O PREC do Benfica escorregou nas carambolas do Casa Pia
A tristeza do Benfica, a alegria do Casa Pia pelo golo de Rafael Brito
MANUEL DE ALMEIDA
O Processo de Recuperação Em Curso das águias foi travado quando mais perto do topo poderia ficar. Diante de um adversário aflito, mas que tem roubado pontos aos ocupantes dos lugares cimeiros da tabela, o 1-1 registou-se após um golo de Rafael Brito, médio que passou mais de uma década no Seixal
A 1 de fevereiro, o Benfica empatou a zero em Tondela. Ficava, então, a nove pontos do FC Porto, tendo mais um encontro disputado que os dragões. A equipa de Farioli viria, depois, a perder surpreendentemente diante do Casa Pia, mas a quase dezena de pontos de desvantagem parecia, dado o adiantado do campeonato, demasiado grande.
Avança-se dois meses e as águias lograram um verdadeiro PREC, Processo de Recuperação Em Curso. Em sete rondas, ganharam seis e empataram contra os líderes. Chegados ao mesmo campo onde o FC Porto perdeu com estrondo, eis a oportunidade que soava a impensável há pouco tempo: ficar a cinco pontos do topo e colar no Sporting, ainda que à condição, no caso dos leões.
Os adversários estão na Europa, têm desgaste adicional, há sempre um certo encanto em vir de trás, em ganhar terreno, em realizar uma recuperação. Era o jogo para ganhar e torcer pelos efeitos mentais da aproximação e do desgaste. Mas este não é esse Benfica. Não há aproveitamento, não há instinto matador, há um certo aroma a desleixo.
Com 1-0 no marcador, um simples pontapé de baliza tornou-se problema. Aos solavancos, a bola foi-se aproximando da baliza de Trubin, onde passou muito pouco tempo durante a noite chovosa. E acabou no 1-1, no travão ao PREC. Entre Rio Ave, Santa Clara, Casa Pia, Tondela e Casa Pia, tudo equipas do 12.º para baixo, o Benfica deixou 10 pontos.
Um embate entre Casa Pia e Benfica é como um reencontro entre primos, familiares vindos de um tempo antigo, dos primórdios do futebol organizado em Portugal. As águias foram fundadas por vários jovens com passado na Casa Pia, enquanto os gansos tiveram na sua genése, e depois como figura fundamental, Cândido de Oliveira, um ex-Benfica.
Em teoria dois clubes cujas casas distam uma caminhada uma da outra, este dérbi voltou a realizar-se a mais de 80 quilómetros do lar do Casa Pia. Entretanto, em Pina Manique lá continua um recinto à espera das obras, quase quatro anos depois da subida do clube à I Liga.
MANUEL DE ALMEIDA
Sem surpresa, os homens de Álvaro Pacheco entraram para se defender, fechando-se frequentemente em 5-4-1, como um animal encerrado na sua concha. Aos 30’, os da casa tinham 16% de posse e os visitantes somavam mais passes no último terço (45) do que os locais tinham passes totais (40).
Richard Ríos deu o primeiro sinal de perigo para o Benfica. Nos seus primeiros tempos em Portugal, embalado pela cotação adquirida do lado de lá do Atlântico, o colombiano atrevia-se regularmente a remates de longe, os quais frequentemente presenteavam alguém na bancada com uma oferta esférica. A frequência das tentativas foi diminuindo, mas aos 9’ houve uma bom tiro, parada por Patrick Sequeira. As chegadas do cafetero, vindo desde trás, seriam a melhor arma ofensiva de Mourinho.
Apesar do intenso domínio, não houve muitas situações de perigo para os encarnados na etapa inicial. Uma das melhores chances surgiu num quase caricato auto-golo de David Sousa, que cabeceou para a própria baliza.
Na esquerda, Andreas Schjelderup, embalado por uma janela internacional que confirmou o grande momento no clube, era a grande — e por vezes única — arma de desequilíbrio do Benfica. Recebia, concentrava a atenção de vários adversários, atrevia-se. Aos 40’ cruzou para Pavlidis, que cabeceou sem direção. Em cima do descanso, no primeiro remate enquadrado dos forasteiros desde o remate de longe de Ríos, o grego viu Sequeira negar-lhe o 1-0.
Os gansos ganharam alguma vida com a chegada de Pacheco e a sua boina, com o triunfo diante do FC Porto como ponto alto, mas as últimas quatro rondas só trouxeram dois pontos. Os aflitos poucas vezes se esticaram, mas conseguiram ir para o descanso com um aviso para o Benfica, num livre estudado em que Rosas forçou Trubin a intervenção apertada, antes de Tiago Morais ver a sua finalização cortada por Enzo.
Rafael Brito, um menino do Seixal, fez o 1-1
MANUEL DE ALMEIDA
O recomeço confirmou os sinais do epílogo da etapa inicial. Os homens de José Mourinho adquiriram perigo, obtiveram facilidade para encontrar brechas na muralha do Casa Pia, que invarivelmente precisava de binóculos para ver Trubin. Rafa, após uma assistência de Pavlidis em que o helénico não tocou na bola, mas abriu as pernas para que esta passasse, atirou ao lado, antes de dar de trivela para Otamendi, que não teve pontaria.
A insistência seria premiada com o golo. Vindo do banco, Prestianni ganhou espaço na direita. Schjelderup, que até já ganha bolas no ar, serviu Ríos, embalado, para o 1-0.
E seria o último remate enquadrado do Benfica no jogo. Estávamos aos 68'.
Rafael Brito chegou ao Benfica com oito anos e só deixou de ter contrato com as águias aos 21. O médio desenhou a tabela mais inestética da história com Clau Mendes, uma sucessão de carambolas de cabeça que foi progredindo. Livolant introduziu caos na jogada, que terminaria nos pés de Brito para o golo.
Com o empate, José Mourinho apostou numa espécie de WM, um 3-2-2-3 que juntava Ivanovic, Anísio e Pavlidis na frente. Pouco mais perigo foi criado. Dos 25 pontos que o Casa Pia tem, sete foram obtidos perante FC Porto e Benfica. Dos 18 pontos que o Benfica perdeu na I Liga, 10 foram contra equipas do último terço da tabela.