Chama-se Pavilhão João Rocha. Não é um jogador, mas tem boca e ajudou o Sporting a afastar o Benfica da Liga dos Campeões de futsal
Zicky Té foi a alma da festa da passagem à Final Four
MANUEL DE ALMEIDA
O Sporting, que precisava de vencer por mais de um golo, aos seis minutos já ganhava por 4-0 nos quartos de final da Liga dos Campeões. Os erros de Léo Gugiel, tal como as expulsões de Pany Varela e Arthur, ditaram a eliminação do Benfica. Num jogo de arquitetos (7-4), os leões garantiram mais uma Final Four e vão em busca de um título que lhes escapa desde 2020/21
Os vizinhos nem sempre se entendem. Barulhos indesejados na área comum do prédio, uma infiltração que atinge o andar de baixo, o orçamento para as obras no telhado. Às vezes, é num círculo de cadeiras montado no hall de entrada que se parece decidir o futuro do mundo.
“Quem está mal, que se mude.” Não é bem assim. Casa pode ser um centro de conservação de uma moral única e uma deslocação poderia significar o seu fim. Por isso, mesmo com anos de vozearia, Sporting e Benfica continuam a viver lado a lado e a tolerarem-se com os defeitos que iram o outro.
É talvez essa a razão para que um dérbi para a Liga dos Campeões pareça um litígio que começou numa reunião de condomínio e acabou a ser debatido no Tribunal Europeu. Ao mesmo tempo, é partilhar com a comunidade internacional a sensação do que é usufruir do melhor jogo de futsal do mundo. Todo um ato de generosidade (ou de exportação dos melhores produtos locais).
Seria fácil vender, por um bom preço, este jogo a um colecionador de arte. Ele não tem olhos, cara, braços ou pés. Tem apenas boca. Chama-se João Rocha e ninguém fica indiferente à maneira como o ser se manifestou quando o Sporting capitulou o Benfica (10-8, no agregado).
A primeira mão, da qual ninguém saiu prostrado, teve 11 dias de separação da segunda. Foi nos derradeiros instantes do jogo inaugural que Diego Nunes deu uma vantagem de 4-3 aos encarnados. Apesar da separação entre as partidas, ambas pareciam estar coladas. Não tinha passado um minuto após o reatar dos quartos de final e Bernardo Paçó – sim, o guarda-redes – tinha empatado a eliminatória.
Apesar da quadra ser o local mais amplo do pavilhão, independentemente de onde um jogador esteja, nada o afasta do fervor das bancadas. O João Rocha não deixou que se notasse que o Sporting partia em desvantagem.
Pany foi expulso no arranque do jogo
MANUEL DE ALMEIDA
Com a bancada que parece a coluna do pavilhão atrás de si, Léo Gugiel esteve titubeante ao cometer dois erros castigadores. Se na tribuna de imprensa se sentiam as vibrações do tambor, o guarda-redes brasileiro também devia sentir os batimentos cardíacos do albergue leonino, aqueles que o fizeram tremer.
No último mês, Sporting e Benfica já se defrontaram três vezes. Em março, correm sérios riscos de se voltarem a encontrar na meia-final da Taça da Liga. A sobreposição de existências já é grande e ainda nem chegámos ao play-off do campeonato. As equipas já sabem de cor as cicatrizes de cada uma. Assim, algo de transcendente teve que as desunir.
Por mais que os guarda-redes do Benfica façam praticamente tantos remates no aquecimento como os pivôs, uma preparação conveniente para a multiplicidade de vezes em que sobem durante o jogo, Léo Gugiel hesitou e perdeu a bola. Sem o mesmo direito de usar as mãos, Pany Varela tentou rendê-lo e foi expulso por cortar o remate de Zicky Té em cima da linha. A equipa de Cassiano Klein nem chegou a estar em inferioridade numérica, porque Bruno Pinto concretizou a grande penalidade. Léo Gugiel voltou a comprometer na reposição e Wesley fez o segundo.
O golo mais elaborado do parcial de 4-0 que o Sporting formou, em menos de seis minutos, foi aquele em que Zicky Té, sagaz a esconder-se atrás do fixo para depois conquistar a frente e ganhar força absorvendo o contacto do defensor, rodou e assistiu Tomás Paçós. Apesar de não ter estado no Europeu com a seleção devido a problemas físicos, o pivô foi gerido para contribuir no dérbi e revelou-se o reforço que vinha mesmo a calhar ao conjunto de Nuno Dias.
Acontece que o vulcão emocional que alimentou a arrasadora entrada do Sporting também causou prejuízos. Os leões cometeram a quinta falta a meio da primeira parte e abrandaram. O Benfica, a insistir num jogo de pivô ineficaz, já se tinha rendido a cincos mais dinâmicos que não deixavam um centímetro do campo por preencher.
A alteração refletiu-se no desvio de Silvestre e confirmou-se na diagonal com que Arthur fez o segundo golo. O livre direto não surgiu, embora tenha estado perto, e a reação acalmou. A eficácia do Sporting não fez mais estragos e, ao intervalo (4-2), o Benfica seguia inesperadamente vivo e ainda mais viria a ficar. A bola parada encontraria um propósito de vida. André Coelho utilizou-a como método de sobrevivência e empatou a eliminatória.
Wesley marcou o terceiro golo do Sporting
MANUEL DE ALMEIDA
Tomás tentou que o Sporting voltasse a dar um Paçó em frente. Nessa busca, rematou para a bancada. A bola com que era suposto ser batido o canto foi raptada pelos adeptos do Benfica, que primeiro a passaram entre si e depois a guardaram, obrigando o árbitro a pedir à mesa uma suplente. Foi essa, retirada ao descanso, que o fixo colocou dentro da baliza.
Os coelhos estavam definitivamente presos à cartola e a deixarem os mágicos mal vistos. Bernardo Paçó aliviou com tão pouca elegância a bola para juntos dos adeptos que, por peso na consciência, pediu-lhes desculpa. Só que ter um Peléh, como o Benfica possui, é sempre precioso. A lenda reencarnou em Emerson dos Santos, que manteve o equilíbrio no agregado.
Era um jogo de arquitetos e alguma cor era necessária. O Sporting encontrou-a no cabelo rosa de Diogo Santos. O internacional português estava escondido ao segundo poste e de lá acendeu de novo o João Rocha. Mas a manobra de reanimação só ficaria completa com o remate de Bruno Pinto ao ângulo depois de Arthur ver o segundo amarelo, os dois por protestos, e ter ido encontrar-se com Pany.
O 5x4 do Benfica nada conseguiu fazer contra o 7-4 no marcador. Os analistas do Sporting ainda cuscaram o que Cassiano Klein estava a desenhar no quadro tático através da câmara de ângulo aberto, mas o Sporting vai mesmo a Pesaro tentar ganhar a Liga dos Campeões, algo que não consegue desde 2020/21. Apesar de ter eliminado o Benfica nos quartos de final, o caminho para o título está amplamente mais livre.