O niquinho que faltou ao Sporting foi o que recompensou o SC Braga, outra vez
Tal como no jogo da primeira volta, um penálti marcado por Rodrigo Zalazar fixou o empate entre SC Braga e Sporting
ESTELA SILVA
O SC Braga teve mais bola, mais passes e mais iniciativa, sobretudo na segunda parte, quando o Sporting, em vantagem, baixou as suas linhas e sofreu junto à sua área. Quase lhe correu bem, mas repetiu-se um filme: como em Alvalade, os minhotos empataram (2-2) com um penálti no último minuto dos descontos. E os leões que queriam garantir que ganhavam pontos a FC Porto ou Benfica agora sabem que vão perdê-los para alguém
Um niquinho assim, sabes?, o polegar e o indicador de uma mão de Ricardo Horta quase a beijarem-se, o gesto a denunciar palavras inaudíveis na Pedreira, intuindo o diálogo com João Moutinho, deduzo que possa ter sido esse o dito, estavam abeirados da área, bolas paradas por diante, submissas a serem rematadas à baliza no aquecimento do SC Braga e o seu capitão a quem nicos não faltam, é ele quem mais golos marcou na história do clube, descontraído a falar de trizes com o homem que mais jogos de futebol deve ter em Portugal, contagem que não será renhida.
Mas nada porfiada é a bola, no prélio Rui Borges dissera que as equipas eram taco-a-taco nas estatísticas quanto à sua posse, mas, no jogo que desperta ainda de dia, a relembrar que vem aí primavera, os minhotos é que abusam dela, levam-na a passear de um lado ao outro, beneficiados por terem Diego Rodrigues, o ala esquerdo mentiroso, a virar médio e deixar a largura para Rodrigo Zalazar. A intenção é clara, atrair atenções do Sporting ao centro e tentar encontrar um jogador livre por fora, de preferência o uruguaio das cavalgadas com a bola.
Demoraram os leões a arranjaram certeza nos primeiros passes, vindo do conforto possível sob a pressão subida dos anfitriões, para ativarem o modo bater em organização para trás no adversário. Se não roubada a bola mal a perdia, o SC Braga arregimentava os jogadores num bloco médio-baixo. Dentro dele, ao primeiro toque e em combinações curtas entre Trincão, Pote e Suárez, surgiu o primeiro remate ameaçador da partida, por Geny Catamo. Os jogadores mais finos a inventarem uma finalização para o mais brusco.
Na brusquidão do moçambicano, não me a tomem por crítica, o Sporting encontrou maneira de perfurar os minhotos, em Geny há aceleração, desplante para assumir o drible, vontande constante em fintar em velocidade e o seu brusco pára-arranque que planta os apoios do adversário antes de explodir virou um problema por ser Diego, um médio, não o mais lesto a reagir e a virar-se, o encarregado de defender à esquerda estas investidas. Após Catamo o ultrapassar e deixar na relva, cruzou e deu canto. E nesse canto houve a cabeça de Gonçalo Inácio (22’).
Gonçalo Inácio a celebrar o seu golo em Braga
Sports Press Photo
Não por um nico, mas com uma cabeçada em cheio, o defesa central inaugurou os golos que quase engordaram de seguida. Morita reciclou uma bola recuperada, deu em Trincão, o bigode canhoto isolou Luis Suárez e o avançado por quem o seu treinador bate na madeira viu o seu remate bater na perna de Lukáš Horníček. A sentir dor ou sentindo o apelo de Carlos Vicens, no banco, o guarda-redes sentar-se-ia na relva pouco depois, os companheiros foram ouvir o treinador ao banco, como hoje andam as modas no futebol ficamos a ponderar se estas coisas são premeditadas.
A súbita cimeira foi árvore de fruto. Não tardou o SC Braga a recorrer, mais ainda, às descidas de Pau Víctor no campo, o avançado que foge da área dos outros para facilitar a fuga da equipa à sua, a equipa baralha as peças, mistura-as e troca-as, na míriade de mexidas há sempre um ou outro que se mantêm à espreita e calhou bem aos bracarenses ser Rodrigo Zalazar, colado à linha, a aguardar por quem o visse no meio da confusão.
Aproveitando o relaxamento dos leões a meio-campo, João Moutinho viu-o, lançou um minucioso passe longo, tão longo que Catamo cismou na bola e só reparou na receção orientada do uruguaio quando ele já entrava na área do Sporting e, ao segundo toque, servisse o rompante Ricardo Horta, homem dos nicos, não esqueçamos: o seu fulminante remate, de primeira, pediu um desvio ao poste da baliza (34’) para empatar o jogo. E ficou com 155 golos marcados pelo SC Braga, uma grande porção.
