Do caos radiante ao realismo, o Benfica vai apenas ligado às máquinas a Madrid
O momento em que Vini Jr. marca o único e grande golo da noite, deixando o Real Madrid em vantagem na eliminatória
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O Benfica perdeu por 1-0 frente ao Real Madrid na 1ª mão do playoff da Liga dos Campeões e fica obrigado a ganhar no Santiago Bernabéu daqui a uma semana. O jogo ficou, também competitivamente, marcado por uma paragem de 10 minutos na 2ª parte, depois de Vini Jr. acusar Prestianni de racismo. A partir daí, nada de recompôs
Há no dicionário espanhol uma expressão com pouca equivalência em português e que muito bem define qualquer encontro entre o Real Madrid e José Mourinho. “Morbo”, como dizem eles do outro lado da fronteira, serve para qualificar algo que suscita interesse, mas não um interesse qualquer: um interesse demolhado num qualquer picante.
O jogo de há duas semanas entre o Benfica e os merengues, ainda para a fase de liga, viveu de acordo com as expectativas. José Mourinho, que soará até aos fins dos dias para um regresso ao banco do Real Madrid, um clube que, mais do que um treinador, precisa sempre de um figurão, abordou o jogo de forma desinibida, nem parecendo o Mourinho moderno, com o último lance do jogo, o milagre de Trubin, a dar ainda ao encontro numa espécie de aura mística que durará durante anos e anos, pelo menos enquanto for moda quantificar e colocar em lista “momentos marcantes” de qualquer coisa, neste caso, da Liga dos Campeões.
O jogo do playoff seria, necessariamente, diferente. Para já, falamos de 180 (talvez mais) e não de 90 minutos, 90 minutos esses em modo desesperado. Na fase de liga, o Benfica tinha de ganhar, sim ou sim. E nesta 1ª parte da eliminatória, mesmo jogando-se na Luz, ganhar era importante, mas ficar dentro da decisão mais ainda. Tal serviu para ambos os treinadores, em fases diferentes de um jogo que, infelizmente, seria a partir de certa altura definido, e também desportivamente, por um alegado caso de racismo.
Angel Martinez
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O “morbo” seria servido, portanto, de forma bem mais aguada. Normal nesse jogo de estratégia que se tornou o futebol, onde se pensa demasiado no futuro. Ainda assim, o arranque do Benfica, com a velocidade de Rafa a dar problemas ao meio campo do Real Madrid, deixou alguns olhos arregalados. Não duraria muito, com o Real Madrid rapidamente a subir linhas e a ocupar lugares mais adiantados do relvado.
Percebendo esse movimento tectónico, José Mourinho começou a preocupar-se em secar as qualidades mais celestiais de uma equipa feita de jogadores, mas raramente de um coletivo. Conseguiu durante quase toda a 1ª parte evitar ataques rápidos do Real Madrid, as cavalgadas de Mbappe e Vini Jr., que continuam à procura de uma qualquer conexão telepática, que dificilmente aparecerá. Nos primeiros minutos, o Benfica foi competente a fechar os caminhos para a baliza de Trubin, obrigando os merengues a uma maçante circulação em U.
Quando Valverde conseguia fisgar algum espaço, aparecia o perigo: aos 19’, o uruguaio descobriu Trent Alexander-Arnold nas costas de Schjelderup, com Vinicius Jr. a responder ao cruzamento com um remate ligeiramente ao lado. Na resposta, um remate de meia distância de Aursnes, defletido na sua trajetória, permitiu a Courtois uma extraordinária defesa, plena de reflexos.
No final da 1ª parte, o Real Madrid carregou e em quatro minutos juntou, do nada, quatro oportunidades falhadas às estatísticas. Primeiro numa jogada ao primeiro toque entre Carreras, Vini e Mbappé, depois com Trubin a responder bem a uma entrada do francês pela meia direita, voltando o ucraniano a brilhar após remate em arco de Arda Güler. Antes, Vinicius tinha visto Tomás Araújo opôr-se com um corte providencial. O intervalo veio mesmo a calhar para o Benfica.
Assim parecia, não fosse o arranque da 2ª parte o período mais difícil para a equipa de José Mourinho, que simplesmente só sentiu a bola com os olhos nos primeiros minutos. Piorando o cenário, os encarnados concederam um raro ataque rápido ao Real Madrid, que acabou com um golo de antologia de Vini Jr., um remate em arco desde o lado esquerdo, um momento de inspiração individual difícil, no momento da verdade, de travar.
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O que se seguiu foi um momento de indignidade que o futebol continua a não conseguir controlar: Vinicius Jr. acusou Prestianni de uma injúria racial e o árbitro ativou o protocolo anti-racismo. Durante 10 minutos o jogo ficou parado e não mais se recuperou a partir daí. Não recuperou a sua honra porque tudo isto é feio, disforme porque vai contra toda a alma do futebol, o mais democrático dos jogos, aquele que mais promove o elevador social. E não recuperou competitivamente falando, porque terminou a vontade, a fúria, o apetite para algo mais.
Mourinho tentou mexer, colocando Sudakov e Richard Ríos numa fase em que o Benfica já conseguia tocar na bola, não se limitando a correr atrás dela. Os encarnados começaram a aparecer na área merengue mas sempre de forma atrapalhada. O ânimo de Rafa foi-se desvanecendo com o correr do relógio e Pavlidis teve noite bastante pálida. Os movimentos pendulares de Ríos não causaram mossa e o Real Madrid limitou-se, a partir de certo momento, a gerir a vantagem de um golo, talvez essencial quando a 2ª mão se joga no Santiago Bernabéu.
O 1-0 não deixa o Benfica fora da Champions, mas as perspetivas não são agradáveis: na próxima semana, a equipa de José Mourinho sabe que tem de ganhar, obrigatoriamente, no estádio do rival. Depois do que aconteceu há duas semanas, não se pode dizer que há impossíveis, mas as cartas na mesa são, agora, outras. O caos virou realismo e as 15 taças da Liga dos Campeões no museu dos espanhóis espelham bem quem é a melhor equipa a lidar com a necessidade de pragmatismo nesta competição.