Crónicas de jogos

Portugal estava ansioso para regressar a casa e não descobriu nada de novo sobre si frente aos Estados Unidos

João Félix teve muito tempo para preparar o segundo golo
João Félix teve muito tempo para preparar o segundo golo
Jared C. Tilton

No último teste antes da convocatória para o Mundial, a seleção nacional venceu os Estados Unidos (2-0) numa exibição que não acrescentou nada ao progresso coletivo. Portugal foi pouco rigoroso nas decisões e na criação frente a um adversário que quis competir. Nem numa exibição em piloto automático, Roberto Martínez conseguiu fugir às contradições

Se era assim tão necessário Portugal experimentar-se num estádio coberto onde a cabeça não pode fugir para lua – e sabemos que esse é um problema comum da seleção –, então que ao menos a visita a Atlanta tenha cumprido tal propósito. Quanto a desideratos de evolução, não houve nada a anotar durante esta vistoria ao país anfitrião do Mundial, apesar da vitória (2-0).

A equipa de Roberto Martínez não desenvolveu nenhum aspeto em particular e mesmo num amigável frente aos Estados Unidos para ser jogado em piloto automático o treinador conseguiu revelar incoerência na gestão. Valeu a Portugal o sisudo Bruno Fernandes, sempre empenhado mesmo com a quantidade de partículas de desinteresse a serem tossidas para o ar. Relembrou que a hipótese de usar mais vezes a braçadeira de capitão devia ser um debate real. Coletivamente, não houve um reforço na cola a segurar as peças.

Os Estados Unidos estão numa fase em que têm alguma urgência em demonstrar que o Mundial não vai ser uma bacorada para os anfitriões. Nesse âmbito, injetaram espírito competitivo ao encontro para compensarem a derrota por 5-2 contra a Bélgica. Alongaram-se no campo os jogadores de Pochettino e, por vezes, amedrontaram as varas em que se endireitam os portugueses.

Pressão inicial dos Estados Unidos abrandou após o golo de Trincão
Omar Vega/USSF

A específica hora de começo do jogo não era humor. Às 00h07, a bola começou a rolar. Lá para as 00h14, Christian Pulisic foi condescendente perante José Sá, caso contrário, Portugal já estaria a perder. Gonçalo Inácio fez um passe de complicada receção para Bruno Fernandes e a energética seleção norte-americana quase levou o lance até às últimas consequências.

Importa relembrar que nos Estados Unidos não há jogo sem que a pirotecnia, as luzes e os DJ’s apareçam. A pouca exuberância de Portugal, de facto, exigia alguns apetrechos que garantissem a animação que a seleção nacional não conseguia proporcionar. Sem que Portugal tivesse intenções vincadas para o jogo, Bruno Fernandes desencantou um perigoso remate cruzado.

Apesar de ter passado a usufruir de mais posse, a displicência manifestou-se em excesso. Porém, Bruno Fernandes atacou ferozmente o espaço e foi descoberto por Vitinha, autor de um passe à Vitinha. Após temporizar, o médio do Manchester United deixou a bola em Francisco Trincão para o golo do jogador do Sporting.

A hiperatividade dos Estados Unidos não desapareceu. Christian Pulisic, entre a agitação, assumia as rédeas. A hesitação para visar a baliza era pouca e José Sá ainda teve que travar Sebastian Berhalter. Da mesma forma, as abnegadas e aparatosas ações defensivas de Samuel Costa sucediam-se, o que não indicava que o jogo estivesse a ser disputado na zona onde Portugal gostaria que estivesse. O centrocampista do Maiorca foi um dos três nomes a repetirem a titularidade face ao embate contra o México e parece ser um jogador fetiche para Roberto Martínez.

Os Estados Unidos arriscaram vários remates de fora da grande área e entregaram a Christian Pulisic as rédeas do ataque
Icon Sportswire

O selecionador é soberano na escolha dos convocados para o Mundial, apesar da querela. No entanto, as palavras proferidas discordam das ações tomadas. Paulinho foi um dos onze jogadores a entrarem na 2ª parte. Inicialmente, o avançado do Toluca não tinha sido convocado, mas acabou o estágio com mais minutos do que Gonçalo Guedes, o jogador que supostamente iria ser testado como ponta de lança e que deixou o estágio sem ser avaliado na posição.

A vantagem de Portugal foi alargada por João Félix. A defesa norte-americana ficou a contemplar a receção ao canto largo de Bruno Fernandes e permitiu ao jogador do Al-Nassr ter conforto suficiente para fazer o 2-0. Matt Freese olhou de imediato para o ecrã gigante para constatar a passividade dos colegas.

Enquanto Portugal ia vivendo de repelões individuais, Roberto Martínez voltou a contradizer-se. Ficou célebre a não utilização de Geovany Quenda numa altura em que se podia ter tornado o internacional português mais jovem de sempre. Porém, desta vez, por descargo de consciência, premiou Ricardo Velho e Mateus Fernandes com a estreia na seleção.

A digressão pelas Américas careceu de um envolvimento competitivo capaz de espicaçar o melhor de Portugal. Olhando apenas a estes dois testes, talvez fosse melhor que o primeiro jogo do Mundial, contra a República Democrática do Congo, não chegasse tão depressa.

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