O Benfica foi a casa do rei para roubar a coroa, mas o feitiço do Real Madrid foi mais forte
Vinícius festeja o 2-1
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As águias perderam (2-1) no Bernabéu, sendo eliminadas da Liga dos Campeões. Apesar da bela exibição dos visitantes, com Rafa Silva em destaque, a tradicional gestão do resultado dos merengues impôs-se, outra vez com Vinícius a ser decisivo
A gravidade muda de regras, os polos da Terra alteram-se, aqui há leis próprias. No Santiago Bernabéu, o que existe lá fora não se aplica, entra-se num universo paralelo, num lar com costumes e rituais próprios.
Como é que o Real Madrid consegue sempre este exercício minimalista, de jogar pouco e obter muito? O feitiço é poderoso, dura há décadas e capturou o Benfica. Num jogo de bravura e insistência encarnada, os visitantes passaram minutos a tentar, a lutar, apresentando bons princípios e ideias para, no fim, a ditadura do costume impor-se.
Quando Rafa Silva apontou o 1-0, acendeu-se a luz da esperança. Quando atirou à barra com 1-1 no marcador, era evidente que a eliminatória estava ali, pronta para ser agarrada. Tão perto, tão longe, tão recorrente.
Visitar o Santiago Bernabéu numa eliminatória de Liga dos Campeões é como ir a Mordor e defrontar Sauron, mas sem águias mágicas que nos salvem quando precisamos de resgate. O anel do poder desta competição esteve sempre nos dedos do Real Madrid, vencedor das cinco primeiras edições da prova inventada para colocar o continente a defrontar-se num campo de futebol na euforia do europeísmo pós-Segunda Guerra Mundial.
A equipa do castigado José Mourinho deu uma boa resposta, mostrou que era possível, mas talvez seja esse mesmo o centro do feitiço do Real Madrid: levar o outro a acreditar que dá para lá chegar, enchê-lo de esperança, para depois o castigar. Se em Nárnia os tempos negros do domínio da feiticeira eram determinados pela inexistência de Natal, num inverno permamente, no Bernabéu é mais como viver sempre em novembro, esperando que o mês vire para entrarmos no Natal. Mas o mês nunca muda, a esperança não vira realidade.
Com o 1-1 que deixava tudo no fio da navalha, Vinícius foi lançado no espaço por Valverde. O brasileiro, protagonista das notícias na última semana, bateu Trubin para sentenciar o play-off e levar os espanhóis para os oitavos de final, onde o adversário pode ser o Sporting.
Vinícius sentenciou com o 2-1
Angel Martinez
A renovada versão deste santuário do desporto internacional, o disco voador idealizado por Florentino Pérez, tem sido um flop, entre problemas com as obras ou queixas dos vizinhos. Mas o Bernabéu é o Bernabéu, é a casa do rei, e cabia ao Benfica chegar à sala do trono, roubar a coroa e sair ileso.
Os visitantes entraram cheios de intenções, confiantes numa inédita vitória portuguesa no recinto do rei da Europa. Ainda não foi desta, com um registo atualizado de 11 derrotas nacionais e um empate.
Com Ríos de início, numa posição híbrida entre a direita e o centro, as águias tinham Dedic pujante a atacar, Rafa no seu jogo supersónico entrelinhas e Schjelderup como ameaça permanente pela esquerda. Aos 5’, a gazela que regressou à Luz fez um túnel a Asencio antes de disparar para as mãos de Courtois.
O 1-0 chegaria ao 14’, em consequência da excelente entrada dos lisboetas. A dinâmica pela direita funcionou na perfeição, com Dedic a encontrar Ríos, que serviu Pavlidis de primeira. O grego cruzou para Rafa, com Asencio quase fazendo auto-golo pelo caminho. O português confirmaria a vantagem encarnada.
Não obstante, há sempre uma espécie de ingratidão do futebol perante quem se desloca a este relvado. Não se premeia a superioridade, castiga-se a menor deficiência, como se houvesse uma inevitabilidade que sempre beneficia os que vestem de branco. Primeiro erro do Benfica, 1-1. Otamendi falhou um passe, Valverde encontrou Tchouaméni, remate colocado, empate, o Real sempre castigador, mestre em fazer o guião das partidas ir por um caminho e o marcador seguir uma estrada diferente.
Após o começo de noite cheio de atividade, o serão acalmou. O Benfica, aproveitando a passividade merengue, refugiou-se em algumas posses de bola longas, daquelas em que se ouve o silêncio do Bernabéu, um estádio que, quando o Real não ataca, consegue ser estrondosamente calado, como um vulcão há séculos adormecido.
E eis que bum. Novamente o feitiço do Real, que vai da indiferença ao golo. Arda Güler, aproveitando a passividade benfiquista, superou Trubin, mas as linhas do fora de jogo salvaram os forasteiros. Logo a seguir, Ríos, em excelente posição, atirou forte, mas Courtois mostrou que é possível um gigante fazer-se ao chão em frações de segundo, como ver uma montanha agachar-se com subtileza. O intervalo chegou com tudo por decidir.
O 1-0 de Rafa
Clive Brunskill
A segunda parte arrancou com Valverde, Asencio e Trent — Alexander-Arnold agora quer que se lhe chame Trent, um rebranding espanhol para o inglês — ameaçando Trubin, mas rapidamente o Benfica se voltou a aproximar de Courtois.
Rafa Silva surgiu leve e solto no Bernabéu, como se o tempo não passasse por aquele corpo magro, esguio, ágil, vivendo no seu planeta supersónico. Aos 60', acertou de trivela na barra e as águias foram para a meia-hora final com a clara ideia de que algo épico era possível, noção acentuada por uma finalização de Pavlidis que Carreras desviou para canto.
Até que o minalismo merengue regressou. Fazer pouco, obter muito, as regras do costume do Bernabéu. Bastou Tomás Araújo não se impor num duelo e Valverde encontrar Vinícius no espaço para o brasileiro, com facilidade de craque, conduzir rumo à baliza e desviar subtilmente de Trubin. A celebração, em samba junto à bandeirola de canto, fica como a imagem da noite.
Rafa Silva ainda roçou o 2-2 de forma acrobática. A eliminatória terminou com o Benfica com a frustração na boca, a ideia que algo histórico estava ali perto, tão perto, tão distante. É o feitiço do Real Madrid, um ativar e desativar da esperança