Crónicas de jogos

Num dérbi de emoções, o Benfica deu ao Sporting novas lutas com que se preocupar

Já nos descontos, Rafa fez o 2-1 para o Benfica em Alvalade
Já nos descontos, Rafa fez o 2-1 para o Benfica em Alvalade
FILIPE AMORIM

Quando o empate já parecia consumado, um último lance de raro brilho deu ao Benfica a vitória em Alvalade por 2-1, afastando o Sporting na luta pelo título e deixando a equipa de Rui Borges com uma nova batalha em mãos: a de proteger a vice-liderança, perdida agora para os encarnados

Até aos derradeiros momentos do jogo, o Sporting-Benfica soou a jogo que ninguém ia ganhar e em que, por isso, toda a gente ia perder. Um último esforço coletivo encarnado já nos descontos, pelo corredor central, num lance rápido mas sem oposição, mudaria a narrativa que já se tricotava, num dérbi ao qual não faltou a emoção das equipas à beira de um ataque de nervos.

A vitória por 2-1 em casa do rival significa que o Benfica ainda respira o ar do 2º lugar, que agora é seu, ainda que à condição. Para o Sporting, se o empate já era uma machadada forte nas esperanças do título, a derrota tornou-se um berbicacho ainda maior: não só o tricampeonato parece agora mais longe como, de supetão, a vice-liderança torna-se numa inesperada luta. A reta final do campeonato não será para cardíacos.

José Mourinho inovou ao chamar Ivanovic à titularidade. Terá pesado a quebra de forma de Pavlidis, mas surpreenderá tamanha mostra de confiança num jogador que nunca a teve por parte do técnico português. Do outro lado, e por falar em confiança, é Vagiannidis que a vai perdendo. Sem Fresneda, Rui Borges voltou a escolher Eduardo Quaresma para o lado direito da defesa, tal como em Londres a meio da semana.

Surpresas não teve o início do jogo, numa abordagem de muita pressão por parte das duas equipas, a provocar erros mútuos. A vantagem numérica a meio-campo do Benfica, com Aursnes, Ríos e Barreiro para limitar Morita e Hjulmand, não resultava em superioridade real: Diomande ia assumindo a dupla função, em cima de Barreiro para equilibrar as dinâmicas do jogo.

Ainda assim, o jogo não estava amarrado, bem pelo contrário. Estava confuso, sim, mas vivo. Do lado do Sporting, Geny Catamo ia ameaçando nova exibição cintilante, algo que não desdenha contra o Benfica. Nos primeiros minutos foi daquele lado direito que foram saindo alguns dos momentos de maior perigo. Aos 5’, num trabalho individual depois de uma bola que o Sporting ganhou ainda em zonas altas, o moçambicano quase enganava Trubin, obrigado o ucraniano a defesa pouco ortodoxa, só com uma mão, depois do remate do extremo ainda desviar num adversário. A trajetória estranha levaria a bola até à barra. No canto, novo duelo entre Geny e Trubin, com vantagem outra vez para o guarda-redes, atento ao remate de meia-distância.

Do outro lado, seria a cabeça de Otamendi a provocar calafrios na baliza do Sporting, bem guardada por Rui Silva. Findos os primeiros 10 minutos, os leões pareciam querer crescer. Quando Aursnes pisou Trincão na área, essa pequena superioridade ameaçava tornar-se em vantagem.

Seguiu-se então um daqueles momentos altamente karmáticos, que o Sporting até conhece bem. Não foi um Bojinov vs. Matias Fernández, é certo, mas as câmaras captaram gulosamente o desconforto de Pote quando percebeu que Suárez se havia apoderado da bola para marcar o penálti. O colombiano, pressionado pelo momento, pelas leis indeléveis daquilo que não se consegue explicar - mas que tem um peso verdadeiro -, rematou frouxo para o lado esquerdo de Trubin.

Não falharia do mesmo ponto a 11 metros da baliza Schjelderup, poucos minutos depois, como se a sina do Sporting tivesse um cruel epílogo. Com o Benfica em vantagem, o jogo mudou porque em vantagem José Mourinho encurtou o espaço entre as bem definidas duas primeiras linhas, recuadas tanto quanto possível. O Sporting, perante a história do jogo, deixou-se domar pelos nervos: a sua dinâmica de ataque, tantas vezes rica em soluções, pareceu perdida face a muros tão juntinhos.

Pote era um aparente oásis entre tantas dificuldades, tal a fineza da sua técnica. Encontrou espaço, sabe-se lá como, entre o mar de pernas encarnadas já nos primeiro minutos da 2ª parte, rematando de pé direito ao poste. Do lado de lá, a Schjelderup era dada demasiada liberdade, com o norueguês a criar perigo aos 52’, quando uma péssima receção de Ivanovic se transformou, lavoisieramente, numa excelente assistência. O remate foi bem travado por Rui Silva.

A necessitar de fazer algo para não perder o jogo, Rui Borges lançou Debast e Vagiannidis, depois tirou Pote, a apresentar alguns sinais de desgaste mas, ainda assim, o mais perigoso do Sporting. A aposta em Debast e nos seus pés surtiria efeito: foi do belga que partiu o cruzamento perfeito que surpreendeu as costas da demasiado alinhada defesa do Benfica, com a entrada levitante de Morita, em cima de Dedic, a dar o empate ao Sporting.

Seria então a vez de Mourinho, até então confortável, mexer, renovando toda a frente de ataque com a entrada de Pavlidis, Rafa e Lukebakio. António Silva iria também no pack, para substituir o lesionado Tomás Araújo. Numa fase crítica de um jogo que ninguém se podia dar ao luxo de perder - mas que também tinham de ganhar -, o Benfica embalou aqui para novo ímpeto. Barreiro ainda estará a questionar-se como desperdiçou, aos 82’, a trivela perfeita que Lukebakio lhe ofereceu e que encontrou o luxemburguês esquecido na esquerda.

Mas foi precisamente nesse espaço que Barreiro seria essencial para a vitória do Benfica.

Já depois de novo período de maior preponderância do Sporting, num jogo nunca controlado por qualquer uma das equipas e sempre de grande emoção - o que tem sido raro em clássicos e dérbis -, um grande momento do corredor central do Benfica, numa sequência de passes entre Aursnes, Richard Ríos e Barreiro, deixou Rafa isolado perante Rui Silva. Mesmo pressionado, o antigo internacional português conseguiu rematar, já em queda, definindo ali mesmo o resultado do encontro e uma mudança na tabela. O Benfica é agora 2º na I Liga, ainda que com mais um jogo que os leões, que só acertam calendário no dia 29, frente ao Tondela. E agora bem mais pressionados.

Em tempos, Rui Borges afirmou que não seriam os jogos grandes, onde o seu score vai sofrendo, a definir o campeonato. O Sporting terminará esta liga sem ganhar qualquer jogo a FC Porto, Benfica e SC Braga. Talvez queria rever a sua posição.

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