O FC Porto ainda foi a tempo de emendar a sua sequela do Monstros e Companhia
William Gomes a celebrar o penálti que marcou, já nos descontos, para evitar o empate do FC Porto contra o Arouca
JOSE COELHO
A primeira parte do FC Porto contra o Arouca encheu-se de ecos do seu início de época: marcou cedíssimo, correu muito, pressionou muito, roubou muitas bolas e alimentou-se disso. Após o intervalo, como tem sido habitual, os dragões quiseram controlar com calma, mas sofreram o empate e só evitaram a perda de pontos (3-1) já nos descontos. Quando abrandou, a “equipa de monstros“ deixou o adversário entrar no jogo
Francesco Farioli não se coíbe de mostrar que é fã de pôr gente a correr. Fez-se hábito escutar o treinador dos dragões a citar números de quilómetros comidos ou sprints feitos pelos seus jogadores, dados concretos, porque mensuráveis, por oposição à expressão “no outro dia tivemos a segunda performance física mais alta da época”, mais abstrata, deixada pelo italiano antes deste FC Porto-Arouca, que mais não foi do que um sinónimo sugestivo para algo como ‘a minha equipa rebenta-se toda dentro de campo’
Forjador de uma equipa que no dealbar da época, cheia de voltagem, impressionou pela forma como pressionava alto, a todo o campo, e reagia intempestiva à perda de bola para cercar os adversários, o jogo nem deu tempo para comprovar outra afirmação do italiano: mal começou, o FC Porto passou a bola de saída para trás, Diogo Costa chutou-a para a frente e Victor Froholdt, ganhador do ressalto, entrou na área, disparou um cruzamento-remate e Oskar Pietuszewski apareceu a desviar antes de se estatelar contra o poste esquerdo.
Aos 14 segundos os apressados dragões já ganhavam.
Mas tardaram uns minutos a celebrar. Teve o polaco de se refazer do choque, recebeu o auxílio dos médicos e lá surgiu a confirmação do VAR em mais um episódio de festejos aos soluços no futebol. Pouco depois, e com outra agressiva desmarcação, Froholdt desviou um passe de Alberto Costa para o outro poste da baliza. Era a reaparição de corpo inteiro daquele FC Porto de urgência dos primeiros meses da época, ligado à corrente, cheio de ar nos pulmões para deixar os adversários com os bofes de fora, asfixiando-os com pressão constante.
Os médios do Arouca arfavam, só jogavam de costas e elas a escaldar, sempre com um jogador azul e branco a morder. A bola parecia queimar aos visitantes, perdiam-na mal a reaviam, era uma sucessão de olás e até jás causado pela pronta reação dos dragões mais próximas da zona a apertar o espaço. O japonês fino no passe, Taichi Fukui, era uma miragem e Pablo Gozálbez somava perdas de bola assim como Alfonso Trezza, improvisado no meio-campo. Durante uns 30 minutos nenhum apareceu, nem ninguém de amarelo se viu.
Victor Froholdt com a bola durante o FC Porto-Arouca: o dinamarquês foi quem mais bolas roubou na primeira parte
JOSE COELHO
As sucessivas perdas de bola na própria metade do campo e a obrigação sentida pelo Arouca de Vasco Seabra, apologista de saídas de trás com passes curtos, de pé para pé, em jogar longo, foi uma consequência de serem engolidos pela “equipa de monstros” que Farioli tem “a sensação” de ter. Ou, pelo menos, uma aparição de um FC Porto que com os meses foi murchando, já não tão elétrico a pressionar, menos mordaz a recuperar a bola.
Enquanto encheram o campo com a sua versão pressionante, quase irredutível, sem admitir que o Arouca ultrapassasse a linha do equador do relvado, os dragões entusiasmaram as bancadas. Voltou a rematar Pietuszewski, o mais jovem estrangeiro a jogar (e agora a marcar) pelo clube, com Deniz Gül a falhar a recarga. A correr nas costas do polaco cada vez que o extremo recebia a bola, Zaidu tirou dois cruzamentos venenosos. Mas quase toda a feitura ofensiva dos dragões vinha de recuperações de bola na metade do Arouca, uma produção provocada, mais do que própria.
Eles alimentavam-se disso tal qual os bichos papões dos gritos de crianças assustadas, era esse o seu sustento, armazenavam berros amedrontados no animado “Monstros e Companhia” onde Mike, um pequeno ciclópe, e Sully, o seu gigante amigo de farto pelo, aterrorizavam infantes assim como Froholdt e Pablo Rosario apavoraram os adversários no Dragão. O “são incríveis”, outro dos ditos de Farioli na véspera, tê-los-ia no pensamento.
