Crónicas de jogos

Entre Sporting e Arsenal, as diferenças foram ínfimas. Mas o futebol continuará quase sempre a ser um jogo pragmático

O remate de Geny Catamo que poderia ter mudado tudo: acabaria por ir ao poste
O remate de Geny Catamo que poderia ter mudado tudo: acabaria por ir ao poste
Mike Hewitt

A equipa de Rui Borges está fora da Champions, depois do nulo registado no Emirates, com o golo de Havertz na 1ª mão a definir a passagem às meias-finais da prova. Enquanto os leões tiveram pernas, até aos últimos 20 minutos de jogo, tudo pareceu possível. No final, imperou a lógica de uma competição cada vez menos dada a surpresas

Até aos 70 minutos do duelo em Londres, o Sporting mostrou que as meias-finais da Champions não eram uma quimera para uma equipa fora das big 5. O que, no momento do adeus, é fraco consolo. O tempo das vitórias morais já lá vai e os dois remates ao poste ao longo da eliminatória ecoarão longamente na cabeça dos jogadores de Rui Borges.

Era possível ultrapassar o líder da Premier League? Era. Mas o Arsenal, mesmo num dos momentos mais periclitantes da época, tem a solidez das equipas que, não sendo brilhantes, também não se deixam enganar facilmente. Se na 1ª mão o banco, o milionário banco gunner, fixou a ínfima diferença entre as duas equipas ao longo destes 120 minutos, no Emirates a intensidade a que os londrinos são obrigados semana sim, semana sim deu-lhes o pózinho de vantagem que faltava. Quando o Sporting deu por si, estava exausto. O Arsenal continuava a ter Zubimendi e Rice no coração do jogo, em alta rotação até final.

Apesar das armas diferentes, não se pode acusar os londrinos de arrogância. Com o 1-0 trazido de Alvalade, a eliminatória estava em aberto e o Arsenal entrou em campo com a humildade de quem sabia disso mesmo. A uns primeiros três ou quatro minutos algo caóticos, a equipa de Mikel Arteta procurou cedo colocar tino no jogo. Primeiro, tirando o ar ao Sporting, às tentativas de sair curto da equipa de Rui Borges, prematuramente travadas. Depois, assumindo a propriedade da bola.

Nick Potts - PA Images

Mas tudo pareceu algo efémero numa 1ª parte que seria quase sempre equilibrada, com momentos repartidos de posse e de momentum. A uma entrada superior do Arsenal, com Eze a vagabundear, fugindo da organização defensiva leonina, o Sporting respondeu com solidez defensiva (Geny a baixar para uma linha de cinco na hora de defender) e paciência para procurar as suas oportunidades.

Afunilar o jogo para a esquerda foi sempre sedutor, face aos acontecimentos da 1ª mão, mas Mosquera foi oposição mais contundente para Maxi Araujo do que Ben White, titular em Lisboa. Seria do outro lado que Trincão criaria algum alvoroço, com o remate lateral a viajar para bem longe, é certo, mas com o Sporting a tentar trilhar outras possíveis avenidas para o seu ataque.

Nos últimos 15 minutos da 1ª parte, a narrativa do jogo parecia mudar ainda mais freneticamente. Inácio seria fundamental na sua pequena área, a meter corajosamente o pé onde Gyökeres já cheirava a emenda do passe de Zubimendi e logo de seguida Pote desperdiçou, talvez pela surpresa da oferta, depois de Raya se atrapalhar com a pressão de Trincão.

Os minutos antes do intervalo seriam os mais interessantes do Sporting, bem na pressão ao adversário, nas transições e girar o jogo. Foi de um desses lances que nasceu a oportunidade mais flagrante da equipa ao longo do jogo, com Maxi a encontrar um raro espaço na esquerda para cruzar, mirando Geny ao segundo poste. O remate do moçambicano, enrolado, propositadamente enrolado para fugir a Raya, foi ingloriamente raspar no poste.

Justin Setterfield

Ao intervalo, o Sporting sabia-se ainda dentro, com futebol para continuar dentro, mas com menos tempo para se manter dentro da Champions.

Seguindo com alguma da toada do final da 1ª parte, novo carrossel leonino ofereceu mais um momento de frisson no Emirates. Maxi tirou um adversário do caminho, mas o seu pé direito tem pouco da mira do esquerdo. O Arsenal responderia pressionando a tentativa de construção desde trás do Sporting, aproveitando os erros subsequentes: Martinelli, num remate forte à entrada da área, e Madueke pouco depois, num lance talvez demasiado individual, causaram uma fina dor na espinha do Sporting, mas sem a quebrar.

O raiar dos últimos 30 minutos do jogo trouxe novo ímpeto do ataque do Sporting, quebrado, de certa maneira, pelas alterações de Rui Borges: as entradas de Quenda e Bragança para as saídas de Geny e Pote trouxeram pouco ou nada aos leões (ao contrário de Max Dowman do outro lado) e a falência física foi fazendo o resto, com o Arsenal a levar o jogo para a sua quinta, num ritmo morno, até monótono. Isto num encontro que até aí havia sido quase sempre bem vivo.

Rob Newell - CameraSport

O cabeceamento ao poste de Trossard após um canto - momento do jogo em que o Sporting esteve quase sempre bem na eliminatória, diga-se - e a passadeira estendida a Gabriel Jesus pela esquerda, sem que Diomande conseguisse acompanhar, ambos os lances já dentro dos últimos 10 minutos, foram o definitivo sinal dessa quebra. A qualidade de Zubimendi e Rice a meio-campo e o esforço de Hincapié e Mosquera nas laterais controlaram tudo o resto.

O já inesperado golo de Kai Havertz nos derradeiros momentos do jogo da 1ª mão seria, assim, decisivo. Ingloriamente decisivo para um Sporting quase sempre adulto e muito competitivo numa eliminatória que, antes de ser jogada, parecia já um limite para os leões. Os dois jogos dos quartos de final mostraram que as diferenças entre o impossível e a história são relativamente curtas. Mas, no final, o futebol é quase sempre pragmático.

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