Crónica de Jogo

Benfica encontrou tranquilidade no meio do furacão

Alexander Bah regressou aos relvados mais de um ano após grave lesão. E marcou
Alexander Bah regressou aos relvados mais de um ano após grave lesão. E marcou
Gualter Fatia

No final de uma semana marcada pelo caso Prestianni-Vinícius Jr., os jogadores do Benfica não tremeram emocionalmente e a vitória por 3-0 frente ao AVS terá sido mesmo uma das mais tranquilas da época. Alexander Bah regressou mais de um ano depois e marcou o primeiro golo dos encarnados, que continuam a 3 pontos do Sporting

Honra seja feita aos jogadores do Benfica. Essencialmente por, no meio do furacão onde o clube se meteu na última semana, terem reagido a tudo de forma diametralmente oposta à dos responsáveis da equipa, do presidente ao treinador, até a quem quer que tenha tido a brilhante ideia de colocar aquele vídeo nas redes sociais sobre distâncias e o que podem ou não podem ter ouvido adversários a sair ou não da boca de Prestianni.

José Mourinho, na antevisão que resolveu ofertar apenas ao canal oficial do clube, falou de um momento difícil de gerir emocionalmente, mesmo amenizado, seguramente, por Prestianni estar castigado e assim impedido de jogar frente ao AVS, evitando assim decisões moralmente complexas. Pelo menos para já.

Se foi difícil de gerir - e face à proporção internacional que o caso Vinicius Jr. ganhou, não há como não acreditar - não se notou em campo. O Benfica, ou pelo menos os seus futebolistas, souberam encontrar a tranquilidade no meio do furacão, tratando bem cedo de descansar os adeptos, com o 3-0 final a ser construído ainda na 1ª parte.

Promovendo uma primeira titularidade ao campeão mundial sub-17 José Neto e o regresso de Bah, mais de um ano depois de uma grave lesão, José Mourinho geriu também desportivamente. A meio campo, regressaram Enzo Barrenechea e Richard Ríos, um risco face à coerência de Aursnes e Leandro Barreiro nos últimos jogos - e ao que os dois primeiros não produziram antes disso. Sem Prestianni, Sidney subiu para o lado direito. E não terá sido por acaso que o Benfica afunilou o jogo essencialmente para o lado esquerdo, onde Schjelderup se exibiu com o diabo no corpo.

Os pés do norueguês fabricaram boa parte dos lances que permitiram ao Benfica resolver a questão bem cedo, frente ao último classificado, é certo, mas uma equipa a subir de rendimento com João Henriques. Depois de uns primeiros minutos de dificuldades em encontrar vias para a baliza, aos 10’ Pavlidis veio ao lado esquerdo, Schjelderup tentou o túnel e foi feliz, com o grego a aproveitar o espaço magicado para rematar. Adriel travou o tiro, mas Bah apareceu na área para a recarga. Numa semana com tantas manchas e porradas na alma do futebol, um golo do dinamarquês, depois de um longo calvário, ameniza algumas dores - apesar de tudo, o futebol dá-nos mais histórias de esperança do que o contrário.

Sem medo de ir para cima dos adversários, Schjelderup ia continuando a sua busca pela recuperação moral do futebol. Aos 16’, ofereceu novo golo a Pavlidis, que rematou ligeiramente ao lado. Rafa, também vagabundo, a aparecer tanto à esquerda como pelo meio, quase marcava de trivela depois de tirar Devenish da jogada, com Adriel atento. O Benfica não tinha dificuldades em criar, nem em visar a baliza. O AVS, ofensivamente, nem tinha oportunidade de tentar.

Do canto consequência do momento de levantar o estádio de Rafa, nasceu o canto que deu ao Benfica o 2-0. Richard Ríos ganhou a primeira bola, colocou-a no coração da área, onde apareceu Enzo, bem a sair da marcação com a receção, rematando a contar. Aos 30 minutos, o Benfica estava no controlo absoluto da narrativa. Em campo, claro. Schjelderup, com mais quilómetros de túneis do que o Marão, insistia em oferecer golos a Pavlidis, que ia desperdiçando a boa vontade nórdica.

Gualter Fatia

Não marcou Pavlidis, marcaria Rafa, o seu primeiro golo desde o regresso à Luz e da forma mais Rafa possível. Numa jogada que começou num imenso remate de Schjelderup, o lance seguiria para Sidny e depois para Rafa, a marcar de letra. Na sua aparente ausência, o antigo internacional português soube, ao mesmo tempo, matar o jogo e dar força de lei ao equipamento utilizado pelos encarnados, da autoria de Vhils, uma homenagem ao futebol de rua.

Olhando para o outro lado, só uma debacle épica mudaria o filme do jogo. A 2ª parte foi, por isso, jogada a um ritmo mais contido, com o Benfica a controlar e gerir com bola e a reservar forças para o embate de Madrid a meio da semana, que será uma guerra física e psicológica. Descansou Otamendi e Pavlidis, Diogo Prioste, Anísio Cabral e Ivanovic tiveram minutos, tal como Lukebakio, a regressar de lesão.

Pelo prisma competitivo, não houve consequências do que se viu na Luz na última terça-feira. Em tudo o resto, dificilmente.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: lpgomes@expresso.impresa.pt