A sua energia já minguara um pouco no desfecho da primeira parte e, a reboque do coletivo, também não replicou a genica da meia-hora inicial quando as equipas regressaram do balneário. Veio outro Arouca, mais desperto e incisivo com a bola, ao tentar dar o troco ao FC Porto: na bola de saída, ligou uma jogada com um calcanhar de Djouara pelo meio para Fukiu, à entrada da área, atirar um remate à barra.
Naïs Djouahra a comemorar o seu golo com os restantes jogadores do Arouca: o francês foi apenas o quarto homem a marcar um golo no Dragão esta época
JOSE COELHO
Houve, no minuto seguinte, uma reação portista na intensidade de Froholdt, com o loiro a servir Gabri Veiga para uma tentativa de pé esquerdo. Por esse lado, depois, Zaiu foi esperto a executar rápido um lançamento lateral que Deniz Gül, nas barbas do guarda-redes Arruabarrena, desaproveitou ao pontapear a bola sobre o travessão. Já não era aquele FC Porto de oito cilindros, cheio de cilindrada a espremer o tempo e o espaço aos adversários.
Aos poucos, voltou o FC Porto mais recente, o calculista nos esforços e parcimónio no risco, o que corre muito mas já não tanto, o que pressiona quanto baste, o que se o adversário não se armar muito em ladrão então também não irá ao seu encontro; o FC Porto que no anterior jogo caseiro já ouvira um ou outro assobio no Dragão. Foi essa versão a proporcionar um estatuto especial a Naïs Djouahra.
O francês da barba em pêra e bandolete no cabelo tornou-se apenas o quarto jogador esta época a marcar um golo na casa portista quando empatou o encontro (70’) com um remate pronto, à beira da área, na ressaca de uma segunda bola vinda de espelho posto pelo Arouca diante de um feitiço: recuperou alto e rápido uma bola que acabara de perder, dando a provar aos dragões do susto com que os seus monstros tinham assustado os visitantes.
Não que crescesse um monte no jogo, ou antes tivesse sido perigoso, mas, perante a mudança gradual de postura do FC Porto, cadente na rédea que segurava no jogo, quem vestia de amarelo ia tocando mais passes, puxando Fukui para o protagonismo, alongando a esperança de vida das suas jogadas. Querendo controlar, abrandando os seus monstros, os dragões tiveram que tentar acelerá-los na caça ao prejuízo.
Terem Moffi e William Gomes, os marcadores dos golos tardios que deram a vitória ao FC Porto
JOSE COELHO
Farioli já assumira o seu ‘eu’ protocolar quando substituíra, no sino da hora de jogo, Gabri Veiga e Pietuszewski por Rodrigo Mora, Terem Moffi e William Gomes, sem efeitos de maior além de uma jogada do menino-bonito do Dragão, pela esquerda, com as suas fintas dissimuladas. O nigeriano andou pela área, o brasileiro tentou um remate frouxo. André Miranda, miúdo da formação, único extremo que restava no banco, também teria a sua primeira vez na equipa principal. Apenas quem veio a seguir, já com um empate a evitar, agitou as coisas.
Seria o costa-marfinense Seko Fofana, que acabado de chegar já dizia o que o treinador gostará de ouvir - “gosto de me cansar”, admitiu na apresentação -, a rebocar a equipa contra o Arouca, a romper área dentro, a armar um remate e a sofrer o penálti com os descontos nas redondezas. William Gomes, calmo perante a delicadeza do momento, converteu (90’+1) com direito a beijo na barra para o FC Porto resgatar tarde a sua natureza mais monstruosa.
Os dragões, no que restava dos nove minutos de compensação, ressuscitaram a sua versão pressionante, não concederam um metro aos adversários. Venciam, mas já não queriam controlar, sim manter. Num lançamento longo de Bednarek para a direita, William Gomes encarou o duelo antes de cruzar de trivela para Moffi se estrear nos golos. O 3-1 esconde o que se passou, não ilustra o amainar do FC Porto na segunda parte, nem o baixar de ritmo ou o progressivo arrumo das pistolas no coldre que obrigou a equipa a esforços fora de horas.
A desaceleração da equipa de Francesco Farioli não causou a perda dos pontos que por momentos pareciam fugir. Houve tempo, também energia, ou “happy legs” na descrição de Diogo Costa no rescaldo, para reanimar os seus monstros depois deles, como no filme, serem assustados por quem muito tinham assustado.