Crónicas de jogos

Desculpem, Benfica e FC Porto empataram, mas vamos falar de futebol

Leandro Barreiro a celebrar o golo com que empatou o clássico na Luz, aos 88 minutos
Leandro Barreiro a celebrar o golo com que empatou o clássico na Luz, aos 88 minutos
MIGUEL A. LOPES

Os dragões entraram fortes, pressionantes e decididos a resolver o clássico cedo, marcando dois golos na primeira parte, um deles uma obra de atrevimento dos 17 anos de Oskar Pietuszewski. Depois, na segunda, as substituições de Farioli amainaram o FC Porto enquanto as de Mourinho acicataram o Benfica, que empatou (2-2) já tarde. No Estádio da Luz, onde houve quem assobiasse durante o minuto de silêncio a António Lobo Antunes (a quem o título desta crónica é roubado), pouco se driblou e improvisou

Em que ano foi, não sei, recente será, mas o desalento na cabeça de António Lobo Antunes que perdemoshá dias quedou na tinta, bendito escrito vindo de quem era de um tempo sem “jogadores burocratas, funcionários, escrevendo memorandos, copiando minutas, distribuindo circulares”, uma analogia de escritório deixada pelo homenageado no Estádio da Luz, benditas as palmas nas bancadas e a força do clap, clap que engoliu, durante um minuto, os assobios de gente desmiolada por vaiar quem tinha um pedido para o futebol, um pedido que é todos:

“o improviso, o inesperado, a falta de lógica, a maluquice, o génio. Que me driblem. Que me enervem. Que me surpreendam.”

Nada. O clássico iniciou com o FC Porto planeado, esperado e previsto, bola de saída em Diogo Costa, quase todos os restantes jogadores portistas a avançarem no campo, saiu o chutão para a frente do guarda-redes e o primeiro ato foi despejado assim, de forma curiosa: com um lance programado para a aleatoriedade. A bola ficou do Benfica, houve um contra-ataque, a velocidade de Rafa ainda provocou um arrepio ao chegar à área, deu canto e os ânimos atearam tochas na plateia. A fumarada parou o que as gentes pagaram para ver, incluindo as que acenderam o nevoeiro artificial. Durante três minutos não houve jogo.

Quando foi reatado, a pressão vivaça dos dois lados, alta e intensa, a obrigar os jogadores a despacharem a bola várias vezes, fez do jogo um que pouco permitiu jogar. As equipas encaixavam-se, chavão que costuma abonar coisa pouca para quem procura espetáculo.

Alan Varela tinha uma sombra chamada Rafa, o penso no nariz de Richard Ríos vigiava Gabri Veiga, a camisola de Enzo Barrenecha com o 5 nas costas, para os argentinos é esse o número de quem manda a meio-campo, suava por lhe calhar acompanhar o pulmão incansável de Victor Froholdt. Perdeu-o de vista quando olhou só para o que tinha à sua frente: no passe de Jan Bednarek, defesa central, a procurar Deniz Gül, avançado que recuou uns metros, o turco dividiu a bola com Otamendi, mas o desenho da jogada pretendida pelo FC Porto seria cumprido na mesma.

Ainda havia luz do dia quando Victor Froholdt abriu o marcador do clássico no Estádio da Luz
Carlos Rodrigues

A bola ficou com Varela. De frente para a baliza, o argentino desmarcou quem já há muito corria para o buraco vagado pela movimentação de Gül sem que Enzo desse conta. Era uma seta loira a sprintar no espaço aberto pela mecânica coletiva, não fruto de um rasgo individual. Anatoly Trubin parou o primeiro remate de Froholdt, nada pôde contra a recarga (10’), os dragões punham-se cedo a ganhar na Luz.

O clássico teve então períodos clássicos destas ocasiões, longe do improviso e da fantasia que Lobo Antunes viu do cimo do antigo terceiro anel, não o que terá visto lá de cima, por onde estiver agora. O jogo parou éne vezes, interrompido por faltas e faltinhas, paragens prolongadas por jogadores a protestarem com o árbitro, teatrais nas quedas e exagerados no queixume. Cheia de lombas, a partida demorou a permitir que se visse futebol.

