Crónica de Jogo

Primeiro luminoso e depois cinzento, o Benfica saiu feliz dos Açores

Pavlidis e Prestianni festejam o 2-0
Pavlidis e Prestianni festejam o 2-0
EDUARDO COSTA

Com uma primeira parte de domínio e uma segunda gestão, as águias venceram (2-1) o Santa Clara e colocam pressão em Benfica e Sporting. Pavlidis destacou-se

Primeiro luminoso e depois cinzento, o Benfica saiu feliz dos Açores

Pedro Barata

Jornalista

É preciso dar o mérito a quem se adapta à evolução das circunstâncias. Com sol: golos, ataque, trocas de passe, desequilíbrio, sorrisos. De noite: cautela, gestão, deixar andar, vantagem mínima, vamos lá para casa que isto está feito.

De tarde houve golos, dinamismo. De noite, à medida que o relvado se degradava e as camisolas ficavam manchadas de lama, vestiu-se outro traje.

No fim de tudo, o Benfica derrotou o Santa Clara por 2-1. O desígnio de José Mourinho para a segunda volta era "dar caça" aos rivais e, bem, a coisa não tem corrido mal. À condição, as águias estão em igualdade pontual com o Sporting e a quatro pontos do FC Porto.

A tarde açoriana recebeu o jogo com o sol a brilhar, cenário raro nas últimas semanas do nosso futebol. As nuvens, claro, viam-se ao fundo, mas o panorama verdejante era iluminado, conferindo à partida um amigável toque inicial. Tudo se foi alterando, o sol pôs-se, o campo ficou lamacento, o bucolismo foi trocado pela burocracia. E o Benfica adaptou-se coerentemente.

Rafa foi novamente titular
EDUARDO COSTA

Em São Miguel mora um clube que vive distante das glórias da época passada, quando foi a sensação da I Liga. Não é novo para o Santa Clara andar numa montanha-russa que vai da qualificação europeia à ameaça — e até concretização — de descida, mas os últimos tempos foram particularmente conturbardos. Vasco Matos saiu, a SAD ameaça deixar o arquipélago pela perda de patrocínio do Governo Regional.

Com dois pontos somados nas últimas nove jornadas, o Santa Clara vai vendo o que era uma posição relativamente cómoda transformar-se numa vertiginosa descida pela tabela. A homenagem a algumas das modalidades dos Jogos Olímpicos de inverno augura pouco de bom e Petit, que somou a segunda derrota em dois jogos, deve encher-se de preocupação para a dúzia de rondas que faltam.

Rafa voltou a ser titular no Benfica, reforçando que José Mourinho quer puxar pelo melhor do velocista. É curioso que o Benfica, que há semanas era a equipa dos médios que recuperavam e perdiam bola, juntando Enzo, Ríos, Aursnes, Sudakov e Barreiro no mesmo onze, seja agora um conjunto de criativos, de gente para desequilibrar no último terço, unindo Rafa, Prestianni e Schjelderup.

A cola que liga tudo é Pavlidis. O grego, que nem vinha estando muito inspirado na finalização, é arco e flecha, finalizador e construtor. Em 20 minutos, vimo-lo nos dois papéis.

Primeiro Vangelis correspondeu da melhor forma a um cruzamento de Tomás Araújo, que foi o titular na direita da defesa. O central de origem, que passou parte do encontro com queixas físicas, voltou a provar que está longe de ser um central que não tenha recursos a atacar.

O 1-0 veio aos 16', o 2-0 passados 20 minutos. Pavlidis gosta de se refugiar na esquerda, ziguezagueando, fintando, pedindo a outros que ocupem a área. Galgou pela esquerda e serviu Prestianni, com o golo a acabar por ser de Paulo Victor na própria baliza. Sem encantar, os visitantes chegavam ao descanso com conforto.

Pavlidis marcou um golo e criou outro
EDUARDO COSTA

Se o desafio poderia parecer uma história quase fechada, Trubin encarregou-se de a abrir. Gonçalo Paciência está de volta ao futebol português depois de uma viagem ao estilo de Willy Fog, jogando na Alemanha, Espanha, Japão e Brasil. Aos 47', o cabeceamento do atacante chegou morto à baliza encarnada, mas Trubin reanimou-o. Desde janeiro de 2018 que Paciência não marcava em Portugal. Desde então representou sete clubes em cinco países diferentes.

A redução da vantagem levou o Benfica para um terreno diferente. Já não havia a luz da primeira parte, as combinações fluidas, o golo fácil. Entrou-se numa área mais de gestão, de proteger a baliza, como se condizente com o cair da noite e afetado pela progressiva degradação de um dos piores relvados da I Liga.

Os últimos 30 minutos foram de um tipo pouco agradável de futebol. O Santa Clara não conseguia chegar à frente, efetuando o seu último remate enquadrado aos 54'. O Benfica não queria muito lá ir, não tendo qualquer finalização à baliza no segundo tempo.

O apito final foi-se aproximando como um carro sem travão de mão, mas estacionado numa rua pouco inclinada. Foi descendo, sem nada que o parasse, mas sem vertigem. O desfecho caiu inevitável sem resquícios de mudança. Segue-se o Real Madrid para o Benfica.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt