O México-Portugal não causará insónias nem novas dúvidas a Martínez
Nem a entrada de Vitinha ao intervalo animou o primeiro de dois jogos de Portugal na América do Norte
Agustin Cuevas
O primeiro de dois jogos de preparação da seleção nacional na América do Norte foi o mais nulo que um nulo pode ser: houve poucas oportunidades, um futebol com sono e ninguém aproveitou verdadeiramente a oportunidade para causar dúvidas ao selecionador. Isto se ele ainda as tiver. Na terça-feira há duelo com os Estados Unidos
Olhando já para junho, Portugal olhou para a janela internacional de março como uma oportunidade logística. Mais que tudo, logística. Porque para boa parte dos convocados por Roberto Martínez, com exceção de Paulinho - e até nisso a sua não convocação inicial não se entende -, atravessar o Atlântico no auge de todas as decisões no futebol de clubes não será menos do que um suplício.
E, por isso, o México-Portugal, jogo que marcou nova inauguração do mítico Estádio Azteca, não foi nem mais nem menos daquilo que se esperaria: um jogo tão sonolento quanto a madrugada portuguesa, com pouco risco e, futebolisticamente, com nada para oferecer para o baú das dúvidas de Roberto Martínez, isto se elas existirem.
Sem Cristiano Ronaldo, Rúben Dias, Bernardo Silva e Diogo Costa, todos eles seguramente titulares no Mundial do verão, o selecionador nacional apostou num onze para lá de alternativo, chamando António Silva, Matheus Nunes e Samu Costa à titularidade, a quem se juntaram João Félix ou Gonçalo Ramos, entradas mais expectáveis para o onze perante a lista de ausentes. Dificilmente algum deles aparecerá no Mundial como opção inicial.
Médio Samu Costa a tentar acompanhar um adversário
Agustin Cuevas
Médio Samu Costa a tentar acompanhar um adversário
Agustin Cuevas
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A pressão alta tentada pelas duas equipas nos primeiros minutos foi fogo fátuo, efemeridade pouco merecida para um recinto que será um dos mais essenciais na história dos Mundiais: foi no Azteca que Pelé ganhou o seu terceiro Mundial, foi nesta cancha que Maradona subiu à condição de Dios em 1986, na sua dimensão de artista e de matreiro, fosse na perfeição do golo do século ou na viveza criolla da Mão de Deus. Merecia mais este Azteca de cara lavada.
Mas rapidamente o encontro entrou numa modorra que não terá cafeinado a madrugada dos portugueses que roubaram horas de sono para acompanhar a seleção. Bruno Fernandes foi uma espécie de líder inicial, mas o médio do Manchester United passou boa parte dos primeiros 45 minutos longe da bola, de costas para o jogo. João Félix cirandou lateralizado, onde rende pouco. Gonçalo Ramos, avançado que tende a fazer muito com as poucas oportunidades que tem, foi o antónimo de si mesmo. Da 1ª parte ficará o compromisso defensivo de Samu Costa, a fazer pela vida por não ser um dos certos na lista para o Mundial e, por outro lado, novo jogo algo temerário de Renato Veiga, a arriscar em demasia num par de abordagens.
Oportunidades, muito poucas. Aos 14’, num canto estudado, Félix apareceu ao segundo poste e tentou um conveniente sombrero, que lhe saiu com abas muito largas. Aos 26’, Francisco Conceição encarou o adversário à direita, deixou para Bruno Fernandes no meio, com o médio a surpreender no passe para Ramos que, de primeira, num tiro pouco ortodoxo, rematou ao poste. De resto, pouco, muito pouco.
João Neves em lance com Berterame
Manuel Velasquez
João Neves em lance com Berterame
Manuel Velasquez
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As muitas alterações ao intervalo (sete) baralharam ainda mais uma coesão que já não era muita. Ainda assim, a chegada de Vitinha ao jogo trouxe um pouco mais de vontade em construir com critério, mais calma, mais cérebro. Pedro Neto chegou para tentar abanar o lado direito. Mantiveram-se, no entanto, as dificuldades em fabricar o que quer que seja, em dia de criatividade praticamente nula. Nem Paulinho, ovacionado por 90 mil mexicanos, aproveitou o seu particular fator casa para criar perigo.
A grande oportunidade do México, que pareceu sempre bastante satisfeito com sacar um empate a Portugal - nunca bateu a seleção nacional e também não foi desta - apareceu aos 80’, com Armando González a surgir livre ao segundo poste, com Renato Veiga e João Cancelo perdidos. O cabeceamento saiu ligeiramente ao lado da baliza de Rui Silva. Pedro Neto, já nos descontos, tentaria uma derradeira cavalgada pela direita, com o guarda-redes José Rangel a travar o misto de cruzamento-remate que dali saiu.
Pouco depois terminava um jogo que não dará insónias a ninguém em Portugal, que não criará problemas a Roberto Martínez, onde ninguém aproveitou oportunidades. Se Portugal passar todo o Mundial sem colocar os pés a mais de 2 mil metros de altitude, dúvidas permanecerão sobre o porquê deste esforço.