Disposto a não amainar na pressão a todo o campo, o FC Porto quis incomodar os médios do Benfica, que assim sofria, incapaz de ligar jogadas de uma área à outra por Enzo ou Ríos, absortos na falta de tempo para terem a bola. Na ausência ficou clara uma relevância: sem Aursnes, os encarnados jogam menos. O que jogaram, até ao intervalo, veio de quem mais improvisava.

Pela esquerda, Andreas Schjelderup foi em passinhos na ponta dos pés até fixar Alberto Costa e passar a Rafa, que na área hesitou, receou o remate e desperdiçou o espaço ao dar a bola para o lado. Ao contrário do norueguês, antes já pontapeador de um livre direto que rasou o poste da baliza. Ele depois foi quem viu Vangelis Pavlidis com a benevolência de algum espaço, rasgou o passe, o grego virou-se com a bola, sapateou diante de Jacub Kiwior, bailou um pouco à espera da abertura para lançar Gianluca Prestianni, na esquerda. O remate foi às mãos de Diogo Costa.

O Benfica visitava o reduto portista não com jogadas construídas, mais em transições a partir de bolas recuperadas. O melhor que lhe saiu foi um cruzamento de Rafa desviado no corpo de Martim Fernandes, obrigando o capitão dos dragões a evitar o golo por instinto. Nada além do ricochete assustou o FC Porto, geómetra a sair com a bola dos centrais e a solicitar Deniz Gül, corpo raro em golos, mas, na Luz, frequente em bons apoios frontais a jogar de costas para Nicolás Otamendi, prendendo o argentino.

Já era de noite quando o clássico teve o golo de Oskar Pietuszewski, o extremo polaco de 17 anos do FC Porto
Carlos Rodrigues

Os nervos do estádio e a urgência do Benfica impeliram a equipa, a forma como se lançava para a frente parecia a de quem pouco tempo tinha, não era o caso, mas atacava com muitos, demasiados, como se viu quando o FC Porto cortou uma tentativa na sua área, Gabri Veiga apanhou a bola à entrada da área e pronto se fez a lançar, com o exterior da chuteira, o petiz em campo. Oskar Pietuszewski tinha ficado à esquerda, correu atrás do passe, embalou mais ainda já com a bola e correu, com descaro descomunal, contra Otamendi.

O polaco bamboleou na cara do argentino, fingiu seguir para um lado ou se calhar seria o outro, aguentou a decisão, empurrou o campeão mundial de 38 anos área dentro e obrigou-o a arriscar um corte; fê-lo tombar na relva enquanto os seus 17 aninhos simularam o remate com o pé direito para fazer o golo (40’) com o esquerdo. Bradava Lobo Antunes por quem o deixasse de boca aberta e viera à Luz um adolescente para empurrar queixos para baixo.

Quis Francesco Farioli cerrar o seu e o da equipa, mantê-lo fechado, os dentes a rangerem. Tirou as ligações garantidas pelas chuteiras de Gabri Veiga, ao intervelo, para ter o corpanzil de Seko Fofana e, sem periclitar na defesa, o FC Porto deixou de espraiar os seus ataques com a mesma fluência. Contaria 20 minutos na segunda parte a suster o adversário mais do que a jogar, sinónimo de quem pretendia trancar a vantagem no cofre, protegendo a fechadura mais do que elaborando uma combinação indecifrável.

O Benfica de picareta nos pés tentava arrombá-lo, desferia golpes, ia contra a porta, mas longe de o fazer com rasgo. As precipitações abundavam: Rafa arranjou espaço na área, o seu remate saiu em rosca; Prestianni dava um toque em excesso a cada intervenção na direita, frustrava as bancadas porque o gesto a mais vinha quando já parecia ter vantagem na jogada. Pavlidis era um bibelô na sala de estar polaca, Bednarek e Kiwior a permitirem quase nada ao grego.

Lukebakio à espera de festejar com Schjelderup o primeiro golo do Benfica: que o belga gerou e o norueguês marcou
RODRIGO ANTUNES

O pouco que os encarnados produziram, feita a hora de jogo, veio com as entradas de Leandro Barreiro e Dodi Lukebakio. Um teve a missão de correr área dentro, no centro-esquerda e por dentro de Schjelderup, para arrastar uma marcação que escancarasse algum espaço para o norueguês em cada bola que lhe chegasse. O belga, na direita, fez-se catapulta de cruzamentos com efeito, curvos na direção da baliza. O plano do Benfica assentou na insistência em ambos, seriam os dois a alumiarem o caminho: o canhoto rematou ao poste e, na recarga, o destro reduziu (69’) a desvantagem.

