O FC Porto foi a Braga arrancar uma reviravolta com cheirinho a Aliados
O festejo de Fofana
ESTELA SILVA
Num confronto entre as máquinas de Vicens e Farioli, os minhotos adiantaram-se, mas William Gomes e Fofana, ambos vindos do banco, fizeram o 2-1 final. Os dragões vão para a paragem com sete pontos de vantagem para Sporting (tem menos um jogo) e Benfica
Dizem as aplicações de navegação que entre o Estádio Municipal de Braga e a Avenida dos Aliados são uns 56 quilómetros de distância. Ou isso, ou um Fofana.
O golo do costa-marfinense, aos 80', colocou Braga e o centro simbólico das festas do FC Porto no mesmo espaço emocional. Uns minutos antes, os dragões estavam a perder, poderiam encarar a reta final da I Liga com uma vantagem mais magra, mas há vitórias com um toque premonitório, de antecipação do futuro, que levam a acreditar que há um destino que já não escapa.
Eis uma delas. A forma como as camisolas azuis e brancas festejaram, o empenho colocado em cada corte, o nível de ruído e tensão, tudo nos levou para um ambiente de quase final. Porque era uma quase final.
O jogo foi resolvido através de argumentos que marcam o presente do FC Porto: o acerto no mercado de inverno, o estado de graça, as bolas paradas. O primeiro ponto deu Oskar Pietuszewski, assistente no 1-1, e Seko Fofana, autor do 2-1; o segundo dá um certo ar do tempo a favor, a confiança de que vai acontecer, o tal destino que já se assume que será concretizado; o terceiro criou o 2-1.
Santificado seja o vosso sistema, venha a nós o vosso modelo, seja feita a vossa dinâmica assim em organização como em pressão. Um SC Braga-FC Porto é o expoente máximo, a nível nacional, do futebol das engrenagens, das equipas como espécie de organismo composto por várias sub-partes mecânicas.
Desenhos, desmultiplicações, construir e destruir, fazer e desfazer. A certa altura, Horníček foi ficando com a bola em seu poder, esperando que uma peça do xadrez do FC Porto se movesse para dar início à dança. Mas o adversário tardava em dar o primeiro passo. Até que o impulso adolescente de Pietuszewski foi lá e o guarda-redes do SC Braga agarrou rapidamente a bola, como um pássaro com pressa para levar o jantar às suas crias, e colocou-a no espaço deixado livre pelo polaco.
HUGO DELGADO
A noite bracarense era vivida em papel quadriculado, feita de pontapés de baliza estudados. João Moutinho e Grillitsch tentavam amarrar o meio-campo para os da casa, ao passo que os forasteiros, vendo a paridade numérica entre os seus atacantes e os defesas do outro lado, não raras vezes colocavam rapidamente a bola na frente, particularmente no futebol de esticões e ímpeto de Pietuszewski.
Os dragões criaram quase todos os seus lances de perigo na primeira parte na madrugada do jogo. Varela, num remate à entrada da área, foi quem esteve mais perto do 1-0, Pepê também ameaçou, numa fase em que Vicens, com o seu ar de professor de economia a tirar um doutoramento na Alemanha depois de alguns anos a trabalhar em Barcelona, deambulava impaciente pela área técnica.
À boleia dos esticões de Zalazar, que está em campo como um habilidoso motard está no trânsito quando tem pressa, contornando obstáculos e fintando sinais amarelos, o Sporting de Braga conseguiu esporádicas aproximações a Diogo Costa. Pau Víctor e Ricardo Horta, os outros artistas dos arsenalistas, apareceram bem menos inspirados que o veloz uruguaio.
As máquinas foram-se igualando. As máquinas foram funcionando. A segunda parte chegava com um empate mecânico.
Zalazar faz o 1-0
Diogo Cardoso
O bloqueio desfez-se quando Gabri Veiga agarrou Niakaté e foi assinalado penálti. Zalazar, que vai marcando todos os castigos máximos menos o mais importante da época do Sporting de Braga, não falhou.
Em desvantagem, o líder da I Liga reagiu com personalidade. Com aroma a Aliados. "Lembras-te da reviravolta em Braga?...".
Froholdt obrigou Horníček a defesa apertada, William Gomes fez a sua jogada de Arjen Robben e também roçou a igualdade. Farioli, com a hiperatividade de substituições que o caracteriza, colocou não só William, mas também Moffi, Fofana e Rosario.
Aos 69', nova anomalia no sistema. Erro, pequeno crash, no caso porque uma peça não estava no buraquinho onde normalmente se insere. Moscardo não é central, mas lá foi colocado e lá não teve apoios bem orientados, nem perspicácia, nem velocidade para contrariar o grande passe de Kiwior e o sprint de Pietuszewski, que com 17 anos corre como se empurrado pelo próprio vento. O golo foi uma oferta para William Gomes.
Chegou-se à parte final e o FC Porto socorreu-se das suas queridas bolas paradas. Havia uma manifestação diante da baliza do SC Braga, uma overdose de população, ali não havia crise demográfica. Entre tantos corpos, o laboratório de Farioli e Fofana aparecendo de rompante, Fofana como símbolo do que o mercado de inverno trouxe: soluções, energia, um chuto de adrenalina para uma equipa que começava a roçar o monótono. O empurrão que faltava. O empurrão para que de Braga aos Aliados haja um Seko de distância.