Com Neil Armstrong e uma bateria suplente, o FC Porto pôs-se nos ‘quartos’ da Liga Europa a jogar a favor do vento
Victor Froholdt marcou o segundo golo dos dragões após ter entrado ao intervalo
Diogo Cardoso
Pouco interessado em ser vaidoso, o FC Porto jogou com a vantagem trazida da Alemanha e foi mais dominado do que dominou na 2ª mão dos oitavos de final da Liga Europa contra o Estugarda. No entanto, Diogo Costa montou um dique em frente à baliza e os dragões voltaram a vencer a equipa da Bundesliga (2-0, 4-1 no agregado). Nos 'quartos', os azuis e brancos vão defrontar o Nottingham Forest, um dos poucos conjuntos que já derrotou a equipa de Farioli esta época
Por vezes, há um lado útil na autossabotagem, em camuflarmo-nos nos arbustos do mal quando tudo está bem e até melhor do que se esperava. É diagnosticável no FC Porto traços de síndrome de impostor. Farioli queria impingir a ideia de que a eliminatória contra o Estugarda estava 0-0 quando existia o impulso de um golo de vantagem que punha os dragões a jogar a favor do vento. Com a brisa a empurrar pelas costas, o FC Porto seguiu em frente na Liga Europa ao juntar a vitória na Alemanha (2-1) a outra, conseguida no Estádio do Dragão (2-0) frente a um adversário problemático e proativo desde o começo.
A maioria dos sistemas táticos dotados de três centrais esperam que os alas componham a linha defensiva. A urgência do Estugarda era tal que os alemães não fizeram exigências aos flanqueadores. A exposição deixava o piso escorregadio para os dois lados. As virtudes do risco assumido por Sebastian Hoeness refletiram-se numa entrada autoritária. Chris Führich, um dos contemplados com o luxo de não descer, arreliava o FC Porto. A vantagem de partir uns metros à frente abriu-lhe o caminho para assistir Deniz Undav que, de primeira, colocou a bola uns centímetros ao lado do poste.
Nessa ocasião, Diogo Costa não tocou na bola como em tantas outras. O guarda-redes foi sobrecarregado com tarefas num daqueles dias para mostrar o nível que raramente a eficácia da defesa o deixa exibir. Após ultrapassarem todas as outras, Führich e El Khannouss não foram além da última camada de proteção do FC Porto.
Defesas de Diogo Costa foram decisivas para a passagem quartos de final da Liga Europa
ESTELA SILVA
A fluidez alemã deixou o terreno húmido também para deslizes. A subida de Zaidu trocou a volta aos encaixes defensivos do Estugarda. O lateral fez um passe entre os defesas indecisos em controlarem o seu avanço ou a desmarcação de Borja Sainz. O nigeriano escolheu bem e lançou o extremo. Alexander Nübel tentou mostrar mais do que apenas a habilidade que tem para fazer envios com os dois pés, mas William Gomes foi demasiado repentino a ganhar o ressalto oriundo da confusão lançada pelo espanhol e deu ainda mais conforto ao FC Porto na eliminatória. O brasileiro espetou a bandeirola de canto no relvado, como se fosse Neil Armstrong a chegar à lua, durante o festejo.
Se há coisa que este FC Porto tem é jeito para não ser vaidoso, manifestando as suas maiores valências no tempo certo para obter dividendos e não apenas como um ato narcisista de quem não chega aos ramos das árvores para apanhar laranjas. Aceitando o domínio do Estugarda, ser convicto a contra-atacar podia ser proveitoso. Borja Sainz e Zaidu, em modo relâmpago, continuaram a garantir que o jogo não tinha só uma equipa como protagonista.
A desenvoltura do Estugarda teve de ser ainda maior. Führich, na segunda parte, nem sempre teve que investir em jogadas individuais, porque Ramon Hendriks abeirou-se mais vezes para combinar. A vontade para contrariar os avanços foi notória ao ponto dos jogadores portistas fazerem entradas de carrinho uns sobre os outros. Para continuar a ter ganas, Farioli colocou a sua bateria suplente, Victor Froholdt.
Eram duas narrativas a serem desenvolvidas no mesmo espaço temporal. Undav era raptado pela frustração causada pela ineficácia demonstrada em todos os casos em que não terminou os frequentes ataques à área com um remate certeiro. Em simultâneo, Diogo Costa construía um dique em frente à baliza. Enquanto tudo assim se mantivesse, os dragões mantinham a vantagem de dois golos na eliminatória.
William Gomes festejou de forma particular
NurPhoto
Com o tempo a encolher, não era exigido ao FC Porto nada que já não tivesse cumprido. Mas Froholdt é insaciável, um ativista na luta contra a monotonia. Voraz, perdeu a bola, ganhou-a de novo e colocou toda a força gerada nos 45 minutos em que permaneceu no banco naquele remate de pé esquerdo, menosprezando a dificuldade de executar de fora da grande área um golpe com o pior pé e com o corpo desequilibrado.
O FC Porto tem sido presença frequente nos quartos de final de competições internacionais, mas aos da Liga Europa não ia desde 2013/14. Mesmo que esse feito não estivesse virtualmente confirmado, a expulsão de Nikolas Nartey lançado aos 61’ para, no espaço de dois minutos, ver um par de amarelos e ser expulso aos 77’, tornou ainda mais previsível o desfecho.
Em janeiro, o plantel do FC Porto levantou halteres e ficou musculado ao ponto de jogadores que pareciam ter vindo para desempenhar papéis específicos estarem a empanturrar-se de minutos em ocasiões de relevo. Um encaixe notável da direção no método de gestão do treinador que desde o início da época poupou os pneus na Liga Europa. Comparando os 11 jogadores mais utilizados na segunda maior prova da UEFA com os que mais minutos têm no campeonato, Rodrigo Mora/Pablo Rosario e Gabri Veiga/Alan Varela, são as duplas que flutuam.
Para a 2ª mão contra o Estugarda, Farioli fez oito alterações face ao último jogo do campeonato, objetivo em que o FC Porto está mais investido, e nenhuma relativamente à 1ª mão. O progresso na Liga Europa vai acontecendo sem que a equipa azul e branca se tenha forçado a fazê-lo. A ideia de que os dragões ainda nem vestiram o fato de gala nesta competição deve atormentar quem igualmente sobreviveu até aos quartos de final, como o Nottingham Forest, que apesar de já ter vencido o FC Porto nesta época de escassez de derrotas, não dormirá melhor por voltar a ver os portugueses.