Era possível. E o Sporting foi épico a provar que era possível
Maxi Araújo a celebrar efusivamente o seu golo contra o Bodø/Glimt, que deu ao Sporting a passagem aos quartos de final da Champions
Gualter Fatia
A tarefa de virar uma desvantagem de três golos era hercúlea, exigia crença e esforço, e o Sporting teve-os. Desde o primeiro toque na bola que os leões caíram em cima do Bodø/Glimt, empurraram para trás os noruegueses, acumularam remates e foram marcando golos. Inácio, Pote e Suárez forçaram o pronlongamento onde Maxi Araújo marcou o golo que pôs a equipa na frente da eliminatória. A reviravolta épica do Sporting só acabou nos 5-0 e os leões vão jogar os quartos de final da Liga dos Campeões contra o Arsenal
Claro que é possível, como não haveria de ser possível?, a crença desaguava em afirmação e questão, uma bipolaridade com afluente em ditado popular, tem-se por vulgar ouvir que a esperança é a última a morrer e dentro do caldeirão de Alvalade cabia esoterismo em barda - “eu acredito”, ecoou Rui Borges - e uma pitada de almanaque de futebol, um jogo amado pelas suas cambalhotas improváveis, umas quantas na memória coletiva do Sporting, adorador de um canto recordado como cantinho frente ao MTK Budapeste ou daquela noite no seu estádio, contra o Newcastle.
Não tão hercúleo de nome, mas de tarefa, o problema era por agora o Bodø/Glimt e os seus onze pedaços de gelo que os leões trataram de empurrar contra a área, espremê-los contra eles próprios, encostá-los atrás, só poderia ser assim e foi assim que o Sporting começou: Maxi Araújo libertou-se pela esquerda com um túnel por entre as pernas, cruzou e Francisco Trincão foi lá com a cabeça sem que a bola fosse ao alvo. No minuto seguinte, portanto o quarto, o canhoto de pé e bigodudo de cara fugiu entre os centrais, Geny Catamo serviu o passe e ele tentou picar um chapéu sobre o guarda-redes.
Os espasmos de barulho em Alvalade eram muitos, em pulgas por algo épico os adeptos tinham as gargantas quentes, prontas a rugirem. Gritaram um bocadinho mais do que o costume quando Pedro Gonçalves tentou aproveitar o adiantamento de Nikita Haikin, o guarda-redes russo nascido em Israel em vias de ser norueguês que depois viu outro remate de Trincão, defendeu um rasteiro de Luis Suárez, isolado a entrar na área, assustou-se com o quase desvio de Pote na bola cabeceada por Maxi e suspirou de alívio quando outra tentativa do único Francisco em campo sobrevoou a barra.
Em quarto de hora o Sporting rematou sete vezes e Rui Borges sentou-se no banco cerca de zero, preferiu ficar de pé, vestido em tons claros, o seu colete bege, não azul como é hábito. O treinador franziu as bochechas e curvou as costas para trás a cada remate que ‘quase’ parecia dar golo. A equipa precisava de pelo menos três para empatar a eliminatória com o Bodø/Glimt que sufocava, asfixiava e espremia, mas contra o qual não marcou durante meia-hora apesar de acumular 13 remates.
Gonçalo Inácio a celebrar o golo que marcou: o 23º na sua carreira pelo Sporting
Gualter Fatia
O golo surgiu aos 34’, não um cantinho mas um canto com efeito em curva, na direção da baliza, de Trincão, ido à cabeça de Gonçalo Inácio que festejou de punhos cerrados, curvado a berrar para a própria barriga enquanto regressou à sua metade do campo a correr. O Sporting punha-se a ganhar mas ainda perdia, não havia tempo a perder.
A estratégia atinada era energia bem gasta, os leões faziam rarear as saídas do Bodø/Glimt da sua área com a bola controlada pois cada jogador tinha uma referência individual de pressão, marcavam forte e ao homem a todo o campo, o cérebro de Patrick Berg não sabia o que era espaço, Jens Petter Hauge não era autorizado a correr com a bola, nem ao pé esquerdo fabuloso de Håkon Evjen era permitido tempo para se exibir.
De manga curta, Lisboa um calor para eles, os noruegueses sofriam em Alvalade, a voragem audível do público também os empurrava contra a própria área cercada pelo Sporting agressivo a reagir a qualquer bola perdida que de pronto recuperava. O Bodø/Glimt tinha meros 83 passes feitos ao intervalo, sem contar com o único susto a duplicar que logrou, num canto, quando uma bola cabeceada por Odin Bjørtuft, defesa central com cara de mau, esbarrou na trave, subiu para testar a teoria de Isaac Newton e a gravidade fê-la ir à barra da baliza de novo.
