O maquinal FC Porto deixou um atropelamento de intensidade no Estoril
Os jogadores do FC Porto reunidos em festa após marcarem o primeiro golo contra o Estoril Praia
RODRIGO ANTUNES
No jogo que era, em teoria, o mais complicado no calendário que lhes resta cumprir no campeonato, os dragões demoraram a baixar o ponteiro do conta-rotações. Restaurado a ser uma máquina de pressão a todo o campo, o FC Porto venceu (1-3), sem espinhas, o Estoril Praia. Até quando baixou um pouco as linhas e acionou o modo gestão a equipa continuou a ser perigosa, enchendo-se do oxigénio de uma exibição cheia antes de ir a Inglaterra decidir o futuro na Liga Europa
Não mentiu Ian Cathro, descontraído no seu português com sotaque, ao gabar a “máquina de jogar à bola” no seu diagnóstico ao FC Porto, mesmo se apanhado na curva do idioma: futebol é uma coisa, jogar à bola é outra, um trata-se de assunto sério e o escocês usou a expressão lúdica, mais corriqueira, a que não casa com a maquinal associação feita pelo treinador do Estoril Praia embora se tenha percebido a ideia. Se alguém não a tivesse compreendido, a entrada dos dragões na Amoreira insistiu em clarificar o que ele quis dizer.
Jogando com alta voltagem, milhares de watts moveram os seus jogadores, cada um a ser peça mecânica na pressão feita a campo inteiro pela equipa. Nenhum segundo ou metro de espaço houve para um adversário atuar à vontade, tal a forma com que os portistas reagiam às poucas perdas de bola e forçavam os primeiros passes do Estoril a serem precipitados, feitos com pressa. Pepê e Deniz Gül esfalfavam-se a condicionar os centrais, Froholdt era hiperativo a imitá-los, coletivamente o FC Porto não deixou os anfitriões respirarem.
Por entre os cilindros, os parafusos e os encaixes desta máquina de pressão veio, então, a de jogar à bola personificada em Gabri Veiga, a pausa no meio da intensidade. O espanhol, num livre batido curto, cruzou com veneno a bola para perto do poste distante onde um desvio de Gül quase teve correspondência e, minuto depois, pediu a Zaidu que não fosse em vão a sua curta desmarcação no centro-esquerdo, entre central e o lateral Ricard Sánchez, demasiado atento só a Pietuszewski, para suavemente assistir Pepê com um passe entre os defesas e o guarda-redes, com o pé esquerdo (14’).
Sem piedade a aprisionar os vários pares de pés cheios de técnica do Estoril Praia, limitande João Carvalho ou Jordan Holsgrove a míseros toques com a bola sempre a sentir o arfar de algum jogador a pressioná-la, o FC Porto seria vítima do seu próprio ímpeto avassalador. Já Alan Varela vira um remate seu a rasar o poste quando, na sobra de um canto, Pepê cruzou de novo para Gül cabecear, a bola entrar na baliza, mas um fora de jogo do turco nascido na Suécia ser detetado pelo VAR. O tempo que demorou a anular o golo abrandou o incessante ritmo aplicado pelos dragões no jogo - durou uns 25 minutos.
Pepê com a bola do seu golo, a festejar com os adeptos portistas: desde dezembro que o brasileiro não marcava
RODRIGO ANTUNES
Muito menos durou a ressaca do golo que não foi, compensado por um que chegou a ser.
Noutro canto vindo da avalanche de chegadas à área de Joel Robles pela catrefada de roubos feitos pelos dragões na metade do campo adversária, outra vez a precisa catapulta no pé de Gabri Veiga, exímio a golpear a bola, curvou uma missiva que Froholdt atacou, na zona do primeiro poste assegurada por um bloqueio de Alberto Costa. Após a cabeçada do dinamarquês, o socorro de Xeca, na pequena área, desviou a bola para a própria baliza (32’). Foi o 19º golo da época vindo de um canto, ou no seu seguimento. Regressado de uma prolongada lesão no joelho este ano, parecia ser o português quem mais sofria com o ritmo maquinal do FC Porto.
Só já perto do intervalo o esmurrado Estoril Praia, despido do seu amarelo para estrear o azul de uma camisola especial pelo seu 86º aniversário, teve um ataque proveitoso. André Lacximicant invadiu a área com uma diagonal, Ricard correspondeu com o passe, o avançado, já perto da linha última, recebeu para trás e serviu João Carvalho para um remate rasteiro, por pouco a não beijar o poste. Antes já Gül também ameaçara, depois coube a Pietuszewski, cheio de espaço para embalar num contra-ataque, a falhar a baliza por pouco. Ambas as ocasiões com perigo incomparável ao do fabricado pelos anfitriões.
