, pressionante após a perda de bola, coeso na montagem sem ela, mecanizado no risco quanto baste que assume ao atacar, a imensidão de talento de Mora conhece alguma austeridade. Já não deambula disperso no marasmo, a parecer onde quer, mas joga e faz jogar no meio de uma unidade coesa que tentou o habitual na segunda parte: arrefecer o ritmo para controlar as operações.
O jogo minguou em frenesim com o encolhimento dos dragões. Recuadas as suas linhas, abrandadas as posses de bola para o ralenti já visto na equipa que faz hábito de focar a sua pressa antes do intervalo para ficar no lado bom do placard, o FC Porto afastou-se da baliza de Butland e aproximou-se da sua. O médio Nicolas Raskin, bom de bola, testou de longe as mãos de Diogo Costa. Aqui e ali Youssef Chermiti, avançado que ainda procura ser mais golo do que toques tépidos nas jogadas, dava-se aos ataques do Rangers a jogar de costas para o alvo, servindo de apoio.
Já eliminado da Liga Europa, aos poucos a equipa de Glasgow fez o contrário aos dragões. Findou o descanso dos uns quantos dos seus mais preponderantes jogadores. Tirou o avançado Thelo Aasgaard e o extremo Mikey Moore do banco, acabava com a poupança enquanto Farioli aproveitava para poupar Froholdt e Samu. A locomotiva e o goleador, de utilização incessante, vagaram lugar para Deniz Gül e Pablo Rosario, também entrariam Borja Sainz e Martim Fernandes, era o FC Porto a gerir tudo o que podia.
Com o conforto da vantagem, Farioli fez descansar Froholdt na segunda parte
NurPhoto
No meio da balbúrdia das 36 equipas a jogarem ao mesmo tempo, nesta invenção da UEFA que pariu a novidade de hoje as equipas lutarem por ficarem com menos jogos (entre irem diretas para os oitavos de final ou disputarem um play-off), o FC Porto começou a partida no 9º lugar, mas caiu para o 13º ao sofrer o golo, ficou em 7º ao dar a volta e quando já morna estava a ação, sem oportunidades de golo ou grandes rasgos, já era 6º. Acabaria na 5ª posição, certo de que gozará de um fevereiro livre de jogos a meio da semana - na companhia do SC Braga, colado logo a seguir na classificação.
O último a ser substituído, aos 81’, seria Rodrigo Mora, único a pincelar com toques de arte, incluído um tunel a Tavernier, o capitão do Rangers, uma vagarosa segunda metade portista. Saiu para entrar Gabri Veiga, outra moda no FC Porto, uma troca vice por versa habitual, mas surgida mais tarde do que o rotineiro (costuma ser à volta da hora de jogo). Terá sido a versão fariolesca de um prémio à exibição não exuberante, embora radiante do adolescente bonito aos olhos dos adeptos, de golos feitos (quatro) esta época só no Dragão. Sem ele, a equipa ainda remataria por Pepê e Borja Sainz, sem perigo de anotar.
E o FC Porto acabou como exatamente como quis, desobrigado a grandes esforços e feliz da vida pelos oitavos de final da Liga Europa - e algum descanso - garantidos.