A diferença não foram os cantos do Arsenal, foi o desperdício do Sporting
Kai Havertz a festejar o seu golo que deu a vitória ao Arsenal em Alvalade na 1ª mão dos quartos de final da Champions
Sports Press Photo
O temível e poderoso Arsenal é verdade que ameaçou logo ao primeiro canto que teve em Alvalade, mas a primeira equipa a ameaçar o golo seria o Sporting, que apesar de sofrer aqui e ali também foi a que mais rematou e oportunidades teve. Mas, já nos descontos, Kai Havertz marcou (0-1) o único golo do jogo, algo cruel para os leões. Terão de ir a Londres tentar virar a eliminatória
Haveria de ser um jogo, mais um, açambarcado pelas bolas paradas. Era esperar até o Arsenal ter o seu primeiro canto.
Aconteceu aos 15 minutos, nada de magia negra ou de extremamente inovador além do encafuar da pequena área com jogadores que partem mais para lá do segundo poste, escondidos do ângulo de visão de quem os marca, da bola batida, da direita, com efeito em direção à baliza por um pé esquerdo, dos muitos bloqueios, das movimentações a fingir e da molhada de corpos a cercar o guarda-redes a que os ingleses se prestam. A bola cruzada por Nodi Madueke foi direta à barra, já o ai-jesus se instalara na área com corpos no chão, camisolas a serem puxadas, pedidos de falta sobre Rui Silva. Um faroeste caótico.
Era filme repetido, sabia-se da insistência do Arsenal, o lance que originara o canto foi um livre lateral a imitar um canto curvado por Martin Ødegaard e o mesmo salfifré, com a bola a ser cabeceada por alguém dos londrinos, tanta a balbúrdia provocada pelos visitantes que nem se percebeu bem quem foi, nem em quem do Sporting houve ricochete, só se viu que a tentativa rasou a trave. Duas vezes a bola parou para um pé a reativar, dois sustos dos ingleses.
O jogo fora, até aí, do Sporting, lesto a pressionar no meio-campo adversário, rápido a reaver as bolas perdidas, inclusive mestre a adormecer a sua posse no engano com Hidemasa Morita a calibrar os timings e Ousmande Diomande, com o exterior da chuteira direita e um passe encantador, a lançar Maxi Araújo nas costas da última linha do Arsenal para o uruguaio encontrar com estrondo a barra da baliza com o seu remate. O início foi dos leões, assertivos a encherem o peito contra os embalados para serem campeões ingleses. Aparecido o primeiro canto, a toada de um jogo simbólico virou.
O amontoado de jogadores na pequena área do Sporting num canto do Arsenal, tal qual os líderes da Premier League gostam
Stuart MacFarlane
Para mais isto era um de memórias. Na do Arsenal aquela ousadia a meio-campo de um português chamado Pedro, na do Sporting uma mais recente, a da terraplanagem sofrida em Alvalade na época passada perante uns londrinos então não líderes da Premier League, nem encarados como a equipa a temer na Europa, sim quiçás com um futebol algo mais agradável, solto na trela artística e menos mecanizado como hoje Mikel Arteta tem os jogadores, estes a jogarem de memória mas usando a que o treinador lhes inculca nos treinos. Quando a bola está ali tu fazes isto, tu aquilo, tu mexeste-te para ali e tu esperas por este espaço.
Quando - feitos os tais cantos - o Arsenal afastou Ødegaard e Declan Rice de Martin Zubimendi, o 6 ficou mais abastado de espaço e os médios do Sporting desnorteados na marcação, o norueguês e o inglês mexiam-se nas suas costas, a eles juntava-se Calafiori, o central que era o lateral esquerdo matreiro por com bola afinal ser mais um médio que se movimentava por zonas interiores, num carrousel de passes que procurava vantagens dentro do bloco leonino. Depois, na equipa onde a mais fresca das memórias é uma ilha inóspita, não havia rasgo para mais do que robotizar a jogada até Madueke, para encarar Maxi e cruzar - ou ganhar vocês sabem o quê.
De Viktor Gyökeres reconhecia-se a melena loira intacta por gel, o mesmo arcaboiço temível em Portugal mas só mais um corpo em Inglaterra, ignorado pelos passes no meio das muitas trocas de posição nas jogadas do Arsenal, o sueco mais um espetador a assistir a tudo. O abominável homem dos 97 golos deixados no Sporting, um arraial deles surgidos à boleia das suas cavalgadas solitárias contra a baliza, notava-se mais quando pressionava era mais um na consertada pressão coletiva contra a saída de bola dos portugueses, obrigando Gonçalo Inácio a bater passes longos ou a precipitar-se na procura do apoio frontal de Luis Suárez.
Sofreu o Sporting até aos últimos 10 minutos antes do intervalo, acabou por isso como começou, na companhia da bola acalmada por Morita, a tentar atrair os ingleses à direita para lançar a corrida de Maxi do outro lado. Pouco encontrava Pote e Trincão nos espaços curtos, pelo centro, e o que a faísca entre ambos gera para o colombiano que contratou para a equipa se libertar da memória de um sueco. Ødegaard ainda remataria, Diomande também, ambas tentativas longínquas e mais esperançosas do que perigosas.
