O Sporting ficou sem jeito à frente do ternurento Bodø/Glimt
Os impotentes defesas do Sporting a tentarem travar Kasper Høgh
Carl Recine - UEFA
Onde caiu o Manchester City e o Inter, também caiu o Sporting. Os leões saíram do Círculo Polar Ártico gelados por um banho de bola e a continuidade na Liga dos Campeões está em estado crítico. A equipa de Rui Borges paralisou perante a exibição requintada do Bodø/Glimt e sofreu uma derrota aparatosa (3-0) que deixa muito trabalho para a 2ª mão dos oitavos de final
No vértex da Europa mora um pequeno clube que, quando enche o estádio, tem 15% da população nas bancadas. A competência demonstrada – Inter e Manchester City podem testemunhar a favor desta afirmação – encolhe-se para caber na perfeição no recôndito Aspmyra Stadion. Quem não conhecia o Bodø/Glimt passou a conhecer quando a AS Roma de José Mourinho foi à Noruega perder 6-1 na Liga Conferência. Se mesmo assim a apresentação não estivesse feita, a presença nas meias-finais da Liga Europa, na época passada, cumpriu esse efeito.
Bodø é o covil do frio e também um repositório de almas desfeitas que por lá foram ficando congeladas nos últimos tempos. De tão rara que se tornou, a colocação do desempenho acima do resultado é uma filosofia que merece seguranças à porta de casa para a defenderem de tão numerosos detratores. Kjetil Knutsen montou uma equipa de culto onde a espetacularidade é inegociável.
Um futebol ternurento do Bodø/Glimt é capaz de aquecer corações até no Círculo Polar Ártico. Trocando a bola de primeira e em movimento, os noruegueses equipararam o seu futebol às artes plásticas.
Não foi a temperatura que petrificou o Sporting, foi a exibição do Bodø/Glimt. Os leões ainda não estavam a perder, mas era como se estivessem. Rui Silva pediu assistência médica e Rui Borges fez uma reunião de urgência na linha lateral. A equipa verde e branca, que saltou diretamente para os oitavos de final, foi impotente. Sem Maxi Araújo e Ricardo Mangas, Iván Fresneda adaptou-se à esquerda. Também por lá caiu Luís Guilherme, hesitante no momento de se colar ao lateral contrário e pouco voluntarioso para com o espanhol.
Luís Guilherme e Fresneda não encontraram a melhor maneira de fechar o corredor esquerdo
Martin Ole Wold
Patrick Berg, o homem elástico (fita no cabelo e braçadeira no braço), aguardava que a construção a quatro do Bodø/Glimt fizesse o seu papel. Paciente a esperar nas costas da primeira linha de pressão, quando a bola lhe chegava, o caos estava provocado. Depois era só deixar a excelência de Jens Petter Hauge e Ole Blomberg fazer estragos.
O Sporting esteve particularmente vulnerável no lado esquerdo e podia ter sofrido antes dos 10 minutos. Hauge perdoou. Eram os efeitos da vasta área disponível para Blomberg fazer cruzamentos. Hakon Evjen e Sondre Fet, os dois médios interiores, investiam nas segundas vagas. Berg espreitava oportunidades para remates exteriores.
As estonteantes associações no corredor central deixaram o Sporting tonto. Dentro da grande área, Georgios Vagiannidis viu a bola, mas acertou no homem. Sondre Fet, de penálti, castigou. O efeito alucinogénico fez com que até um passe errado de Hauge acabasse por tabelar na defesa do Sporting e libertasse Blomberg para o segundo golo.
Com um início de segunda parte igualmente trepidante, o Sporting corria sérios riscos de entregar a eliminatória logo na 1ª mão. Rui Silva já tinha parado Evjen e, na sequência de um canto, travou também Jostein Gundersen. As substituições – entraram Nuno Santos, Souleymane Faye e Hidemasa Morita de uma vez – foi como se não tivessem sido feitas. Mais tarde, o lançamento de Daniel Bragança ainda causou algum efeito.
Jens Petter Hauge foi um dos grandes destaques da partida
Mats Torbergsen
Numa era em que a nossa condição de seres humanos opressores do espetáculo não se mostra merecedora de magia, o Bodø/Glimt devolve-nos aquilo que nos fez apaixonar por futebol. Nos tempos que correm, é quase como a comida da avó.
Jens Petter Hauge, que também poderia ser nome de um autor de fábulas, é uma fonte inesgotável de imaginação. O antigo jogador do AC Milan e do Eintracht Frankfurt, que se exprime melhor quando está perto de casa, baralhou Fresneda no um contra um e cruzou para Kasper Høgh desviar (3-0). Pouco depois, Hauge poupou o Sporting a mais sofrimento, rematando um pouco ao lado.
O que calhou ao Sporting nos oitavos de final não foi um brinde, foi um presente envenenado que paralisou os leões. O Bodø/Glimt leva anos a esculpir a elegância do seu modelo de jogo, mostrando que a aposta e o vício nem sempre têm que ser defeitos.