Crónica de Jogo

Indiferença, burocracia, espanto, emoção, Geny, eis o espinhoso caminho do Sporting

Geny Catamo marcou o 3-2
Geny Catamo marcou o 3-2
ANTÓNIO COTRIM

Um jogo que chegou a parecer decidido tornou-se um embate cheio de incidências, com os leões derrotando (3-2) o AFS para chegar às meias-finais da Taça. O último classificado da I Liga recuperou de uma desvantagem de dois golos e, em dia de regresso de Nuno Santos após 467 dias ausente, Catamo foi o herói aos 117'

Indiferença, burocracia, espanto, emoção, Geny, eis o espinhoso caminho do Sporting

Pedro Barata

Jornalista

O jogo que principiara às 20h45 passou por tantas fases que, ao entrar na última hora antes de passarmos para sexta-feira, era difícil recordar que este encontro, o desafio que estava no prolongamento, era o mesmo que arrancara com Luís Guilherme em destaque. Parecia tudo tão misturado, tanta coisa colocada na máquina de fazer sumos, que era difícil distinguir sabores.

Bem, estava 2-2 quando tudo se decidiu. Quando se tornou mais nítido, ao minuto 117. Geny Catamo está habituado ao papel decisivo, seja no Sporting, seja por Moçambique, que o tem como grande ídolo desportivo. Foi ele quem pareceu chamar os leões à razão, estancar a hemorragia, abandonar a hipótese de ainda mais surpresas.

Por aquela altura, a ameaça dos penáltis conferia aleatoridade ao desfecho dos quartos de final. Geny evitou-o, mas o 3-2 não esconde motivos de preocupação em cadeia: ter concedido o empate à pior equipa do campeonato, ter voltado a sofrer muitíssimo para ganhar, ter sido forçado a disputar um prolongamento — mais todo o tempo de compensação — na antecâmara da visita ao líder do campeonato.

Disputou-se um jogo singular em Alvalade. De um lado estava uma equipa com a mente a 300 quilómetros e a 96 horas de distância, um pensamento inevitável quando vem aí um dos encontros mais importantes da época; do outro estava uma equipa que, a caminho da descida na I Liga, teve direito a uma noite de distração, como um condenado que, ao rumar à forca, tem autorização para entrar num bar e tomar um último copo antes do inevitável desfecho. E diga-se que aproveitou o momento para se divertir.

Não só por isto foi curioso o serão lisboeta. Disputaram-se os quartos de final depois de as meias-finais já terem arrancado, meias-finais essas que tiveram ontem a sua primeira mão mas cuja conclusão será somente no final de abril. Portugal e uma sui generis relação com os calendários, um clássico.

Mas eis que, inesperadamente, aconteceu futebol. O serão estava decidido, seria uma contenda burocrática, um carimbo num papel e não algo emocionante. Mas aconteceu futebol e o que se antevia monótono ganhou emoção à medida que 5 de fevereiro terminava e se aproximava o sexto dia do segundo mês de 2026.

O AFS empatou através de dois penáltis. Este é o primeiro, de Pedro Lima
Gualter Fatia

A chuva, inclemente há semanas, tirou folga durante boa parte do dia na capital, como se pouco interessada no jogo. Também os adeptos leoninos não se mostraram especialmente entusiasmados com a eliminatória, circunstância normal para uma partida às 20h45 de um dia de semana contra um adversário que se candidata a pior equipa da história da I Liga. As bancadas despidas faziam lembrar outros tempos em Alvalade, de tal forma que, a certa altura, temeu-se que as cadeiras todas verdes virassem coloridas.

Os visitantes, que às vezes são chamados AFS, outras AVS, em ocasiões Aves SAD, enfim, uma entidade que talvez tenha mais designações do que pontos no campeonato, começaram atrevidos. Tomané é um velho caminhante da bola, um veterano de mil batalhas. Usando-o como referência para o jogo direto, a equipa de João Henriques conseguiu esticar-se e forçar João Virgínia a defender remates de Neiva e Rivas na vintena inicial de minutos.

No entanto, permaneceu sempre uma ideia de inevitabilidade em Alvalade, como se da lei da gravidade se tratasse, inescapável e incontornável. Quando Suárez dançava e jogava, quando Luís Guilherme acelerava, o AFS lembrava-se que só tinha mesmo direito a este copito antes da condenação. Mas aproveitou-o ao máximo, recusando-se ao inevitável, desafiando a lógica, resistindo e combatendo.

Antes do inesperado, foi o momento para Luís Guilherme se soltar. Começou pela direita, foi à esquerda, terminou na direita. Desequilibrou, arrancou, fintou. Aos 29', apontou o 1-0 no tipo de lances que os dribladores canhotos sempre imaginam, fletindo para o meio e atirando ao poste mais distante. Não marcava desde 25 de abril de 2024, num jogo do Palmeiras contra o Independiente del Valle.

No recomeço da partida, Mangas combinou com o reforço brasileiro e serviu Suárez. O colombiano, a meias com Paulo Vítor, dobrou a vantagem local. Foi, ainda assim, um jogo de desacerto na finalização para o artilheiro colombiano. Fosse Simão, fosse a falta de pontaria, o cafetero do futebol multiplicador de vantagens ofensivas foi sempre negado nas suas intenções, a mais flagrante de todas já no prolongamento, com a baliza aberta, conseguindo a proeza de não fazer o golo.

Nuno Santos jogou pelo Sporting pela primeira vez desde a grave lesão de outubro de 2024
ANTÓNIO COTRIM

À passagem da hora de jogo, a eliminatória estava decidida. Fazia-se contas a quem Rui Borges pouparia para o Dragão. Mas João Henriques fez mexer o banco, lançando Perea, Akinsola e Baroan, e a ida do AFS ao bar tornou-se mais prazerosa. A igualdade dos visitantes apoiou-se no relaxar dos visitados. Aos 63', um penálti cometido por Hjulmand levou Pedro Lima para o ponto de penálti, reduzindo para 2-1.

Antes do 2-2, houve momento significativo em Alvalade. Após 467 de calvário, Nuno Santos voltou após a lesão grave que sofreu em Famalicão. Foi muitíssimo aplaudido.

A emoção terá recordado um embate amigável, mas a realidade do AFS não era essa. Com pouco a perder, lançou-se com coragem. E foi premiada numa má abordagem de Vagiannidis. Nenê, que no verão cumprirá 43 anos, forçou o prolongamento em novo castigo máximo.

Na meia-hora adicional, o exercício de resistência do AFS obteve contornos de luta para ver quem se aguentava de pé, com futebolistas caindo sucessivamente. Pedro Lima acabou de rastos, quase como se fosse menos um, Nenê tentava tapar buracos e contrariar a idade. O Sporting, que foi da indiferença para a displicência e terminou em nervos, ia vendo Suárez divorciado com o golo e Simões acertar na barra.

Geny Catamo não será o mais talentoso jogador do Sporting. Também não será o que mais vezes decide, nem sequer é o nome mais popular dos bicampeões. Só que, quando a coisa treme, quando os acontecimentos exigem serenidade entre o caos, precisão no meio do que é confuso, podem contar com ele. Drible curto, remate potente, uma chicotada saída do pé esquerdo.

Uma equipa a respirar de alívio, a outra a lamentar-se não ter aguentado mais um pouco. Ambas prosseguirão os seus caminhos, uma para defrontar o FC Porto — no campeonato e nas meias-finais da Taça —, outra rumo ao destino que lhe está traçado depois de terminar esta bebida, olhar para trás, sair da porta do bar e ver o carrasco à espera para acionar a forca.

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