Crónica de Jogo

Mora trouxe luz para a neblina, mas a recarga de Suárez mantém a diferença entre FC Porto e Sporting

Suárez faz o 1-1
Suárez faz o 1-1
MANUEL FERNANDO ARAÚJO

Num clássico de pouquíssimas oportunidades de golo, dragões e leões empataram (1-1) e seguem separados por quatro pontos. Fofana, em estreia, marcou após uma rara ação de clarividência, mas a reação do Sporting valeu a igualdade

Mora trouxe luz para a neblina, mas a recarga de Suárez mantém a diferença entre FC Porto e Sporting

Pedro Barata

Jornalista

Numa noite aos repelões, de futebol de pouca luz, obviamente que os golos tinham de surgir assim. Primeiro uma sequência de ressaltos, futebol como carrinhos de choque, remate e bloqueio, remate e bloqueio, até ao golo num remate bloqueado; depois um penálti que não foi limpo, foi só à segunda, mais um ressalto, mais um solavanco, porque este foi um clássico de pára-arranca, sem fluidez.

Durante grande parte da contenda, FC Porto e Sporting pareceram aceitar o empate. Uns mantinham a vantagem relativamente cómoda, outras não viam a desvantagem ampliada. Não houve qualquer oportunidade de golo durante 75 minutos e ninguém se incomodou muito com isso.

Até que Rodrigo Mora, após um duelo com Fresneda, rejeitou a vertigem, o aleatório, o mandar a bola para um sítio qualquer. Pausou, olhou, pensou, usou o tempo e o espaço e a gravidade e a física e quem sabe até a química como aliados. Abriu um caminho entre a bruma, clarividência perante o caos.

O 1-0, obtido pelos locais no único remate enquadrado que efetuaram, levou os vistantes para uma zona desconhecida deste serão. Urgência, velocidade, ataque. Passaram a criar perigo e, da vertigem ofensiva, caiu um penálti. Suárez, à segunda, deixou o clássico com um 1-1 que mantém a diferença em quatro pontos. Faltam 13 rondas.

Boa parte do jogo pareceu um exercício de fuga à baliza adversária, como uma aula de condução em que se tem de contornar o passeio, sem nunca o tocar, circundando-o, evitando-o, deixando sempre uma distância de segurança. O primeiro remate enquadrado com uma baliza foi aos 57', uma proeza da autoria de Fresneda, cujo disparo foi prensado por um adversário e chegou frouxo às mãos de Diogo Costa.

O mais relevante do primeiro tempo foi a interrupção da partida devido ao uso de pirotecnia por parte de um grupo de adeptos locais, o que mostra como as notas de destaque estiveram longe do relvado. A tarde que antecedeu o desafio foi passada com o nevoeiro caindo sobre a Invicta, mas foi outro tipo de fumo a ser protagonista.

A pirotecnia usada pelos adeptos do FC Porto forçou a interrupção do encontro
FERNANDO VELUDO

Perante a ausência de oportunidades de golo, a pausa no encontro era momento para pensar em Sam Bartram, guardião que tem uma estátua no estádio do Charlton, clube do qual é recordista de jogos disputados. Num embate contra o Chelsea, no dia de Natal de 1937, o cerrado nevoeiro londrino forçou à suspensão do jogo. Mas Sam, cumpridor dos seus deveres e sem ter sido avisado, manteve-se na baliza, achando que a sua equipa estava a exercer um intenso domínio, tal a falta de ação junto de si. Até que, de entre o nevoeiro, surgiu um polícia, que avisou o guardião que há 15 minutos que toda a gente recolhera aos balneários.

Que se gaste um parágrafo a contar um episódio de há quase 90 anos é sintomático. O Sporting até entrou mandão, circulando com conforto, empurrando o FC Porto para o terço defensivo e forçando Farioli a um desconto de tempo, obtido através da recorrente artimanha de mandar o guarda-redes pedir assistência. Após a pausa, os dragões conseguiram sacudir um pouco o ímpeto inicial visitante.

Não obstante, nem os leões que principiaram com vontade de atacar, nem os dragões que melhoraram um pouco depois da palestra do treinador evidenciaram capacidade para gerar chances de golo. As tímidas aproximações ao alvo somente geraram tiros desenquadrados. Varela, à entrada da área, e Fresneda, servido com mestria por Pote, não deram sequências a situações que poderiam ter contrariado o marasmo.

Ao quinto minuto de descontos, um livre lateral batido por Gabri Veiga terá saído do estádio, cruzado toda a cidade e parado na outra margem do Douro, em Gaia. Era o sinal para concluir uma metade inicial de fumo, neblina, de pouca nitidez, escassa clarividência, futebol de faróis de nevoeiro ligados, sem direção explícita.

O recomeço não trouxe um guião extraordinariamente diferente. Samu, lesionado, não voltou, com Deniz Gül para o lugar do espanhol. Pouco depois seria Kiwior a também sair por problemas físicos, substituído por Thiago Silva num momento em que também entrou o estreante Fofana e Mora, chamado para dar luminosidade ao cinzentismo.

O remate de Fofana vai passar entre uma floresta de pernas e fazer o golo
MANUEL FERNANDO ARAÚJO

O jovem cumpriu com a intenção. Antes dos ressaltos e carambolas que levaram ao 1-0, houve a diferença que faz haver alguém em campo com o talento e o cérebro de Rodrigo Mora. Ele esteve na génese do confuso golo apontado por Fofana, que assim teve uma estreia de sonho no clube.

O Sporting, verdade seja dita, exibiu, na parte final, a força mental que vem caracterizando este grupo de jogadores. Durante a esmagadora maioria do jogo, os leões não tiveram arte para o golo, mas a derradeira ofensiva já é uma marca de quem, nas épocas recentes, vem fazendo da crença uma arma.

Trincão, no desterro à esquerda durante boa parte do clássico, foi para zonas onde se sente mais cómodo e logo teve duas ações de quase golo, primeiro num remate em arco, depois servindo Hjulmand, cuja finalização foi cortada por Varela.

Até que, quando a noite ia longa e os apanha-bolas já haviam decidido que era tempo de acabar com o desafio e levar o objeto que devem devolver para casa, um penálti fez o Sporting agarrar-se à luta pelo título. Suárez encontrou a mestria de Diogo Costa nos castigos máximos, mas esta noite de neblina e caminhos pouco nítidos ainda tinham uma segunda oportunidade para uma igualdade que sempre pareceu o destino natural da partida.

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