Crónicas de jogos

O FC Porto entrou em Nottingham com o pé na frente. Foi por isso que ficou para trás

Bednarek foi expulso quando ainda nem 10 minuto se tinham jogado no Nottingham Forest-FC Porto
Bednarek foi expulso quando ainda nem 10 minuto se tinham jogado no Nottingham Forest-FC Porto
Michael Regan

Pouco se tinha jogado quando Jan Bednarek entrou de sola à frente contra o joelho de um adversário e viu o cartão vermelho direto. O FC Porto sofreu o golo que o eliminou (1-0) da Liga Europa logo a seguir e teve de jogar quase hora e meia com menos um jogador em campo. Mas, na segunda parte, com quatro sustituições de uma assentada, os dragões equilibraram a partida, rematando duas vezes à barra e esfolando-se para ainda forçarem o prolongamento

É muita pestana queimada com fatura de culpa nos mesmos jogadores com as mesmas características, guiados pelos mesmos vícios, quando duas equipas se defrontam três vezes em cinco meses. São olhos de analistas a arderem pela exposição a ecrãs, horas de vídeo vasculhadas, relatórios feitos, lances picotados e editados para que sirvam de exemplo, tertúlias tidas depois entre treinador e adjuntos para desencantarem artimanhas que valham à vontade de ir com as suas valias contra as fraquezas alheias. Um jogo já se joga com minúncia antes de ser jogado, roça a ciência forense, para depois o dito jogo começar e se verem seis cabeceamentos seguidos.

Houve feiura de início em Nottingham a prenunciar um serão rasgado em duelos, feroz na disputa da bola, aúgurio confirmado ainda o primeiro minutos não tinha finado: Thiago Silva lançou um passe longo, o embalado Alberto Costa reclamou a sobra e tocou para Moffi, que tentou picar o remate sobre o corpo do guarda-redes Stefan Ortega, à queima-roupa. O FC Porto entrava de rompante, rijo no choque, futebolisticamente a mostrar o que Francesco Farioli quis dizer com “pé na frente” antes de Jan Bednarek literalmente o cumprir.

O aguerrido polaco, com o seu cabelo sustido por brilhantina, entrou de sola em riste contra o joelho de Chris Wood, entortando a perna ao neozelandês ao tentar cortar a bola que vinha à altura da cintura. O ecrã abeirado ao relvado mostrou ao árbitro a violência da entrada e aos oito minutos, incrédulo o defesa central com a expulsão, o FC Porto ficou resumido a 10 jogadores e com um plano de jogo arremessado à irrelevância. Cinco voltas ao relógio depois, o Forest marcou por Morgan Gibbs-White, o capitão que viu o seu remate desviado no corpo de Pablo Rosario, defesa central improvisado.

Os jogadores do FC Porto e do Forest a verem o lance de Bednarek com o árbitro
Molly Darlington - UEFA

O City Ground virara a floresta de Sherwood, no folclore inglês era a densidão de verde onde Robin Hood se escondia para roubar aos ricos e dar aos pobre, na atualidade da bola transformou-se num calvário para os dragões. Tinham que penar no prejuízo, sofrer no acrescente de energia gasta, lutar a bem lutar para manterem a hipótese de discutirem a partida. Gabri Veiga recuou para ser médio ao lado de Fofana, os extremos defendiam na mesma linha e a restava Moffi ser uma ilha que combatia por captar os chutões da equipa lá para a frente.

Menos um homem no campo equivaleu aos dragões terem de resistir como podiam, empurrados contra a própria área, espremidos em 20 ou 25 metros de campo, a lidarem com os remates de Gibbs-White vindo a correr pelo centro, de Omari Hutchinson a surgir à esquerda na área, da cabeça de Nicolás Domínguez a surgir na pequena área e do central Murillo, na ressaca de um canto. Sem amainar no ímpeto, o Forest cercava a baliza de Diogo Costa, guardião chegado ao intervalo com o dobro dos contactos com a bola do que o avançado Moffi. Muitas notas ia escrevinhando Vítor Pereira, vestido com fato de treino integral, curvado sobre o seu caderninho como se atolado em aspetos a corrigir.

