O Sporting visitou um condenado e deixou de ter o destino nas suas mãos
O cansaço generalizado após o empate
Diogo Cardoso
Os leões empataram (1-1) na deslocação ao terreno do já despromovido AFS, equipa apenas com uma vitória no campeonato. Rui Borges fez muitas alterações no onze, mas a escorregadela significa que os verde e brancos já não dependem só de si para o segundo lugar
Esperança no tricampeão, na Liga dos Campeões e na Taça. Adeus Liga dos Campeões, foco no campeonato e na Taça. Adeus campeonato, foco na Taça, mas com alguma descrença, que a vaga de lesões e de resultados negativos não convidava ao otimismo.
Vivo na Taça. Jamor ao virar da esquina. É só cumprir no campeonato, assegurar o segundo, defrontar uma equipa da II Liga para erguer um título.
Simples? Não.
Os últimos resultados do Sporting parecem abrir ou fechar portas, levar a caminhos cheios de curvas e contracurvas na época. Contas feitas: sim, está no Jamor. Não, ficar em segundo não será assim tão fácil.
Contra a pior equipa do campeonato, contra uma das piores equipas da história recente do campeonato, o Sporting não logrou ganhar. 1-1 diante do AFS, lanterna-vermelha de descida de divisão já confirmada. O Benfica com mais três pontos que os leões, que acertarão calendário a meio da semana diante do Tondela. Mas a vantagem no confronto direto é encarnada, pelo que os bicampeões já não dependem só de si para estar na próxima edição da Liga dos Campeões.
Foi mais um episódio das semanas zombie do Sporting, que acaba a época vazio de energia, escasso de lucidez mental, algures entre a falta de sorte e de acerto.
O AFS conseguiu subir à I Liga, estar na I Liga e descer da I Liga sem que a doutrina se colocasse de acordo quanto a como chamar esta entidade desportiva. Na presente edição do campeonato, a equipa vai em mais treinadores (três) do que vitórias somadas (uma), caminhando, com 14 pontos à falta de três encontros, para uma das piores prestações da história da prova. Ainda assim, aos 90+6', Perea acertou no poste, o que levaria a que houvesse igualdade entre a quantidade de triunfos no campeonato e o número de técnicos interinos ao longo da época. Seria o culminar das semanas zombie do Sporting.
Pedro Lima aponta o 1-1
MANUEL FERNANDO ARAUJO
O paradoxal é que a noite chegou a ter aroma a pré-pré-época, dada a escassez de emoção relevante, o AFS/AVS/conjunto da Vila das Aves/escolha-se o que se preferir estacionado diante da sua baliza, o Sporting procurando contornar o obstáculo. Tudo cambiaria perto do final, com agressividade, até conflituosidade, a ideia de que havia coisas em jogo.
Durante o primeiro tempo, a permanência dos leões perto da baliza adversária foi um regalo para a vista, já que permitia ver, lá ao fundo, as cores de um pôr do sol digno de delicada tela, com um leque de cores que, francamente, foi do mais interessante da etapa inicial. Na primeira parte houve algumas saídas velozes dos da casa, várias delas concluídas em finalizações que ainda assustaram Rui Silva. Pedro Lima, médio canhoto que chegou a debutar com Abel Ferreira no Palmeiras, assumiu-se como o farol da equipa, prometendo não seguir o destino descendente. Seria ele o autor do 1-1 por parte de um coletivo que conseguiu ir-se esticando.
Com o Sporting com muitas caras novas no onze (Vagiannidis, Mangas, Kochorashvili, Nel), a fluidez nem sempre foi a melhor. Até ao descanso, Pote viu Adriel Ramos negar-lhe o golo. Trincão, de braçadeira de capitão, também ameaçou. Rafael Nel protestou um penálti e chamou ao árbitro "juiz", um léxico particularmente respeituoso para a ocasião, como quem vai reclamar no trânsito, mas diz "senhor automobilista". Não aconteceu muito mais na metade inicial.
O segundo tempo trouxe um golo a abrir. Ao segundo minuto, Vagiannidis — grego sempre com cara aluada, de quem está a pensar em qualquer coisa de muito distante — ganhou a linha final, colocando a bola em zona mortal. Devenish desviou para a própria baliza, Rafael Nel confirmou o golo.
Rafael Nel confirmou o 1-0
MANUEL FERNANDO ARAÃJO
Pedro Gonçalves continua a viver uma crise de rendimento. Parece lento, até mais tosco, em conflito consigo próprio. Teve um instante do velho Pote, um remate delicado, de primeira, em que a bola pareceu colocada com a mão, viajando para o ângulo. Esbarrou na barra e o transmontano protestou com a falta de fortuna.
Um pouco como em Alvalade, para a Taça, o AFS assemelhou-se a um condenado que, tendo a forca como destino, desfruta da última bebida que lhe é dada, um derradeiro sopro de vida. Aos 66', depois de intervenção do VAR, Pedro Lima foi para a marca de penálti e não falhou.
Foi aqui que o Sporting, diante do condenado, deixou, também, o seu destino escapar-lhe. Não teve calma ou serenidade, foi como um animal que vive no oceano, mas nada mal, indo ao sabor das ondas, sem controlo do que fará.
Os leões poderiam ter vencido. Geny Catamo acertou no poste, Morita acertou nas nuvens, Maxi e Suárez viram Adriel juntar-se a Pedro Lima no lote de futebolistas que não devem seguir o caminho do AFS.
Os leões poderiam ter perdido. Nenê, a três meses de cumprir 43 anos, entrou para servir a velocidade de Perea. O remate foi ao poste, a surpresa não foi tão escandalosa. O zombie passa a ter de fazer contas ao que o vizinho fará até à conclusão do campeonato.