Crónica de Jogo

Portugal está no cume do futsal, onde viu a Espanha a espetar a sua bandeira e conquistar o Europeu

Antonio Pérez a celebrar um dos golos que marcou a Portugal na final. Seria depois eleito o melhor jogador do Europeu
Antonio Pérez a celebrar um dos golos que marcou a Portugal na final. Seria depois eleito o melhor jogador do Europeu
Chris Ricco - UEFA

Na sua terceira final consecutiva em Campeonatos da Europa, a seleção nacional esteve uma e outra vez à caça do prejuízo contra os espanhóis, passando os 40 minutos ora a perder ou a conseguir empatar o jogo. Portugal perdeu (3-5), não conseguiu ser tricampeão europeu e viu o rival ibérico ganhar a prova pela oitava ocasião

Tinha dito Jorge Braz, “é uma oportunidade para sermos quem somos”, confiando nas suas palavras foi isso que Portugal não perdeu tempo a querer mostrar. O remate inaugural veio de joelheiras, cotoveleiras e mangas comprimidas, saído da baliza de fluorescente para ir lá à frente tentar uma gracinha. No lance seguinte, Pany Varela imitou o guarda-redes Bernardo Paçó na intenção, não na força, ao tentar picar com jeito a bola sobre o corpo de Dídac Plana. A seleção nacional pressionava alto, estava desperta, caía em cima dos espanhóis, protagonizava dois minutos de um início de rompante na final. O problema foram os dois seguintes.

Ou melhor, as duas primeira idas de Espanha ao ataque: Antonio Pérez marcou servido por um pentear de bola artístico de Pablo Ramírez, a cumprir o seu papel de pivô; no ataque seguinte correu José António Raya, pela direita, para marcar outro golo e concluir uma veloz transição espanhola após roubar a bola. Portugal parecera entrar bem, afinal começava mal, era o futsal a mostrar no palco-mor, perante o maior número de olhos, o frenesim da sua pulsação.

O calmo Jorge Braz acentuou então o carroussel de substituições e a seleção serenou, os mais novos misturaram-se com os mais calejados e a mistura atinou-os com o alvo. Afonso Jesus reduziu a desvantagem na área, um golo de encostar a estreá-lo entre os marcadores deste Europeu. Ele esticou o braço no ar com a camisola já não enfiada dentro dos calções, desfraldado da imagem de marca tal como Portugal não demonstrava a sua. Foi, portanto, um golo para urgir regressos.

A seleção atinou, os erros minguaram, a defesa das investidas espanholas acirrou para haver calma no jogo nacional, sem pressas ou caças a prejuízos. O pára-arranca de Pany Varela na esquerda para rematar à mínima nesga. As fintas de bairro de Kutchy. O pé esquerdo de Erick Mendonça a segurar a bola na frente, as fintas curtas de Lúcio Rocha. E a genial receção fundida com rotação de Rúben Góis, a girar com a bola ao acolher um lançamento lateral para engavetar com estrondo o empate no ângulo superior da baliza.

Portugal amordaçou a final. Tornou-a sua no ímpeto, no ritmo e na iniciativa, a pressão agressiva em cima da baliza obrigou os espanhóis a errarem nas saídas, somando passes colocados para fora de campo, eram os portugueses quem celebravam cortes como golos, mas o jogo contentou-se com os que já tinha à medida que a seleção somou perigosamente faltas. Era o reverso da boa agressividade nas disputas - chegou às cinco, depois às seis, quando Espanha já ameaçara noutra das suas transições rapidíssimas.

O castigo de Antonio Peréz no livre sem barreira, a 10 metros, deu em golo com ricochete no braço de Bernardo Paçó e os portugueses iam ao balneário matutar uma desvantagem. Sobravam 20 minutos para se tentar evitar uma primeira derrota em Europeus desde 2016, antes de se enfiarem duas conquistas seguidas no almanaque do futsal nacional.

Outra vez uma parte despertou com susto, quase a Espanha marcou cedo, incompleta apenas no corte de Pany Varela em cima da linha de golo, foi um dos antigos a salvar para num dos ataques posteriores quase duplicar o salvamento com uma remate fulminante que bateu no poste a desvio do guarda-redes Dídac Plana. Vivaça haveria de permanecer a final com os portugueses ainda mais pressionantes e os espanhóis à coca de chances para atacarem na vertigem.

