Um Sporting em pós-época volta a tropeçar em si mesmo
As tarjas "Intolerável" e "exigimos mais" despedem os jogadores do Sporting do relvado
Soccrates Images
Sem rasgo, sem inspiração, sem vitórias. Pelo quinto encontro seguidos, os leões não ganharam, desta vez com drama: estiveram na frente até aos descontos, mas golos aos 90+2' e 90+4' fizeram o 2-2 diante do Tondela. À falta de três jornadas, o Benfica está à distância de dois pontos
Cinco jogos seguidos sem ganhar. Quedas consecutivamente, primeiro da Liga dos Campeões, depois do título, agora até o segundo lugar se vai afastando. Empate contra o último e, três dias depois, empate contra o penúltimo. O que se segue?
Bem, depois desta fase em que todos os fantasmas do sportinguismo se juntaram para bailar diante do que resta desta equipa, aí vem a cerimónia oficial de renovação de Rui Borges. Na manhã de sexta-feira, na sequência de dois empates em menos de uma semana perante adversários que, somados, ganharam três jogos de futebol em 2026, dar-se-á o prolongamento do técnico transmontano. Subitamente, o que tinha contornos de acontecimento burocrático ganhou primeiro destaque mediático, mais que não seja para ver as caras, as expressões, o voto de confiança entre a desconfiança.
Sporting: capaz de quase perder com o AFS, equipa que tem mais treinadores (três) que vitórias (uma) na I Liga 2025/26. Sporting: capaz de receber o Tondela, que com Gonçalo Feio como treinador somava tantas ameaças de pancadaria a adeptos como pontos — um para cada —, estar a ganhar ao minuto 90, ver o seu guarda-redes defender um penálti aos 90+2' e, mesmo assim não levar os três pontos.
Numa noite de terror leonino, de bruxas, de críticas, de assobios, de pouco público, numa fria noite de quase maio, os bicampeões nacionais que em breve deixarão de o ser empataram (2-2) com o Tondela. No acerto de contas do calendário, o Benfica sorriu, ficando dois pontos à frente do adversário da capital, mais a vantagem no confronto direto. O Sporting afundou-se ainda mais emocionalmente, escorregando no seu próprio vazio. Vazio de forças, de ideias, de vontade.
O Sporting entrou com vontade de mostrar o que é. Parte boa: honestidade. Parte má: o Sporting atual é uma espécie de equipa zombie.
Eis o fenómeno do coletivo em pós-época. Quase parecendo ter a época terminada, fechada, sem estímulos, abalada pelo que correu mal (luta pelo campeonato), sem foco no que aí vem (final da Taça), com um conjunto de futebolistas remendados física e mentalmente, como um corpo expedicionário a retornar da guerra.
A desilusão do Sporting após o final
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Os leões não queriam estar aqui. Pretendiam jogar hoje, sim, mas começando 15 minutos antes, na meia-final da Liga dos Campeões. Caso disputassem, efetivamente, a atrasada 26.ª ronda da I Liga neste horário, pretendiam que o acerto de calendário desse para colocar o bafo em cima do FC Porto. Nem uma coisa nem outra: obrigado a vencer para igualar o Benfica. Da perspetiva de estar à beira da final da Champions ou de discutir o tricampeonato para nem sequer tem o segundo lugar nas próprias mãos.
Lento, escasso de ideias, o Sporting começou com ataques desconexos e, à medida que o relógio foi avançando, deixou que o vírus da letargia se espalhasse pelo relvado. Bernardo Fontes, o cobiçado guardião do Tondela, ainda evitou golos de Suárez e Maxi, mas o panorama geral era de um Tondela relativamente confortável.
Os beirões, aflitos, chegaram à capital depois de apenas um ponto em quatro jornadas com o seu novo treinador. Gonçalo Feio, tanto notícia por conflitos paralelos ao futebol como pelo que faz nos bancos, apresentou-se em Alvalade todo de preto, sapatos, calças, camisa, t-shirt por debaixo da camisa, cabelo. Não obstante a indumentária, o ponto levado de Alvalade atrasa o funeral do Tondela, clube habituado a salvações no limite. Domingo há uma final com o Casa Pia.
Em cima do intervalo, a banda sonora do estádio cambiou. O descontentamento popular foi um clássico dos primeiros 15 anos do novo estádio do Sporting, os assobios uma nuance repetida, os barulhos de fundo de protesto um companheiro fiel da bola. Esse sinais regressaram, acompanhados de mensagens escritas atrás da baliza norte: "Intolerável"; "Exigimos mais".
A exibição do Sporting foi de pouca inspiração
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O recomeço repetiu algumas notas da etapa inicial. A insatisfação dos adeptos, a ansiedade crescente do Sporting, um Tondela a chegar pouco perto de Rui Silva.
O que mudou foi a urgência ofensiva que os locais foram adquirindo. O crescimento do caudal atacante acentuou-se com as entradas de Trincão, suplente no campeonato apenas pela segunda vez na era Rui Borges, e de Salvador Blopa, uma locomotiva na direita para compensar a apatia de Vagiannidis.
Pote viu Bernardo travar-lhe o golo com uma grande defesa, Geny confirmou o seu mau momento com um falhanço da estirpe Bryan Ruiz. Fiel às ameaças, o 1-0 chegaria mesmo aos 62'. Blopa cruzou e Luis Suárez saiu do pós-época para voltar à temporada, antecipando-se como um Suárez em época e marcando o seu primeiro golo desde 22 de março.
Foi o único momento de algum acerto local no desafio. Com Trincão como dínamo no último terço, Geny Catamo teve o 2-0 nos pés aos 78'. Rematou torto, mas a falta de pontaria do moçambicano encontrou a falta de pontaria de João Silva e fez-se o dobrar da vantagem.
O jogo parecia decidido. O Tondela, que apontara dois golos nos últimos 630 minutos que disputara, precisava de dois golos. O primeiro poderia ter chegado aos 90+2', quando o Sporting, já desligado de qualquer seriedade competitiva, levou os visitantes para o castigo máximo. Aiko viu Rui Silva negar-lhe o festejo.
A verdade é que a apetência para tropeçar no próprio andar dormente era inevitável. Na sequência do canto, Blopa marcou um auto-golo. 2-1 e alguns segundos pela frente. Era o suficiente para um conjunto a lutar pela sobrevivência sentir a oportunidade e ferir quem está em pós-época, nem ativo nem de férias, um limbo. O Sporting no limbo. 2-2.
Faltam menos de 40 horas para a renovação de contrato de Rui Borges.