Houve dor e raiva na alegria do Sporting em Alverca
Suárez atira para o 2-0
JOSÃ SENA GOULÃO
Os leões venceram (4-1) com conforto antes da pausa de seleções. Apesar do triunfo, o encontro ficou marcado por nova lesão de Nuno Santos, que regressava à titularidade. Pote (bis), Suárez e Geny marcaram belos golos
Duas expressões faciais resumem o 4-1 do Sporting em Alverca. Duas imagens não necessariamente transbordando de felicidade, apesar da obtenção dos três pontos.
A primeira foi a dor de Nuno Santos. A frustração, o querer tapar a cara quando estava no banco, minutos depois de sofrer nova lesão.
A segunda foi a raiva de Luis Suárez. Um olhar quase de desafio, lançado na direção de João Pinheiro, porque o árbitro deu um amarelo por simulação depois de o colombiano, que caiu na sequência de um lance com André Gomes, admitir não ter sofrido o penálti que, inicialmente, o árbitro assinalou. Suárez indignou-se e reagiu como os craques fazem: pegou na bola, marcou, disparou raios de raiva rumo a Pinheiro.
Sair das emoções da grande noite europeia da história do clube na Liga dos Campeões para um burocrático jogo de campeonato ao domingo à tarde em Alverca era, para o Sporting, um exercício de ativação e concentração. Sem margem para errar, pela regularidade pontual do líder e o crescimento do vizinho, a equipa de Rui Borges ofereceu uma boa resposta à legítima dúvida sobre a abordagem mental ao desafio. Carimbar a burocracia pode ser quase tão difícil como chegar ao épico.
No meio da celebração do Sporting, Suárez lança um olhar fulminante para João Pinheiro
JOSÃ SENA GOULÃO
Os visitantes chegaram com energia e intenção ofensiva. Trincão e Pote procuraram os seus diálogos feitos de passes curtos, como dois trovadores com o hábito do verso breve, Geny ameaçou André Gomes com um remate de longe.
A pontuar a boa entrada leonina, o 1-0 chegou aos 22’. Morita, que parece apostado em despedir-se de Alvalade deixando uma boa imagem, foi a tradução do compromisso da equipa com o relvado, acompanhando uma ação até à linha final. Lincoln, canhoto de bom futebol, ia tirar dali a bola, mas Pote, supersónico mental, adivinhou as intenções do brasileiro. O transmontano recebeu e rematou à Pote, um passe para a baliza, finalização de marca registada, podem tirar as camisolas e as caras dos futebolistas e saberíamos qual dos 22 em campo teria disparado assim. 1-0.
Em vantagem, e à medida que o sol se ia embora para o fim de tarde ser substituído pela noite, veio o momento mais doloroso do domingo do Sporting. Nuno Santos não era titular desde 26 de outubro de 2024, quando se lesionou gravemente em Famalicão. Mais de 500 dias passados, regressou às opções iniciais. Aos 27’, o pesadelo veio em forma de um pé que se apoia mal, algo que não ficou no sítio, o corpo a acusar o momento.
Lesão. Ter de ser substituído. Ir para o campo, o rosto em lágrimas, os fantasmas passando pela cabeça de um jogador de resiliência admirável, mas de 31 anos e largo histórico de paragens forçadas.
No regresso à titularidade, Nuno Santos voltou a lesionar-se
JOSÃ SENA GOULÃO
A energia — a palavra mais presente no léxico deste Sporting, por via da boca de Rui Borges — dos bicampeões pareceu ressentir-se pela saída de um dos pilares emocionais do amorismo, a filosofia essencial que continua a ser o centro desta equipa (sete dos 11 titulares debutaram pelo clube em 2022 ou antes). Aproveitou o Alverca, o tranquilo Alverca, treinado por Custódio, outrora efémero capitão dos leões, um clube feito interposto de ativos que logrou a proeza de firmar uma campanha tranquila no regresso à I Liga, apesar de ter protagonizado uma revolução de plantel e treinador como não havia memória. Perto do descanso, Sandro Lima ameaçou o 1-1.
No recomeço chegou o momento Luis Suárez. Quando foi ao chão, rapidamente o árbitro indicou penálti. O cafetero, talvez num assombro de honestidade, eventualmente sabendo como teria sido o lance e evitando o amarelo por simulação, chegou-se a João Pinheiro para indicar ao juíz que não havia infração. Resultado? Revisão VAR, amarelo para Suárez.
A reação do colombiano deu-se não rematando, mas esmurrando a bola rumo à baliza. Uma finalização violenta, aditivada pela raiva, a bronca, esse poderoso incentivo humano.
A partida era de golos com toques pessoais. Para completar a série, foi a vez de Geny Catamo, aos 68': sair do drible, remate em chicote, pleno de potência muscular.
A contenda concluiu-se em ritmo de história já fechada, de guião encerrada, de um certo deixar andar. Aproveitou o Alverca para reduzir, através de Marezi, aos 83'. Aproveitou o Sporting para chegar aos 4-1, por Pote, num livre que surpreendeu André Gomes, aos 86'
Os quarto-finalistas da Liga dos Campeões ainda terminariam com 10, porque Pedro Gonçalves sentiu algum problema físico e saiu mais cedo. Um jogo de grande superioridade e conforto teve, para o Sporting, faces não meramente felizes, como um cocktail de emoções antes da paragem.