Só uma outra veleidade tiveram os visitantes, num contra-ataque defendido pelos milhares de neurónios de Eduardo Quaresma, sozinho a contrariar dois noruegueses, quando aguentou a posição, retardou a decisão do adversário e forçou-o a agir só quando chegou o apoio defensivo.
Håkon Evjen a tentar fugir com a bola a Hidemasa Morita
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O Sporting fazia o que tinha de fazer, obrigava o estádio a acreditar, a sinfonia da crença escutou-se enquanto os jogadores caminhavam para o balneário no hiato entre as partes. O público gritou-lhes como se fossem um golo ambulante, alentados pela fórmula que os alimentava: a equipa variava muito o flanco onde tinha a bola, Maxi jogava como um extremo, Morita era o médio que se fartava de movimentar para baralhar os acertos defensivos e a equipa atacava muito pelas alas, não pelo centro do campo como tanto aprecia. O kryptonite do Bodø/Glimt estava aí. Faltava outra eficácia no remate.
Refeitos de ar pelo descanso, os noruegueses soltaram-se no regresso. Avançaram com a linha defensiva para a terem longe, e não colada, à sua área, colocando moedas no seu carroussel com bola, onde contaram uns 10 minutos a exemplificarem com fluência o conceito do terceiro homem: dois jogadores a trocarem um passe e a atraírem atenções enquanto um terceiro, a quem pretendem realmente fazer chegar a bola, se mexe para a receber em situação de vantagem. A meias com uma invenção de Quaresma, que tentou um túnel perto da sua área, o Bodø/Glimt teve Sondre Fet a rematar para defesa de Rui Silva.
Já fora o tempo de sufocar os noruegueses, era necessário manipulá-los.
Chegados à frente, quem estava de visita punha o desafio a exigir a influência de Trincão e Pote entre linhas, também de Maxi e Geny a esticarem a linha defensiva com os seus posicionamentos abertos no campo e da rapidez a lançar gente entre o central e o lateral, nessa diagonal e nas costas dos últimos homens Bodø/Glimt. Já lá existia espaço. O uruguaio promoveu uma tabela na esquerda, arrancou, Catamo apanhou o cruzamento e Hjulmand rematou a respetiva ressaca, que seria desviada por um de muitos corpos amarelos encavalitados diante da baliza.
Pedro Gonçalves fez o 2-0 à hora de jogo
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Pouco depois, nenhum houve entre Pedro Gonçalves e as redes na jogada feita pelos dois a quem as lesões alheias têm carcomido o corpo com esforço. Sem Ioannidis para lhe fazer sombra, a Luis Suárez sobra apenas o seu reflexo e cansou-se um pouco mais a fugir ao marcador, Geny viu a desmarcação, meteu o passe e o colombiano cruzou rasteiro na direção do sprint de Pote e da sua relação especial com o golo, mesmo que a sua forma esteja intermitente ao vir de mais outra lesão. Aos 61’ marcou, Alvalade barulhenta como nunca. O Sporting ganhava, mas ainda perdia.
A equipa forçava em campo e o banco seguiu-a, Rui Borges pôs o há muito desaparecido Zeno Debast em jogo para ficar com os dois centrais com melhor passe a iniciarem as jogadas. O Sporting precipitou-se mais ainda, já não era só possibilidade, crença, afirmação ou questão, o ímpeto sugeria que estava próximo de acontecer, o futebol é idolatrado também por inebriar as pessoas e quando Catamo rematou depois de Debast rematar surgiu Fresneda a cruzar. E a bola foi à mão de Fredrik André Bjørkan.
Com a sua mão esquerda sempre aberta como se prestes a esbofetear, é-lhe inadvertido mas também regra quando se presta a rematar, Luis Suárez bateu o penálti, aninhando a bola na baliza, aos 78’. Os tímpanos em Alvalade não vibraram ao som de golo, não, o uníssono não gritou tal coisa, foi um ruído estrondoso apenas de barulho, gente a gritar e a abraçar-se. A alegria descontrolava as cordas vocais. O Sporting ganhava ainda mais - e só agora empatava.