Que nem máquina, nada se alterou no ponteiro das rotações por minuto feito o intervalo.
O FC Porto não acalmou a pressão alta, manteve os seus agressivos nos duelos e divididas para a sua melhor jogada começar sem a bola, nas vezes que a recuperava perto da área contrária. Num engano do inspirado Pietuszewski, a jogar como tendo mais idade do que os 17 aninhos, fingiu um passe, arrancou rumo à baliza, serviu Gabri Veiga que passou a Froholdt, impedido de rematar por um corte de Tsoungui. Uma saída rápida minutos volvidos e Gül, desmarcado por Alberto Costa, livrou-se da marcação com uma simulação, mas falhou a baliza no pontapé.
Oskar Pietuszewski foi uma fonte de problemas para o Estoril Praia na esquerda do ataque portista
RODRIGO ANTUNES
Assumindo que estamos perante uma máquina, expectável era que eventualmente os dragões, respeitando o seu apanágio, abrandessem en petit peu. Perto da hora de jogo o Estoril Praia, com o seu losango no médios incomum de ver por estes dias no futebol, já ligava sequências de passe dentro da metade portista do relvado. Ia tentando juntar os quatro do miolo em redor da bola e lançar Yanis Beghraoui na área, mas com passes distantes, decifráveis sem monóculo de detetive. Os canarinhos quase eram obrigados a redundar as suas tentativas nas desse tipo, o FC Porto não lhes permitia mais.
O desemperramento do Estoril Praia coincidiu com o recuo das linhas dos dragões, confortáveis a defender mais próximos da área de Diogo Costa, assentes na fortaleza polaca nos seus centrais e na ajuda frequente de Alan Varela, que baixava a posição para o meio deles quando Bednarek e Kiwior tinham em simultâneo um avançado para vigiar. A máquina do FC Porto não desapareceu, foi mais como uma das modernices atuais nos motores a gasolina montados para a poupança: em caso de força motriz favorável, desligam um dos cilindros a bem da diminuição dos consumos.
Os dragões tinham combustível e mostraram-no mais em transições rápidas. Borja Sainz rematou numa delas, corrido da esquerda para o meio, com a ressaca da jogada ainda dar para Pepê atrasar um cruzamento que Froholdt, dentro da área, rematou por cima, berrando com frustração na sequência. Não o fez ao deslizar de joelhos baliza dentro, furtivo e rápido a desviar (73’) um cruzamento rasteiro de Alberto Costa, no poste longínquo, na bola reciclada de um canto. A gestão não traiu o FC Porto, embalou-o rumo ao conforto quando as pequenas fintas de Rodrigo Mora e pujança de Seko Fofana já o rejuvenesciam.
Não era ordem para relaxar, nunca o é, mas as máquinas têm cabeças que deixam entrar sugestões inadvertidas e no jogo a ajeitar-se para o modo cruzeiro houve, cinco minutos passados, um instante de descuido. Numa bola cortada e logo recuperada pelo Estoril Praia, o entrada Pizzi logo a passou a Begraoui, marroquino dos muitos golos que agiu à goleador: na área, rodou o corpo na receção e o segundo toque serviu para o remate, aproveitando o metro de espaço dado por Froholdt, um de muitos dragões afundados junto à baliza. Foi o 19º festejo do avançado no campeonato.
Joel Robles a lamentar o terceiro golo sofrido com os jogadores do FC Porto a festejarem, lá ao fundo
RODRIGO ANTUNES
Houve um período de breve reação estorilista, passes a rondarem a área e um remate bloqueado. E pronto. Por aí ficou a ligeira encrenca, breve solução na engrenagem que impeliu a máquina a dar um último ar de si, frenético com todos os cilindros a usar mais uma diagonal de Froholdt, pela direita, servido para cruzar e Borja Sainz, de cabeça, sacar uma defesa estilosa a Joel Robles. O jogo duraria pouco mais.
No que se tinha como o desafio mais complicado na agenda que lhe resta no campeonato, o FC Porto asentiu as palavras do treinador do bravo Estoril Praia, aqui feitor do seu 51º golo na prova enquanto o adversário alcançou os 59 por demonstrar ser a máquina que lhe calhou no elogio. Não mais os dragões vão defrontar uma equipa da metade de cima da classificação.
A máquina de intensidade portista encheu o seu peito de aço, ferro ou seja que matéria perfizer o seu âmago, deixando perto do mar uma exibição cheia, uma sem espinhas, das ideiais para uma equipa se alimentar de confiança. O FC Porto nem sempre é maquinal, hoje foi-o, recordado do que pode ser pelo elogio de Ian Cathro.