O momento em que Maxi Araújo rematou a bola contra a barra da baliza do Arsenal
Zed Jameson - PA Images
Complicado que estava machucar o Arsenal por dentro, em zonas sobrepovoadas de corpos e sustentadas por Saliba e Gabriel Magalhães, dupla como haverá nenhuma em Inglaterra, podia então o Sporting explorar as alas, dar companhia a Maxi na esquerda e congeminar situações para Geny ficar só na cara de Calafiori. O descanso no balneário pouco mudou no Arsenal, controlador esporádico das operações, ocasional na demonstração da suposta superioridade porque amorfo no ímpeto. O seu truque era ir ter com Madueke em busca de faltas, livres e cantos.
Melhor o Sporting no reinício, a explorar com outro afinco a relva perto das linhas laterais, sem se atrever em demasia na pressão, preocupado em cerrar caminhos pelo miolo, mas já capaz de ligar um lado ao outro. Em Geny começou uma transição que acabaria na esquerda, com Pote a lançar Maxi que cruzou para trás, onde surgiu de rompante Trincão sem que o frouxo remate condisesse com o movimento coletivo.
Perto da hora de ação, já depois de o Arsenal ter os seus a sorrirem e festejarem por breves momentos, antes de anulado o golo de Zubimendi na singela vez que a equipa ligou uma jogada dentro do bloco dos leões, com um passe rasteiro de Gabriel Magalhães a encontrar um Gyökeres fora de jogo, a equipa de Mikel Arteta dedicou-se a mais uma unha de risco. Apertou na pressão alta, encostou nas saídas de bola do adversário e subjugou o Sporting um período de sofrimento.
Um trago ousado de pouca dura. Retornaria o Arsenal ao conservadorismo quando com a bola, um risco quanto baste, incomodando o adversário sem nunca realmente o perigar, nem com Havertz já em campo na órbita de Gyökeres, vigiado com diligência por Diomande num baile de corpanzins para saciarem saudades. Com menos posses de bola prolongadas, o Sporting enchia-se de paciência sem que Rui Borges dispusesse de um banco recheado de trunfos. Daniel Bragança entraria para o seu pé esquerdo afinar ao lado de Morita.
Diomande e Morita a fecharem o espaço a Gyökeres na única vez que o sueco tentou rematar em Alvalade
David Price
Entraria mais tarde Rafael Nel, gaiato de erupção recente na equipa principal para o treinador imitar o 4-4-2 de Arteta. Era um jogo de espelhos. O Sporting já tinha ameaçado de novo por Geny numa jogada a copiar uma anterior, arrancada à esquerda para acabar na direita onde o moçambicano, no um para um, fintou para dentro e rematou. Não demoraria, de cabeça, a repetir a tentativa, desviando de cabeça um cruzamento de Luis Suárez na única aparição de assinalar do colombiano perto da área. Este não foi um jogo para avançados.
Nem quando, com pouco a faltar para os 90’, os pézinhos de Morita livraram-no da pressão, lançou um contra-ataque, lá foi Catamo de novo lançado na direita, passou a sua perna forte por cima da bola, escapuliu-se para o lado da que lhe diz menos, rematou rasteiro e David Raya não agarrou. Saiu melhor ao guarda-redes a reação às suas mãos amanteigadas perante a recarca à queima-roupa de Suárez, incapaz de o tornear de tão perto. Era o 16º remate do jogo, o décimo para o Sporting.
Não seria o último. Já nos descontos, ousou Gabriel Martinelli divergir do mais do mesmo. Destro à esquerda, encarou Fresneda, fugiu ao espanhol para o centro do campo e o grito do brasileiro contra a redundante tentativa de arranjar espaço junto à linha para cruzar coincidiu com a única falha da dupla de centrais do Sporting na partida: Inácio, o central da esquerda, estava mais à direita a marcar Gyökeres, perto estava Diomande a nada fazer e no buraco vagado pelo capitão leonino (e não compensado por Daniel Bragança) entrou Kai Havertz.
Kai Havertz entrou na segunda parte para jogar com Gyökeres no ataque do Arsenal
Chris Brunskill/Fantasista
O alemão que não é bem um avançado, mais um atacante arraçado de médio, recebeu com calma o passe de Martinelli, olhou para Rui Silva e desviou a bola para o único golo, aos 90’+1.
Porventura severo demais o castigo para um Sporting que rematou mais, tocou mais a bola dentro da área adversária e entrou tanto nos últimos 30 metros do ataque quanto o de antemão temível, assustador e poderoso Arsenal que em Alvalade não jogou como o mastodonte que se temia. Sem os seus cantos (tiveram quatro), os ingleses a pouco arrojo se dedicaram por terem a segunda mão em Londres e no único rasgo de diferente levaram um golo para lá. E um recorde: a jogo foram igualmente os 16 anos e 97 dias que tem Max Dowman, um radiante talento que superou o Lamine Yamal como o mais novo a jogar na Liga dos Campeões.
Terá de virar a eliminatória no Emirates, um estádio que ainda se lembrará da graça de Pedro Gonçalves e da gracinha do Sporting de há dois anos. E onde os leões, já dados os abraços a Gyökeres no final, posta em dia a conversa, irão com a consciência de que se lidarem como lidarem com a fortaleza do Arsenal no momento em que o jogo pára num canto, é possível.