Richard Ríos, a receita contra a sonolência no Benfica-Vitória
Pavlidis agradece a Ríos a assistência no 2-0
Gualter Fatia
Um jogo marcado por períodos de apatia deu em triunfo expressivo das águias (3-0). Perante uma equipa de Guimarães (novamente) em mutação, o colombiano, com duas assistências na sequência de roubos de bola, destacou-se e o Benfica, à condição, é segundo, a quatro pontos do FC Porto
Richard Ríos é colombiano, logo é cafetero, por ser do quarto maior produtor de café do mundo. Para a narrativa da receção do Benfica ao Vitória SC, o médio foi mesmo a bica que se toma ao acordar, uma injeção contra o sono, aquele toque que impede que os olhos se fechem.
Está na essência de Ríos o choque, o duelo, o contacto. Não lhe são tão familiares a visão periférica, o aguardar para executar, a gestão dos ritmos. Mas, num encontro que ia resvalando para a displicência, um despertador era mesmo o antídoto necessário.
Pareceu, em certos momentos, um embate entre o Benfica, conformado em ir deixando os minutos correrem, e o Vitória, em nova transformação, em mais um processo de transição, anos zero acima de anos acima, ou melhor, metades de anos em cima de metades de anos, um clube a viver de trimestre em trimestre, como um aluno que não sabe se sobreviverá aos próximos exames. Nisto, Richard emprestou o físico e, diga-se, o jogo consequente que por vezes lhe falta.
Um roubo de bola perante Samu, 1-0. Outro face a Beni Mukendi, 2-0. A noite desastrosa do angolano ainda terminaria com auto-golo. Um triunfo plácido, acelerado quando o café chegou às veias.
A tarde de sol, convidativa, acolhedora, começou com emoção na Luz. As equipas juntaram-se no círculo central, as bancadas fizeram silêncio e prestou-se homenagem a Silvino Louro, que jogou em ambas as equipas. Da face de José Mourinho, na linha lateral, escorreram as gotas de água que se deitam ao solo como tributo aos que partiram e nos são queridos. O treinador do Benfica perdeu, nas suas próprias palavras, um “mano”.
Ríos e Prestianni festejam o 1-0
JOSÃ SENA GOULÃO
A partida teve, durante largos minutos, aroma a pré-época. Lenta, suave, como se importasse pouco. O Vitória empenhou-se particularmente em ter um arranque de desafio inofensivo, passivo, quase como se de um treino de mera organização defensiva se tratasse.
Sem forçar muito, o Benfica começou bem melhor. O 1-0 chegaria aos 15', numa jogada em que Richard Ríos foi muito Richard Ríos, com o que isso tem de bom e não, até que não foi Richard Ríos, com tudo o que isso tem de bom.
Por partes. O colombiano, imponente fisicamente, aproveitou a desconcentração de Samu, fiel ao espírito da pré-época, para roubar a bola ao canhoto do Vitória. Posteriormente, galgou metros, como Ríos faz, e tomou uma má decisão, impulsiva, como Ríos faz. Conduziu a bola na diagonal, o que o ia afastar da baliza e fazer perder o apoio dos colegas, indo para um beco sem saída. E eis que Ríos não foi Ríos: parou, pausou, olhou, serviu Prestianni, um raio de clarividência, 1-0.
O clube de Guimarães chegou à capital pouco depois de mais um profundo episódio de vitorianiedade. Luís Pinto, o herói da Taça da Liga, o treinador da moda em janeiro, foi despedido em janeiro. Entrou Gil Lameiras, 32 anos: quando nasceu, já Mourinho era adjunto de Bobby Robson.
Os visitantes saíram da apatia perto do descanso. Aos 31', Strata cruzou da direita e encontrou Nelson Oliveira, sem marcar na Luz desde 6 de março de 2012, num Benfica 2-0 Zenit. A outrora grande promessa atirou muito perto do poste direito de Trubin. Do outro lado, as águias, que acabaram o primeiro tempo quase no tal modo futebol de verão, pouco agressivo, só incomodaram através de Schjelderup, com um remate que Charles travou.
Ríos na jogada do 1-0
JOSÃ SENA GOULÃO
O recomeço trouxe o Benfica, que teve José Mourinho após umaprovidência cautelar ser aceite pelo tribunal, com aroma de futebol de verão, permitindo que Miguel Nogueira e Nelson Oliveira espreitassem o empate. Ora, se parte do jogo sabe a futebol a passo, quem vive no relvado em permanentes manobras de exuberância física, mostrando músculos e vigor, tem boas chances de se destacar.
O contraste voltou a ser deixado por Richard Ríos. Quando as águias viviam expectantes, ele foi pressionar, incomodando Beni Mukendi. A bola pareceu evaporar-se diante do médio angolano, voltando a surgir no pés do colombiano. Tal como no 1-0, houve qualidade a decidir, tocando em Pavlidis para o grego dobrar a vantagem dos lisboetas.
Na sequência do 2-0, Ríos voltou a ganhar metros com bola. Chegado à entrada da área, foi como se o instinto colidisse com a razão: o primeiro ter-lhe-á pedido para rematar, o segundo avisou-o que os disparos de fora da área têm, esta época, invariavelmente terminado em nada. O choque levou-o a bloquear, perdendo-se o lance.
Com o aproximar do final do jogo, quando a tarde virou noite, os de Guimarães aceitaram a derrota, a terceira seguida para quem, nas últimas cinco rondas, só tem um ponto. Há dois meses, o Vitória tinha o treinador da moda, acabava de ganhar um título, apresentava um conjunto de futebolistas jovens e promissores, vários da casa. Agora está, novamente, no vazio de liderança, na incerteza, na enésima transição.
O 3-0 chegaria num desvio infeliz de Mukendi. O Benfica, à condição, é segundo, com mais três pontos que o Sporting, que tem dois jogos menos, e menos quatro que o FC Porto, que tem uma ronda menos.