O surrealismo e a ineficácia aumentam o nervosismo do FC Porto
A frustração de Martim Fernandes pelo auto-golo. Logo a seguir, sairia lesionado
Alex Pantling - UEFA
A equipa de Farioli empatou (1-1), em casa, contra o Nottingham Forest, na primeira mão dos quartos de final da Liga Europa. Os dragões entraram muito bem, mas um caricato auto-golo de Martim Fernandes devolveu a igualdade. Numa exibição com altos e baixos, os azuis e brancos desperdiçaram algumas boas oportunidades, com jogadores e público a mostrarem alguns sinais de ansiedade na fase das decisões
Parecia um passe de rotina. Reciclar a posse, dar no guarda-redes, recomeçar, o equivalente futebolístico a entrar no carro, dar às chaves, primeira, aí vamos nós.
E eis que o inesperado entra em palco. O passe sai muito tenso, excessivamente forte, na direção do pedaço de baliza sem Diogo Costa. A rotina virou surrealismo, lance para ser partilhado nas redes sociais, do arranque alegre e o 1-0 para o 1-1.
Por muito que o golo em si tenha sido penalizador, o pior nem foi o efeito no marcador que o mau atraso de Martim Fernandes produziu. Foram mesmo as consequências emocionais. Com a igualdade, o FC Porto foi, primeiro lentamente e depois sem travão, para um estado de nervos só justificável pelo desejo quase obsessivo com que o clube encara a luta por títulos esta época, proibido de falhar após tantos dissabores recentes.
Houve problemas na finalização, sim, mas há algo mais. A equipa é lider da I Liga, está nas meias-finais da Taça de Portugal, este 1-1 não é uma sentença de morte na Liga Europa. Ainda assim, o público assobiou a equipa, os jogadores terminaram sofregamente. Dá a sensação de que todos — futebolistas, treinador, público — chegam a esta fase caminhando sobre arame fino. A decisão da eliminatória vai para Inglaterra.
Vítor Pereira regressou ao Dragão, no retorno de um bicampeão pouco amado aquando da obtenção dos feitos, o líder de uma máquina de consistência — uma derrota em 60 jornadas no campeonato — que era criticado por não entusiasmar, talvez pelo peso da comparação com a aura do homem a quem sucedeu e de quem foi adjunto, hoje sentado mais acima, enquanto presidente, ladeado por Luís Montenegro. O atual treinador do Forest conseguiu a proeza de ganhar uma liga com meio plantel a pensar na saída, na ressaca de 2010/11, e outra com pouquíssimas soluções de desequilíibrio, apoiando-se numa estrutura defensiva super fiável e num meio-campo em modo metrónomo, tudo derrotando um adversário da dimensão do Benfica de JJ.
O tempo girou, Pereira deu a volta ao mundo (Alemanha, Grécia, Turquia, Brasil, China) e foi parar ao país onde sempre quis estar. Depois de salvar o Wolverhampton há um ano, foi-lhe confiada missão semelhante, agora com um plantel de nível bem superior.
Vítor Pereira regressou ao Dragão, onde foi adjunto de AVB e, como principal, logrou dois campeonatos
Octavio Passos
Como que atestando que, para ambos, a prioridade não está na Liga Europa, havia muitos pesos pesados no banco: Varela, Froholdt ou Kiwior nos da casa, além do não inscrito Pietuszewski, e Sels, Milenkovic, Neco Williams, Hudson-Odoi ou Igor Jesus nos visitantes, a somar ao castigado Elliot Anderson.
O arranque do desafio parecia empenhado em mostrar que este era um Forest diminuído, de circunstâncias, até confuso. Antes dos 15', já o FC Porto poderia ter obtido uma vantagem marcante para a eliminatória.
O relógio não andara 60 segundos quando Moffi, isolado por Fofana, não logrou bater Ortega, tal como Borja Sainz, aos 7', finalizou mal na sequência de calcanhar de Gabri Veiga. O dinamismo dos médios do FC Porto era como uma lâmina cortante para os visitantes, que olhavam para esses avanços como um ser que vai sendo esfaqueado, não o conseguindo evitar.
Na sequência deste arranque vigoroso, o 1-0 chegaria com naturalidade aos 11'. Rosario foi o centrocampista que avançou, combinando com Veiga, que cruzou para o tiro certeiro de William Gomes.
O lance que marcaria a partida — no marcador e nas emoções — chegaria aos 13'. Martim Fernandes jamais terá sonhado marcar de tão longe. Possivelmente também não terá tido pesadelos com marcar um auto-golo de tão longe, tal a peculiaridade do erro. Se houve descoordenação no passe, não houve na reação, com toda a equipa do FC Porto de mãos na cabeça. Para completar o surrealismo, o lateral lesionou-se instantes a seguir, tendo de ser substituído por Alberto Costa.
William fez o 1-0 e esteve mais vezes perto do golo
FERNANDO VELUDO
O FC Porto acusou o surrealismo, como quem vê um fenómeno paranormal e fica inerte, estático, sem respostas. Foi-se a equipa de capacidade ofensiva do começo, entrou um coletivo passivo, a ver as posses longas do Forest, sem remates à baliza durante mais de meia-hora. A somar ao adormecimento dos dragões, o público apresentava-se nervoso, quase ainda preso ao golo do Famalicão. Houve assobios quando a equipa não pressionava, assobios quando perdia bola, assobios quando, no segundo tempo, Moffi demorou a sair após ser substituído. Preso de movimentos, o atacante voltaria a falhar o golo em cima do descanso.
O recomeço trouxe William, na típica jogada da direita para o centro, a ameaçar o golo. Na resposta, o promissor James McAtee obrigou Diogo Costa a intervir.
O duelo nos bancos era, também, feito de contrastes de indumentária. Farioli todo de preto, de roupa justa ao corpo, como um guia de um museu de Florença pronto a explicar as nuances da arte da cidade no século XV, Pereira de roupa desportiva, como um simpático professor de educação física. O italiano, não muito satisfeito, promoveu uma tripla troca aos 59', entrando Froholdt, Pepê e Gül para os lugares de Veiga, Sainz e Moffi. O português, com arrelias mais preocupantes na Premier League, aceitou o empate com um sorriso.
As trocas devolveram uns azuis e brancos mais capazes de acelerar e criar perigo. Froholdt, com o seu jogo de sprints infindáveis, levou a equipa para uma zona de conforto, em que o conforto é um certo desconforto, um local de pressão e morder calcanhares e roubos de bola. No entanto, tal como na madrugada do duelo, falhou a finalização, com William a atirar para boa defesa de Ortega e o mexido dinamarquês a rematar ao lado.
O 2-1 não entrou e o final do encontro, deste encontro em que o FC Porto balançou entre a ineficácia e os nervos e a ineficácia misturada com nervos, teve como imagem de marca William Gomes agarrado à bola, encostado à direita, tentando penetrar entre uma floresta inglesa para resolver tudo sozinho. Não resultou. Seguem-se, para a equipa de Farioli, visitas a Estoril e Nottingham, as quais ajudarão a definir parte desta campanha em que há um clube tão ávido por glória que corre o risco de se confundir a si mesmo.