Crónica de Jogo

O Casa Pia meteu a colher e o namoro entre o FC Porto e a invencibilidade não deu em casamento

Gansos festejam a primeira vitória em casa
Gansos festejam a primeira vitória em casa
CARLOS BARROSO

Numa quase total rentabilização das visitas ao ataque, o Casa Pia contestou a solidez defensiva do FC Porto e impôs a primeira derrota (2-1) aos dragões no campeonato. Em 45 minutos, os azuis e brancos sofreram metade dos golos que tinham concedido nas 19 jornadas anteriores. A relação com a invencibilidade terminou, mas a amizade com a liderança vai continuar

Lá porque são o palco dos sonhos, não significa que os estádios sejam recolhidos em tempos de tempestade. O de Rio Maior, não sendo pantagruélico, tem dimensões suficientemente vastas para não caber ao enxuto.

O guarda-redes do Casa Pia, Patrick Sequeira, tinha no equipamento provas inequívocas da lubrificação do relvado. Borja Sainz foi às imediações da baliza para a qual o FC Porto atacou na primeira parte e viu-se a representar o Bambi em cima do gelo, um papel merecedor de um Oscar, não tivesse ficado demasiado enlameado para o ir receber. O terreno estava difícil e propício a escorregadelas. Os portistas caíram que nem dragõezinhos.

Afrontando as regras da boa organização, o FC Porto desceu no mapa sem primeiro ter arrumado a casa. Nas costas da visita ao Casa Pia, os dragões continuaram envolvidos em negociatas. Depois da chegada de Terem Moffi, que ainda teve tempo de se atirar para a bagageira rumo a Rio Maior, veio Seko Fofana e partiu Stephen Eustáquio.

A equipa azul e branca teve mais cuidado na preservação da sua imagem exterior do que na manutenção dos seus aposentos. Foi isso suficiente para bater o antepenúltimo classificado da I Liga, pela segunda vez este ano usurpador de pontos frente aos grandes? Nem por isso.

Larrazabal inaugurou o marcador
CARLOS BARROSO

Abdu Conté e Larrazabal, cada um na sua ala, são garantes de pujança na chegada. Não se preparam para montar uma exposição com as escassas demonstrações que conseguiram fazer dela. No entanto, a insistência do primeiro, à qual se seguiu a finalização do segundo, garantiu um feito, por estes dias, quase histórico. O FC Porto sofreu o primeiro golo no campeonato em 2026 numa rara perturbação à segurança da sua baliza.

A partir desse momento, o visto do Casa Pia para visitar o meio-campo ofensivo foi cancelado. Tratou-se da primeira vez na temporada que, no meio-campo do FC Porto, existiu espaço, de início, para os dois pisteiros Alan Varela e Pablo Rosario (Victor Froholdt, que estava em dúvida, descansou os cavalos do seu potente motor). Por isso, os gansos não iam longe quando os dragões perdiam a bola.

O lado direito - avivado pelo aconchego de Pablo Rosario ao corredor - dirigia cruzamentos com potencial para zonas sensíveis da defesa. Eram poucas as manifestações de jogo interior do FC Porto, sendo que, quando Gabri Veiga recorreu a essa opção, fez um remate perigoso para defesa de Patrick Sequeira.

Thiago Silva não fala a mesma língua de Jan Bednarek e a solidez defensiva do FC Porto fundou-se em polaco. Sem Jakub Kiwior no onze, o central brasileiro colocou um livre lateral de Abdu Conté dentro da própria baliza. Em 45 minutos, a equipa de Farioli sofreu metade dos golos que tinha permitido nas 19 jornadas anteriores.

O 2-0 tornava verosímil a perda da invencibilidade do FC Porto. Pablo Rosario deu mostras de que trouxe incluído um modo que lhe permite pensar mais à frente e menos atrás. Com 52 segundos jogados na segunda parte, e com a bola a jeito de um fuzilamento da baliza, encurtou o tempo em que se pensou que os líderes do campeonato estavam fora da luta pela vitória.

Borja Sainz em duelo com Tiago Morais
CARLOS BARROSO

Já ninguém roubava a Thiago Silva o desgosto por ter marcado o primeiro golo ao serviço do FC Porto na própria baliza. Numa válida tentativa de atenuar esse fardo, desviou subtilmente um canto. Patrick Sequeira negou-lhe a correção.

Victor Froholdt esteve em vias de falhar o jogo devido a sintomas gripais. Enfrentar o frio com uma débil armadura de calções e t-shirt deve ter feito a sua progenitora querer puxar as orelhas ao seu menino de rosáceas. Do banco saltou também Deniz Gül, o avançado que salvou o FC Porto na única situação - contra o Moreirense - em que os nortenhos tinham estado em desvantagem num jogo do campeonato.

As substituições não tiveram o efeito desejado. Impacto teve o pé levitante de William Gomes na cabeça de David Sousa. Nos últimos 12 minutos (junto com os 11 de compensação), os portistas contaram com menos um ajudante.

Desesperados por pontos e pela primeira vitória em casa esta época, os jogadores de Álvaro Pacheco podiam ter respirado de alívio mais cedo. Clau Mendes vacilou numa jogada de claro aproveitamento da superioridade numérica.

A identidade vincada do FC Porto (55 pontos) causou uma goleada emocional aos rivais. Porém, realisticamente, a distância pontual talvez não tenha correspondido ao quão abatidos pareciam estar os perseguidores. Uma eventual derrota na receção ao Sporting (51 pontos) pode deixar os leões a apenas um ponto. Quem é que chamou a incerteza?

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