O descanso foi a oportunidade para o mais janota Francesco Farioli, calça, sapato e parte de cima formais, agir perante o homem a menos. Não se fez rogado, ele próprio pondo o seu pé a fundo no pedal das mudanças: entraram Victor Froholdt e Alan Varela, também Jakub Kiwior e Francisco Moura, abdicava de um extremo para ter quatro médios e refrescava o pendor à esquerda na defesa. De novo nos primeiros pontapés o FC Porto encontrou-se no desnorte alheio, ganhando um livre em cima da área do Forest após bater longa a bola de saída. William Gomes chuteria contra a barreira.

William Gomes teve um remate a bater na barra da baliza do Forest na segunda parte
PETER POWELL

Com o seu Fórmula 1 de energia no campo os dragões encheram-se de coragem, ousando pressionar alto os ingleses sabendo que a escapatória haveria de estar sempre disponível. Froholdt corria que nem um louco, esbaforido a multiplicar-se por dois e o disfarce, mesmo sem livrar a equipa de sustos - Igor Jesus, na área, rematou para Diogo Costa salvar -, dava-lhe hipóteses de fazer coisas diferentes. Com a bola, Pablo Rosario, mascarado de lateral direito, era mais um médio no posicionamento e os cinco que na prática o FC Porto tinha repercutiam-se em corridas para baralhar os adversários.

Nessas baralhações, Fofana rematou de longe antes de se desmarcar numa diagonal à esquerda, agressivo a atacar o espaço onde foi servido para tirar o cruzamento que William Gomes, no poste distante, desviou contra a barra. Quase na hora de jogo o FC Porto acertava um remate na baliza.

O jogo tinha fases em que parecia outro jogo, mais igualado nos instantes em que os dragões, fosse nas corridas frenéticas de Froholdt com a bola ou nos raides-tumbalalão de Fofana, com sua estampa a dança em fintas, logravam prolongar uma ou outra jogada adentro do bloco do Nottingham Forest, a mais no número de corpos embora várias vezes a menos no protagonismo, só ameaçando em transições rápidas. O costa-marfinense remataria de mais perto, com perigo, não tanto quanto o saído da chuteira direita de Alan Varela: o argentino esbofeteou a bola à distância para embater com estrondo na trave.

Thiago Silva ficou desolado no final da partida
PETER POWELL

Esvaziado ficava o depósito do FC Porto, esdrúxulo no descomunal esforço repatido pelos jogadores que fizeram por maltratar um adversário débil, movido pela intensidade da Premier League onde está a sofrer para lá sobreviver, que ainda teria uma bola a raspar no ferro da baliza de Diogo Costa nos descontos, rematada por Igor Jesus, sem que faça o Forest ficar com a segunda parte de um jogo inclinado pelo pé à frente, e precipitado, de Bednarek. Com menos um, o possível portista quase foi suficiente em Nottingham para ter mais meia-hora de luta pelas meias-finais da Liga Europa.

A noite acabou ao som de um estádio a gritar a Mull of Kintyre, canção dos anos 70 adotada nos 80 pelo Forest quando se fez campeao europeu e repetiu a gracinha dobrada a esquina dos 90, história dos tempos de Brian Clough a que os ingleses têm de rebobinar bastante mais a fita para recordar do que o FC Porto, que tentava repetir um cume europeu fugido desde 2011. O desalentode Thiago Silva, quarentão que tudo cortou, de Froholdt que se fartou de correr ou de William que esbarrou na barra provam a boa esperança que os portistas mantinham nesta competição.

A forma como dela saíram demonstrou o fatalismo por vezes colado aos erros individuais no futebol. No Dragão houve a bola atrasada por Martim Fernandes sem antes olhar, em Nottinham ficou o pé à frente de Jan Bednarek sem cuidado. Assim o FC Porto foi ficando para trás.

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