Crónicas de jogos

O FC Porto não gosta de limites de velocidade e foi a Estugarda acelerar na ‘autobahn’

Rodrigo Mora marcou pela terceira vez nesta edição da Liga Europa
Rodrigo Mora marcou pela terceira vez nesta edição da Liga Europa
Christian Kaspar-Bartke - UEFA

É no meio do frenesim que o FC Porto melhor se sente e os oitavos de final da Liga Europa deram aos dragões um adversário da mesma casta. Com golos de Moffi e Mora, os dragões venceram o Estugarda (2-1) numa eletrizante 1ª mão que não deixou nada garantido para a 2ª

As estradas são as veias de um país. São elas que levam a vida de um lado para o outro e permitem a circulação ininterrupta de existências. O sistema cardiovascular da Alemanha é particularmente desenvolvido. 70% das autoestradas – autobahn – não têm limites de velocidade, acelerando a pulsação do território.

Francesco Farioli encontrou um lugar onde o FC Porto podia exibir todo o seu potencial de equipa talhada para jogar em campo aberto, com espaço para cavalgadas e onde os adversários acompanham a vontade de subir no terreno, algo que no contexto português não acontece. Assim, os dragões foram livres de ultrapassar os 120km/h sem multas a oprimirem-nos.

Nas entrevistas pré-jogo, quando lhe colocaram um microfone na mão, Sebastian Hoeness apresentava o estilo adequado para começar uma batalha de rimas: boné na cabeça, uma sweatshirt larga e uma mão no bolso. Feita a intervenção, Francesco Farioli desfilou para o mesmo posto. Trata-se de alguém mais clássico, com o cabelo encerado e cortado em degradé. Os colarinhos da camisa branca sobressaírem sobre o pullover azul escuro.

As aparências mentem compulsivamente. Mesmo sendo tão diferentes, aplicam princípios comuns nas respetivas equipas.

Estugarda e FC Porto são dois carros elétricos com autonomia para 90 minutos. Ambos fazem os quilómetros que forem necessários para pressionar os adversários, tendo a acutilância como modo de atuação preferencial. Neste concurso para ver quem era detentor da melhor bateria, as balizas tiveram naturalmente muita afluência. Durante o corrupio, o FC Porto foi mais esclarecido nas aproximações ao último terço e leva para a 2ª mão dos oitavos de final da Liga Europa uma curta, mas preciosa vantagem (2-1).

Moffi abriu as contas na MHPArena
NurPhoto

A entrada dos dragões foi pouco afirmativa. O panzer Ermedin Demirovic suportou os ataques e Jamie Leweling desbloqueou os mesmos. Nada de excessivamente perigoso.

O processo defensivo dos azuis e brancos não foi cego. Por vezes, precisaram de diminuir a audácia que têm nos jogos da I Liga de modo a apanharem o Estugarda desorganizado. Para o FC Porto, era pouco importante reter a bola. Muito de fala de reação à perda, mas pouco se fala de reação ao ganho. Nos instantes seguintes à recuperação, os dragões fizeram estragos.

O uso do guarda-redes para construir correu mal ao Estugarda. O passe de Alexander Nübel não foi tão longo como esperava. Os quartos classificados da Bundesliga estavam espraiados no campo e, com simplicidade, Borja Sainz amorteceu para Terem Moffi inaugurar o marcador. O avançado que o FC Porto conheceu quando defrontou o Nice virou decididamente a casaca.

Zaidu não se adiantava demasiado a pressionar. Porém, mantinha-se atento. Era tudo parte de uma estratégia de engodo, como se viu quando o nigeriano raptou o passe displicente de Julian Chabot. O lateral conduziu e cruzou para Rodrigo Mora marcar em suspensão.

Em poucos minutos de presença ofensiva, o FC Porto conseguiu ser altamente rentável. E pensar que William Gomes, a imitar Arjen Robben, ainda acertou na barra... O espaço nas costas concedido pelo Estugarda é algo de que os dragões nunca usufruem em competições internas, mas a adaptação dos jogadores de Farioli aos padrões internacionais falhou noutras questões. Julgando estar a ser apitado por um árbitro português, Jan Bednarek tentou vender ao juiz lituano uma falta. Enquanto estava no chão, Deniz Undav reduziu. Seko Fofana foi pouco prático no alívio.

Undav levantou a incerteza quanto a resultado final
picture alliance

A vivacidade continuou e, quando há a oportunidade de se lançar Victor Froholdt a partir do banco, o mais certo é que a movimentação continue. Nübel foi obrigado a continuar atento. Sebastian Hoeness respondeu colocando Tiago Tomás, avançado que foi campeão nacional pelo Sporting em 2020/21. O português teve influência (negativa) no jogo do Estugarda. O bloqueio feito a Thiago Silva levou à anulação do golo de Angelo Stiller. Os cruzamentos de Bilal El Khannouss semearam o caos.

O Estugarda intensificou a presença no meio-campo ofensivo. Apesar da asfixia, o FC Porto mostrou boa capacidade de apneia. O emblema da Bundesliga ameaçou apenas de fora da área graças à injeção de objetividade trazida por Chris Führich. Com mais engenho, Gabri Veiga podia ter enchido a almofada, mas talvez fosse pedir demais.

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