Os bracarenses empataram o jogo no primeiro remate que fizeram à baliza
HUGO DELGADO
Inclinado à direita, o Sporting precipitou-se para o ataque, não muito, só mais um pouco, mas sempre tendente para o mesmo lado, o mesmo onde Diego Rodrigues já sofrera com as investidas de Catamo e, hesitando no momento de se livrar da bola, afinal o SC Braga quer tê-la, tocá-la, passá-la ao pé, sem a desbaratar, e o jogador da formação dos minhotos hesitou, e quando deixou de hesitar tentou batê-lo para longe, mas foi contra Geny. O ressalto deixou-a com Suárez, na área, cujo toque subtil na bola a fez tocar no braço de Arrey-Mbi.
Foi penálti, seria golo (45’+2), o trigésimo primeiro do colombiano na época.
A desvantagem esticou a pressão do SC Braga, os anfitriões regressaram do intervalo com a equipa subida, a morder as receções dos leões perto da área, era momento para lhes testar a fibra, também a calma, em saírem de cercos apertados. A bola retomou a predominância nas chuteiras minhotas, mas, de novo, o susto rondou Horníček: numa jogada necessariamente com poucos toques, Fresneda correu campo fora lançado pelo calcanhar de Suárez, a quem devolveu a bola na área que só não chegou a Pedro Gonçalves pelo corte de Florian Grillitsch, que arriscou o auto-golo. Pareceu o tal niquinho.
O susto vestiu o fato de ocasional, porque a partida rendeu-se ao carrossel de passes dos bracarenses no seu estilo de agremiar jogadores junto da bola, sobrepopulando zonas, promovendo tabelas, pedindo a quem a soltasse que corresse para o futebol fluir. Por duas vezes baralhou toda a linha defensiva do Sporting, em ambas Fresneda teve de cortar cruzametos virado para Rui Silva, para onde não deve, tal o aperto do assomo do SC Braga à área contrária.
Luis Suárez a celebrar o seu 31º golo na época após marcar de penálti contra o SC Braga
Diogo Cardoso
A iniciativa morava inteira na equipa de Vicens, hábil a descobrir o homem livre no meio-campo adversário, servindo-se de Pau Víctor a preceito, confiando que o quase quarentão mais jovem do futebol português fresco estava para decidir os caminhos. Com um pormenor delicioso, a esgueirar-se por entre uma sandwiche de dois adversários, esse João Moutinho o que seria um golo de carreira. Antes, num livre cruzado por Trincão, o Sporting ameaçou roçar o inédito quando Morita, Fresneda e Inácio desviaram, os três, a bola com o calcanhar.
Nem uma, nem outra ocasião alterou a toada, os minhotos carregavam e os leões aguentavam, as suas linhas recuadas, os seus comportamentos mais humildes porque obrigados a sofrer, o jogo pedia-o, havia o Sporting que aguentar, Hjulmand era mais um terceiro central a compor a linha do que um 6 e Catamo fechava o flanco ao lado de Maxi Araújo. Saiu Moutinho e o SC Braga imutável, cheio de bola, repleto de passes, farto em movimentos. Mas sem peso na área.
A equipa joga mais pela forma com que Pau Víctor joga e se mexe, embore o tire das zonas de tiro; A alternativa vinda do banco, Fran Navarro, é magra em presença perto da baliza.
A unha, mas uma gorda, carente de corte, que faltou ao SC Braga foi ter funial para tanta bola, a segunda parte foi quase toda sua, fartou-se de trocar passes, de ter o entrado Gabri Martínez a precipitar-se contra Fresneda e depois Dorgeles a cair sobre Araújo enquanto Gorby e Grillitsch empurraram Hjulmand e haveria de ser João Simões para junto dos defesas, o jogo teve fragrância de sufoco em certos períodos. O elogio devido ao Sporting, habituado a sufocar, foi saber conviver com esse ser sufocado. E de um estado para o outro ainda vai uma certa diferença.
Mas faltou um nico, lá está, à equipa de Rui Borges, férrea a defender-se e a proteger a sua área, despida da iniciativa, para sair vitoriosa de um jogo com o SC Braga no campeonato. Como em Alvalade, a pedreira viu os minhotos terem um penálti quando o relógio já caía de sono, este originado pelo tipo que umas quase duas horas antes gestializava como as coisas, por vezes, se decidem por um bocadinho.
Foi um remate de Ricardo Horta, na ressaca de um corte, a precipitar Gonçalo Inácio a sair-lhe ao caminho com um braço ao léu. A bola tocou-lhe, o árbitro apitou, a bola ficou para Rodrigo Zalazar chegar aos 21 golos na temporada. Viram-se muitos abanares de cabeça nos jogadores do Sporting, a desaprovação misturada com desilusão. Restavam segundos na partida, só houve tempo para bombear a bola lá para a frente uma vez.
Foi mesmo por um niquinho assim, o dos dedos do capitão bracarense, que os leões não levaram para o sofá onde assistirão ao Benfica-FC Porto de domingo o garante de ganhar pontos. Agora sabem que os perderão para alguém, por culpa de como o SC Braga impôs o seu jogo até ver a recompensa.