O norueguês inaugurou o marcador e foi quem mais agitou os ataques do Benfica frente ao Nacional
ANTÓNIO COTRIM
Regressados à Luz após o percalço em Rio Maior e o desabafo de José Mourinho, os encarnados cedo encontraram uma vantagem graças a Scheljderup e Rafa, ambos servidos Prestianni, os três melhores de uma equipa que entrou forte na partida, mas somou períodos em que jogou ao ralenti. O Benfica ganhou (2-0) ao Nacional e ainda viu Pavlidis falhar um penálti
É possível que o queixume condimentado com umbiguismo, salteado a sacudidela de água do capote sem faltar a pitada de massagem ao ego tenha sido, afinal, uma farsa. Proliferam no imaginário de José Mourinho relatos de jogadores, treinados pelo português, de como ele se predispunha nos bons velhos tempos a ser o alvo nos momentos mediáticos, fazendo figura diante dos jornalistas para captar o falatório e afastá-lo da sua equipa. Um truque do seu manual, portanto.
Se soou real, a desabafo vindo do coração, quem o treinador quis proteger nesta prática mourinhista teve pressa em mostrar não estar jogar a combustível de quezílias ou a ruminar amuos.
Ao terceiro minuto, o mexido Gianluca Prestianni, pulga irrequieta na direita, cruzou a bola com direção ao segundo poste para na Luz ser como na malfadada Rio Maior e Scheljderup ser o destino. Ao contrário do que fez no lugar que motivou a diatribe do treinador, o norueguês rematou em vez de passar. Foi golo.
Ao décimo quarto, um passe longo que satisfez a vontade do mesmo argentino com forma a mais, pô-lo a correr atrás da bola que Zé Vítor, do Nacional, parecia ter controlada, mas o relaxamento do defesa central não contou com a destreza de Prestianni, esgueirado com genica para o roubar e passar a Rafa. Foi golo outra vez.
Andreas Scheljderup inaugurou o marcador com o seu sétimo golo da época
ANTÃNIO COTRIM
Tinha o Benfica um jogo da estirpe que pretenderia, dócil e desenrolado a um ritmo simpático, dispensador de grandes intensidades. Com bola a equipa não evidenciava burilados vistosos, a sua fluência tinha bastantes vírgulas, a bola andava pelos pés de Otamendi e António Silva mais do que nos da gente responsável por molesta a baliza adversária. Sem a posse, o apetite dos encarnados era modesto, não se importavam em jejuar nem mordiam os calcanhares dos madeirenses que conseguiam, aqui e ali, prolongadas trocas de bola.
Mas quase inofensivos eram os rubronegros vindos da Choupana, incapazes de acelerarem o seu uso da bola, certeiros em alguns movimentos coletivos para soltarem um médio virado rumo à baliza, quase sempre Liziero, para meter um último passe, embora nenhum chegasse ao faminto ‘Chucho’ Ramírez, quinto melhor marcador do campeonato (14) sem serviço na Luz.
O cheiro a intervalo beneficiou o Benfica, mais agitado e acelerado com os raios de sol findarem sobre a relva. Prestianni visitou a esquerda para receber a bola de Rafa, virar-se, arrancar com uma quebra de corpo para a direita e curvar um remate que bateu no poste esquerdo. A cabeça de Vangelis Pavlidis faria outro, pouco depois. Apenas um dos jogadores constou, diz o diz-que-disse dos jornais, entre os quatro supostamente englobados pela “vontade em não querer fazer jogar mais” de Mourinho após o empate com o Casa Pia.
Os restantes três viam o jogo sentados no banco de suplentes, deduzindo pelas palavras daquele “que ganhou tudo muitas vezes” e “talvez tenha crescido de um modo onde” sente que “nunca falha ou erra”, faltar-lhes-á fome.
Rafa a abraçar Scheljderup após marcar o segundo golo do Benfica
ANTÃNIO COTRIM
Houve apetite do Benfica no regresso, com outra avidez a conduzir os ataques e velocidade no passe, caindo em cima dos madeirenses com Scheljderup, à sua maneira, a dançar em sapateado curto na área para rematar em arco. Defendeu o atento Kaique, a quem o Nacional depositou as esperanças, com razão, após uma atrapalhação na saída de bola em que o norueguês se fez ladrão, entrou no retângulo, foi rasteirado e arranjou o penálti que Pavlidis desperdiçou. Ou o guarda-redes brasileiro defendeu, no meio estará a resposta, mas foi o terceiro destes pontapés parado por Kaique no campeonato.
Um certo ralenti apoderou-se dos acontecimentos. Não tendo o conforto definitivo que seria um terceiro golo de vantagem, o Benfica acumulou passes falhados, lentidão de movimentos e uma certa pasmaceira durante uns 10 minutos nos quais o Nacional se esticou no campo. Ajudou a entrada de Filipe Soares, médio amigo da bola. O golo anulado a Ramírez por um empurrão na área pregou um susto à equipa a padecer de uma condição já antiga: com Ríos e Barreiro no meio-campo, a criatividade no passe escasseava. A calma também.
Somente quando a bola visita Scheljderup ou Prestianni perto das linhas, já que pelo centro, quando lá espreitavam, ninguém os encontrava, o Benfica conhecia polvilhos de rasgo no seu jogo ofensivo. O marasmo foi crescente até ao fim, sem Lukebakio, Ivanovic ou o recuperado Aursnes corrigissem a pobreza criativa da equipa. A melhor jogada coletivada segunda parte pertenceu ao Nacional, de toquezinho em toquezinho pelo centro, furando o bloco encarnadado até Ramírez rematar docilmente às mãos de Trubin.
Pavlidis falhou um penálti contra o Nacional, a segunda vez que tal lhe aconteceu esta temporada (o outro, frente à Juventus)
ANTÓNIO COTRIM
O resto foram laivos de indivíduos, alheios à produção grupal: Lukebakio teve um dos seus momentos contra o mundo, cruzando rasteiro para a pequena área, antes de Ivanovic, presenteado com espaço para correr, encarou o adversário, acelerou pela direita e rematou para a atenção de Kaique. O bósnio Dedic igualmente tentou uma gracinha. Mas a fome fez-se conselheira assim-assim do Benfica, vencedor do jogo sem ganhar na alegria dos adeptos, que iam timidamente assobiando, menos quando Gonçalo Moreira, rapaz formado no Seixal, entrou nos descontos para a estreia.
Se é para buscar inspiração num ditado, o que assentará à exibição do Benfica que Mourinho pretende esfomeado já que tanto lamentou a ausência de fome em alguns, será o que versa sobre não haver pão duro quando o apetite é muito. Os encarnados melhoraram a versão vista em Rio Maior, o regresso às vitórias saciou a barriga, factual é assumir que as palavras do treinador funcionaram. Houve mais urgência. O Benfica teve oportunidades para engordar o resultado. Mas os problemas da equipa permanencem à vista.