Foram minutos estonteantes os seguintes, parecia que os leões se tinham colocado a perder tal a voragem, a inclinação para a frente, a determinação nos duelos que os jogadores acresceram ao já visto. Suárez rematou na área e Nikita Haikin foi à relva negá-lo. Trincão disparou uma bomba de longe que o guarda-redes negou também. Nuno Santos deu uma chapada na bola direita a um dos postes. Não era tão-só uma crença que movia os jogadores, parecia mais ser um prejuízo que eles já não tinham, mas nutriam: aos 90 minutos, o Sporting tinha 34 remates feitos. O Bodø/Glimt limitava-se a resistir.
Luis Suárez empatou a eliminatória com Bodø/Glimt de penálti: e fez o seu 32º golo na época
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Houve mais 30 minutos de futebol e nenhuma rouquidão nas milhares de gargantas em Alvalade, finda a roda de jogadores do Sporting via-se nos seus olhos o que não se perscrutava nos corpos cansados do Bodø/Glimt, que ia substituindo os melhores jogadores já os leões tinham Daniel Bragança e Nuno Santos, os seus recentes massacrados, dois atingidos pelo horror dos joelhos. Mal o prolongamento se iniciou, ambos foram a alma da ação da equipa porque já não era reação o fenómeno que acontecia no estádio.
Bragança atacou as costas dos defesas pela esquerda, Nuno Santos deu-lhe o passe, o primeiro tentou um cruzamento rasteiro e de trás, embalado por algo que talvez ele possa vir a pôr em palavras, surgiu Maxi Araújo com a fúria controlada que canaliza para o futebol. O seu pé esquerdo rematou a bola ajeitada por Trinção, um “toma, faz tu história”, que fez o 4-0 no jogo aos 92 minutos (91:23 para ser exacto, o golo mais madrugador da história dos prolongamentos na Champions) e o 4-3 na eliminatória. Enfim o Sporting ganhava.
Apenas então, mais de hora e meia de esforço e pernas queimadas, os leões abrandaram. Queriam controlar. Existe risco no serenar do risco, não arriscando tanto para ser parcimonioso na energia que restava e que Rui Borges, esmurrador do ar no golo de Maxi, o seu punho cerrado erguido para o céu, alegou faltar em Bodø, o Sporting largou a tendência para todos os passes, todas a ações, terem mira posta lá na frente do campo.
O tentacular Hjulmand, único loiro contra tantos loiros vindos do Círculo Polar Ártico, incansável se mostrou a cortar bolas e a roubar adversários, ele a alma da resistência de uma equipa de tordos estafados, a caírem um a um de cansaço, Geny precisou que o acudissem contra as cãibras, Inácio também, Suárez coxeava a correr, quase todos recolhiam as meias lá para baixo nas pernas, no futebol que é amado por reviravoltas das que já tão pouco restava para os leões confirmarem há estes truques que mais não são do que placebos para a cabeça de quem lá anda.
Maxi Araújo a festejar com Daniel Bragança o 4-0
Gualter Fatia
O Sporting refugiou-se em mais alguns: mastigou a bola perto da bandeirola, encostou o jogo a um canto do campo, pediu faltas que os noruegueses lhe deram e que Hjulmand festejava de joelhos na relva, demorou o seu tempo a marcar as respetivas. O tempo que havia era para gastar, afinal, há muito tempo o clube não via os quartos de final da Champions já ali, era só meter o pisca e virar, desde 1983, quando a prova ainda era a Taça dos Clubes Campeões Europeus, que os leões não sabiam da sensação de jogar essa fase.
Ainda viria um quinto golo quando o Bodø/Glimt, vindo lá do Ártico, muito desnorteado estava, o Sporting agradeceu e quem o marcou, o jovem Rafael Nel, miúdo crescido em casa, embrulhou com simbolismo uma noite já épica e histórica: o clube que apregoa o cultivo próprio e se orgulha dos craques que dali seguiram para o mundo fechava a reviravolta pelo pé de um rapaz da formação. Cinco a zero, um resultado a emular o que o Sporting fez ao Manchester United numa segunda mão da Taça das Taças de 1964 que mora no museu do clube.
Na final dessa competição, quando o futebol era outro, mas já encantava por atos como este que ficará na película das noites épicas da história do Sporting, o clube emuldurou na memória o canto olímpico de João Pedro Morais que lhe deu a conquista do seu único troféu europeu. O Cantinho do Morais. Os leões acreditaram, deram a volta ao Bodø/Glimt, muitos deles acabaram em lágrimas. Nada ganharam de metal precioso nesta noite, agora virá aí o Arsenal, mas ficará, para sempre, aquele golo de Maxi Araújo que virou a eliminatória contra aqueles noruegueses que tinham ganhado por três no frio da Noruega.