Crónicas de jogos

Num concerto de Rosalía ou num Letónia-Portugal, onde está Kika Nazareth há sempre espetáculo

Portugal chegou aos nove pontos no grupo B3
Portugal chegou aos nove pontos no grupo B3
Eurasia Sport Images

Portugal somou a terceira vitória no apuramento para o Mundial 2027. Em Riga, a equipa de Francisco Neto venceu a Letónia (3-0) com dois golos magistrais de Kika Nazareth. Também foi dia de Pauleta voltar a ser um nome presente no imaginário das seleções nacionais

Kika Nazareth rentabilizou a vinda a Portugal para participar no estágio da seleção e para ter um momento de fruição cultural. Chamada por Rosalía ao confessionário, dividiu o palco da maior sala de espetáculos do país com a espanhola, num momento do concerto próprio para a partilha de trapalhadas da vida amorosa e que serve de aquecimento para a interpretação de “La Perla”, um libelo sobre um carrasco amoroso.

Ao subir ao piso dos artistas, incendiou a internet com o chá exposto. Na sua própria arte, na qual não é uma mera participação especial, também faz furor. Quando, de livre, enroscou a bola ao cantinho da baliza, desenhou o cenário perfeito para que, numa próxima interação entre as duas, a cantora catalã lhe possa chamar “Reliquia”.

O golo da jogadora do Barcelona chamou a atenção, tanto quanto a primeira música de um concerto nos quer deixar extasiados para o vindouro alinhamento. O estratagema resultou. A Letónia era o único adversário contra o qual Portugal ainda não se tinha testado no grupo B3 de apuramento para o Mundial 2027. Porém, tal como nas vitórias contra Eslováquia (4-0) e Finlândia (2-0), a equipa de Francisco Neto usurpou o estatuto de força dominante e venceu por 3-0.

Francisco Neto foi impositivo. Assim que a guarda-redes da Letónia bateu o pontapé de baliza, o treinador gritou “bora, bora”. Ana Capeta, de orelhas a escaldar, foi lesta a pressionar Elza Strazdiņa, que, desesperada, ao aliviar a bola acertou na avançada portuguesa. O ricochete quase entrava na baliza.

Era uma atitude representativa da postura sufocante que Portugal demonstrou em Riga. Quando não tinha a bola, a seleção foi feroz na tentativa de a recuperar, o que fez do meio-campo letão, a área predominante do jogo.

Portugal estava esclarecido no último terço e capaz de executar ataques com participações numerosas. Ana Capeta resistiu à tentação de rematar e, em prol do sentimento coletivo em vigor, assistiu Tatiana Pinto para o segundo golo. Tão vasto interesse pelo processo ofensivo teve que ser compensado por outra das protagonistas da noite.

Era apenas uma criança quando começou a ser exposta à portugalidade. Usava a camisola da seleção nacional com o nome e o número de Pauleta, embora tenha nascido em Pontevedra, perto de onde Espanha se atarraxa a Portugal. A infância foi uma naturalização não burocratizada. Com o tempo, passou a dar-se pelo nome de um ídolo da diáspora mesmo que no papel se continuasse a chamar Paula Domínguez Encinas.

Não há que procurar semelhanças entre a versão feminina de Pauleta e o signatário de 47 golos pela seleção homóloga. Esta centrocampista tem os olhos mais virados para a defesa do que para o ataque, avaliação possível de ser feita através da análise à estreia a titular por Portugal.

Transpondo para a seleção aquilo que leva uma década a fazer no campeonato nacional, primeiro no SC Braga e depois no Benfica, ajudou a que só aos 45 minutos a Letónia, numa tentativa esforçada de Karlina Miksone, se tenha aproximado da baliza de Inês Pereira.

Portugal não foi tão afoito na segunda parte. Apercebendo-se da monotonia, Francisco Neto renovou a frente de ataque. Entrou Carolina Santiago, a grande revelação da temporada que, apenas com 19 anos, leva 30 golos em 12 jogos no Sporting.

Kika Nazareth também fez a sua parte para ajudar a seleção a arrebitar, por vezes, através de jogadas individuais. Num jogo que se pôs em tons mate na parte final, eis que surge aquela que está sempre pronta a brilhar. Após uma confusão de lance, pôs ordenou a situação. Ajeitou de calcanhar e, de pé esquerdo, bisou.

Numa exibição com princípio e fim, Portugal continua à espera que o assustem. Veremos se será a Eslováquia, na deslocação que se avizinha, a fazê-lo.

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