Bernardo Paçó contra Antonio Peréz no livre de 10 metros
Chris Ricco - UEFA

O prejuízo obrigava a urgência a ser de Portugal também, mas era a Espanha a amigar-se do perigo, noutro movimento de poucos passes foi Adolfo, de primeira, a rematar para Paçó negar um golo ao desviar a bola para o poste com uma parada de instinto. No jogo de bloqueios a jogadores, desmarcações a regra e esquadro e movimentações-cortina para vagar espaço a certos passes eram os sete vezes campeões europeus a ameaçar mais vezes.

A partida ganhava ares de estagnação do ritmo quando a genica de Pauleta a pressionar forçou um passe mal feito que Pany Varela intercetou, num momento de defesa no próprio meio-campo, para logo lançar o canhoto que sagaz se mostrou a receber e rematar com prontidão. A seleção voltava a empatar, mas despertava uma avalanche.

Os minutos seguintes trouxeram um tridente de arrelias nos remates de Gordilho, Rivillos e Ramírez, todos com perfume de golo e a Espanha a abusar do jogo para o último, pivô de fino toque no corpo de armário que usa com a agilidade de uma bailarina nos espaços curtos, como aquele em que Cecilio Morales recebeu a bola na área e rematou ao poste. Era o aviso de uma montanha prestes a crescer de novo: Antonio Pérez, calmo a iniciar uma jogada, de repente acelerou, tabelou com Cecilio e foi à outra área finalizar o 3-4. E faltavam menos de cinco minutos por jogar final.

O pesado, sobretudo cansativo atrelado de ter de ir atrás de uma desvantagem era outra vez de Portugal, esse um reboque que não abona a favor de nervos, ansias e clareza de espírito para se tomarem as melhores decisões, mas lá foi a seleção de novo, a ter de se embalar noutra perseguição na final onde não conseguia ser a perseguida, ainda mais quando o pé esquerdo de Mario Rivillos, procurado pela Espanha a cada bola parada, disparou um foguete ao poste.

A urgência precipitou a seleção nacional contra os espanhóis e cada posse de bola punha Portugal a jogar com guarda-redes avançado. Era momento para arriscar, mas o risco apenas empurrou o perigo para a baliza portuguesa onde Diogo Santos, de cabeça e em cima da linha, a livrou de sofrer mais um golo. Nunca os portugueses incomodaram realmente o adversário nos ataques em superioridade numérica, órfãos de uma jogada com rasgo, um drible desavindo com a ordem instalada ou de um remate genial.

Quem apunhalou o golpe claudicador de Portugal seria o melhor jogador em campo - e do torneio. Antonio Pérez, tipo que nem se dá muito por ele, austero em gestos e aparatos, só que genial na eficácia das suas ações, um dínamo de bem feitoria das pequenas coisas que voltou a partir de trás, desviar corpos, galgar metros e assistir Adolfo para o quinto golo. Restavam uns segundos no relógio, serviram só para engordar um falso suspense.

Os jogadores espanhóis a erguerem o troféu de campeões da Europa
Damjan Zibert - UEFA

A Espanha conquistou o seu oitavo título europeu e devolveu-se a estas conquistas uma década volvida, vingando a derrota que Portugal lhe impôs em 2018 quando se desforrou do que o vizinho ibérico fizera oito anos antes, um tu-cá-tu-lá que mostra como os países se acotovelam no topo do futsal, verdade para as provas de seleções e de clubes. Para jogadores como Bruno Coelho (38 anos) e Pany Varela (37) não haverá mais noites destas, já tiveram as suas, ao contrário das que esperam a Lúcio Rocha, Kutchy, Diogo Santos ou Rúben Góis.

Não se falhou, apenas faltou a bandeira espetada no chão. Como resumiu numa das suas analogias, antes da final, o sábio Jorge Braz, selecionador nacional com 16 anos disto: “Já estamos no topo.” Também disse que faltava colocar lá a bandeira de Portugal, o que já foi feito. E há talento para rever os espanhóis lá no cume da montanha.

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