Trincão fugiu ao controlo da defesa do Santa Clara
TIAGO PETINGA
Apesar de momentos relevantes de futebol associativo, o Sporting demorou a sacudir as dúvidas quanto ao desfecho do jogo da 28ª jornada da I Liga. O golo de Rafael Nel, em estreia como titular, foi o ponto de exclamação numa vitória (4-2) contra o Santa Clara em que a exibição, no geral, pouco condiz com os minutos finais
Gozar um feriado não é para todos. Há serviços essenciais que não podem parar e é preciso dar valor ao esforço humano implicado no funcionamento dos mesmos. À porta de um fim de semana prolongado que culminará com a degustação de um cabrito pascal, o Sporting gastou algumas energias num dia que para muitos é de descanso, transformando-o num momento de bastante produtividade.
O pós-seleções tem exigências particulares e os leões espelharam-nas no onze. Foi algo que, aliado a lesões e castigos, fez Rui Borges puxar pela cabeça. A equipa verde e branca exumou os traumas passados dos jogos recentes contra o Santa Clara, mas, motivado por uma fome que não podia ser saciada com carne, o Sporting banqueteou exemplos de futebol de fragrância máxima.
Porém, o Sporting chegou ao trabalho com algum atraso. Os lançamentos laterais longos são uma forma abreviada de colocar a bola na grande área. Tais situações não se gabam de uma grande eficácia, assim a atividade da defesa esteja em níveos de intensidade normais. A postura dos leões foi de um certo menosprezo pela força de braços de Guilherme Romão, que contrariou o desdém. A urgência junto da baliza de Rui Silva não foi resolvida. Lucas Soares reanimou o lance quando este parecia estar na fase final da vida e, logo aos 3', Gustavo Klismahn capitalizou o incómodo do Sporting perante tão invulgar situação.
O Sporting começava a reviver as dificuldades que teve frente ao Santa Clara nos dois jogos, um para o campeonato e outro para a Taça de Portugal, em que as duas equipas puseram a vista uma na outra esta época. Apesar do sucesso obtido em ambos, os golos decisivos a favor da equipa verde e branca foram marcados depois dos 90’.
Rafael Nel substituiu Luis Suárez e estreou-se a marcar na I Liga
TIAGO PETINGA
Os cheliques de Geny Catamo arreliaram o Santa Clara e o Sporting confirmou o maior dinamismo que sempre tem pela direita. Na imprevisibilidade produzida, o moçambicano ganhou a frente a Guilherme Romão numa zona em que, ao contrário do que fez, o lateral dos açorianos já não podia tocar no extremo sem cometer grande penalidade. Pedro Gonçalves fez o que tinha a fazer e nem festejou, correndo de volta para o meio-campo para que o jogo retomasse, desta vez, empatado.
O menino Rafael Nel, na primeira titularidade pela equipa principal do Sporting, foi praxado pela impetuosa defesa do Santa Clara. As ligações que Luis Suárez costuma fazer foram executadas por Pedro Gonçalves, que, rodando sobre si, rematou por cima. De tão massacrados os membros superiores de Gabriel Batista terem sido, o guarda-redes solicitou assistência médica. As defesas aos remates de Geny Catamo e à nucada de Morita não ajudaram à preservação dos tentáculos.
Usando as mãos nas largas reposições, Guilherme Romão dava um empurrão à equipa de Petit. Num desses casos, Rui Silva avaliou mal a saída e causou sobressalto. Zeno Debast também teve que afastar um cruzamento de Fernando que invadiu uma zona delicada da pequena área.
Antes do intervalo, o Sporting conseguiu servir o que de melhor produz. Daniel Bragança despegou-se de Morita no meio-campo e envolveu-se no ataque. Tabelou com Pedro Gonçalves e depois com Rafael Nel. Com os adversários tontos devido à troca alucinante de passes, a reviravolta estava feita num momento de futebol perfumado que teve réplicas.
As movimentações sem bola capacitaram o ataque. Francisco Trincão simulou que ia receber, mas deixou para Morita. O internacional português foi encontrar-se mais à frente com o passe picado do nipónico e fez o 3-1.
Entrada de Gonçalo Paciência gerou o caos nos minutos finais
TIAGO PETINGA
Os ataques ao espaço, ainda mais amplo na 2ª parte, continuariam a fazer de Trincão um foco de problemas para o Santa Clara. O cruzamento tirado numa dessas arrancadas deu a Rafael Nel a hipótese que o avançado de 21 anos tanto procurava de se estrear a marcar na I Liga. Perante a liberdade concedida na pequena área, falhou o desvio.
Se o Santa Clara até nos lançamentos colocava a bola na grande área, o Sporting era mais comedido nos despejos e batia os cantos de forma curta. Pelo menos, aqueles em que conseguiu criar perigo. Como fruto da calma, Geny Catamo acertou na barra.
O conjunto que está oito pontos acima da zona de despromoção alcançou a frente através do veloz Gabriel Silva. No entanto, foi a entrada de Gonçalo Paciência, aos 77’, que ateou um incêndio. Um primeiro golo marcado pelo ponta de lança formado no FC Porto, que escavou um túnel memorável em Eduardo Quaresma, foi anulado por falta de Vinícius Lopes sobre Souleymane Faye. Gonçalo teve a virtude do seu apelido e, quando Debast lhe saiu à queima, contornou-o para reduzir sem perturbações do VAR.
Rafael Nel vai ganhando pontos no Sporting pelo efeito tranquilizador que traz. Acabou com as dúvidas na eliminatória contra o Bodø/Glimt, aos 120+2’, e fez o mesmo contra o Santa Clara, aos 90+6’. O interesse dos jovens vê-se na quantidade de perguntas que fazem, mas este é um ponto de exclamação em pessoa.
Mikel Arteta terá que passar os olhos nesta vitória por 4-2 que deixou os leões, à condição, a quatro pontos de distância do líder FC Porto. Certamente, Rui Borges fará o mesmo quanto à visita dos londrinos ao Southampton. Há um Sporting-Arsenal para preparar.