O golo encarnado tocou uma campainha no FC Porto. A equipa, por momentos, interrompeu a tendência de ir baixando, e baixando, e baixando o seu bloco, repetente no comportamento de querer controlar o que só é controlável caso os níveis se mantenham. Durante uns 10 minutos, enquanto o Benfica se projetou mais ainda para diante, Deniz Gül martirizou Otamendi a jogar de costas (o argentino acumulou duelos perdidos) e Borja Sainz teve várias situações de vantagem em campo aberto, em transições, desperdiçadas com decisões erradas. O espanhol não é dos que arrebatam no improviso.

Pouca dura teve a reação dos dragões ao golo sofrido. Seriam empurrados para trás, Alan Varela enfiado entre os centrais para formar uma linha de cinco na área, um recuo tão forçado quanto auto-imposto. Os portistas ecoavam os escritos de quem uns quantos tinham assobiado na Luz, ao contarem os derradeiros minutos parecendo “funcionários escrupulosos”, sobretudo “obedientes”: quiseram fechar-se em copas, guardar a vantagem, defender a área. Há uma citação mais concreta a ser feita. “Com o tempo, não soubemos gerir bem o jogo”, diria Diogo Costa no final.

Seria uma jogada entre desencaixados a forçar essa afirmação ao capitão do FC Porto. Pela direita, um Alexander Bah ainda fora de forma após uma severa lesão devolveu a tabela pedida por Franjo Ivanović, avançado pouco admirado por José Mourinho, que correu, atacou as costas do lateral e cruzou para a área onde as probabilidades desfavoreciam o sucesso. Havia três jogadores de encarnado para os seis às listas azuis e brancas, a bola caiu no encalço de mais uma corrida de Leandro Barreiro a atacar a área vindo de trás. O luxemburguês empatou (88’) com uma finalização de rompante.

Anatoly Trubin a tapar a cara com a camisola no final do Benfica-FC Porto
MIGUEL A. LOPES

E depois, outro clássico, viu-se escaramuça e sururu, os corpos que estavam nos bancos de suplentes a fundirem-se, Mourinho a pontapear uma bola supostamente contra o banco do FC Porto, dedos apontados, dezenas de homens adultos aos agarrões, de olhos esbugalhados, impropérios e insultos certamente a encherem o ar. O treinador encarnado seria expulso, mais um cartão vermelho esta época. O jogo prosseguiu, mas nada de relevo coube entre mais faltas, mais protestos, mais gritos, e mais outras queixas e esbracejares para alimentarem casos e casinhos. Mais de tudo o que serve para desviar a atenção do jogo que se joga.

E agoradesculpem mas vou falar de futebol“.

Porque houve quem driblasse (Pietuszewki e Schjelderup), fugindo às amarras coletivas. Houve quem enervasse (viu-se a acabar, não por bons motivos). Houve quem surpreendesse: Deniz Gül jogou o que pouco jogara até ao clássico, Ivanović pede mais do que a irrelevância a que está vetado, Alan Varela já se chega à frente, simples e certeiro nas ações, em jogos desta exigência. Mourinho tardou, mas atacou a debilidade dos dragões na esquerda da defesa, colocando Lukebabio a carregar sobre Francisco Moura. E ao FC Porto que Farioli encolheu, de novo, faltaram intérpretes para aproveitar a muita relva disponível para contra-atacar quando os encarnados se lançavam com tudo.

O 2-2 de Benfica e FC Porto, acrescentado ao 2-2 entre SC Braga e Sporting da véspera, deixa tudo igual no terraço do campeonato, os dragões com quatro pontos à maior sobre os leões, com sete de vantagem para os encarnados e com 27 (nove jornadas) por disputar. Falta ainda jogar bastante futebol, seja esse um futebol com mais futebol, não tanto com este futebol cheio de interrupções, gritaria e confusões. Um que nos faça realmente falar mais sobre futebol.

Nota: Desculpem mas vou falar de futebol“, é o título de uma das crónicas de António Lobo Antunes. Nela a prosa é sobre os porquês de o escritor ter deixado de gostar de futebol.

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