Crónicas de jogos

Portugal não rejeitou nenhuma migalha e acabou por ficar com o bolo: 22 anos depois, a seleção nacional venceu o Europeu de râguebi

Portugal não rejeitou nenhuma migalha e acabou por ficar com o bolo: 22 anos depois, a seleção nacional venceu o Europeu de râguebi
Levan Verdzeuli

Portugal pensou mais com os pés – em especial com os de Manuel Vareiro, que virou o jogo com um 50:22 – do que com a cabeça e foi o que bastou para vencer a Geórgia (19-17) na final do Europeu. É a segunda vez que a seleção nacional conquista este título

É preciso ser cauteloso no uso do conceito. Por vezes, podemos ficar algo dececionados com aquilo que significa ser campeão da Europa. Se, na maioria das ocasiões, o conceito designa a melhor seleção do continente, o râguebi deformou-o tal como fez com a bola.

Conquistar o Europeu de râguebi não é coisa pouca, mas está longe de significar ser a equipa mais venerável de uma área geográfica. A área VIP está no Seis Nações, onde Inglaterra, Escócia, Gales, Irlanda, França e Itália sujam os equipamentos num torneio com mais elevação e onde não há recrutamento externo de participantes.

Portugal só ganhou o Europeu uma vez, em 2003/04, logo a competição dos países alternativos não está à mercê de qualquer grupo de latagões. No Estádio Municipal de Butarque, a Geórgia procurava o nono título consecutivo. Era este vincado padrão que os Lobos queriam dissolver até porque aos georgianos foi-lhes subtraída a força de seis jogadores suspensos por uso de drogas recreativas.

Na primeira parte, a metade do campo em que a seleção nacional estava a defender foi sempre mais lavrada do que a outra. A Geórgia não queria deixar nenhum ponto por marcar. As formações ordenadas desfaziam-se devido à tensão baixa dos portugueses. A pujança empurrou a Geórgia para dois ensaios de Ilia Spanderashvili e de Tornike Jalagonia antes do intervalo (12-3) e a indisciplina dos Lobos custou suspensões de 10 minutos a David Wallis e Luís Lopes.

Eurasia Sport Images

Portugal preferiu ir migalha a migalha. Sendo o râguebi liberal na utilização das várias partes do corpo, a tentação dos Lobos para utilizarem os pés foi incontrolável. Domingos Cabral errou duas penalidades de zonas precipitadas (uma aterrou antes da linha de ensaio) e Manuel Vareiro encarregou-se dos pontapés a partir daí. Com dois acertos, a seleção relançou-se.

Não é como se os Lobos tivessem exibido grande virtuosismo ofensivo. Os atributos da equipa que esteve no Mundial 2023 nem sempre são uma constante desde que Simon Mannix se tornou selecionador e desafiou os jogadores a testarem-se nas redondezas do ruck. O momento de agitação, aquele instante que depois de passar mudou a tendência do jogo, foi o 50:22 de Manuel Vareiro.

O longínquo pontapé que valeu uma adiantada reposição a Portugal desbloqueou a veia criativa. Hugo Camacho deixou de fazer os passes óbvios e Nicolas Martins começou a queimar linhas. Manuel Vareiro adicionou mais duas penalidades à conta, o que parecia ser pouco perante mais um ensaio da Geórgia anotado por Beka Gorgadze contra a corrente.

Manuel Vareiro tinha em si todas as atenções. Otari Metreveli queria abafá-lo quando o médio de abertura nacional ainda estava no ar e colocou a Geórgia em inferioridade numérica. Era uma janela de oportunidade que não se podia desperdiçar. Sem ninguém para cobrir a ponta direita, Vincent Pinto surgiu para o ensaio (17-19). Portugal estava impedido de cometer erros a sete minutos do fim. A Geórgia lutou até à bola de jogo, mas era o dia da alcateia.

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