Crónicas de jogos

Bem dizia a estrelinha do campeão: o FC Porto voltou a ter uma equipa

Jan Bednarek festeja com o assistente de serviço
Jan Bednarek festeja com o assistente de serviço
Diogo Cardoso

A identidade vincada da equipa de Francesco Farioli levou o FC Porto a sagrar-se campeão nacional pela 31ª vez. O título ficou confirmado, a duas jornadas do final, com a vitória (1-0) frente ao Alverca. Perante a iminência de segurarem o 1º lugar, os dragões concluíram a missão, demonstrando aquela atitude que deixou Jorge Costa rendido

Nem todos obtêm uma impressão digital bem definida quando besuntam o dedo em tinta e o chapinham numa folha branca. A clareza dos traços que nos distinguem depende da veemência com que o papel é pressionado e da convicção com que aceitamos o que somos, como se aquele código de riscos bastasse para contar uma história. O FC Porto, o campeão de 2025/26, é uma lição de autoconhecimento.

Criar uma identidade é uma jornada demorada. O processo começa na infância e vai até à vida adulta. Por vezes, nem chega a ser concluído. Uma época não é nada nessa lenta construção, mas foi o tempo que Farioli precisou para fabricar uma equipa com personalidade forte.

A forma de ser do FC Porto é a dopamina dos adeptos de todos os clubes. Na raiz, o futebol dos dragões não usa palavras caras e é por isso que se consegue explicar perante um número tão vasto de pessoas. Qualquer bancada é convencida pela tenacidade e é indiferente para que zona do relvado se olha, pois vai existir sempre um jogador a sobrecarregar a quilometragem em prol do que mais interessa ao público: o símbolo.

Será isto jogar à FC Porto, esse autocolante de significado incógnito? Antes de partir, Jorge Costa disse: “Voltámos a ter uma equipa.” Por isso, o Bicho devia acreditar que sim.

Victor Froholdt, o jogador que marca identidade do FC Porto, a fazer o que melhor faz: pressionar
FERNANDO VELUDO

Aparentemente, as contas do título andaram de boca em boca ao ponto de todo o Estádio do Dragão saber que o FC Porto podia ser campeão se empatasse com o Alverca. Algumas pessoas, precavidas para o logro, entraram com cachecóis de campeão.

A iminência da conquista do 31º campeonato da história do clube fazia antever uma entrada mais fulminante. A primeira oportunidade foi um acidente. Gabri Veiga procurava cruzar, mas fez a bola raspar no poste. Dos pés do espanhol, maestro dos esquemas táticos, saiu nova cobrança. Victor Froholdt rematou à barra. Na insistência, Kiwior até marcou, mas o uso da mão anulou o lance.

Ao longo do campeonato, a equipa técnica de Farioli engendrou 13 golos de canto, tantas vezes fórmula resolvente de muitos problemas. O dado já inclui aquele que foi obtido frente ao Alverca. Jan Bednarek elevou-se e bateu o guarda-redes Matheus Mendes. Desta vez, Gabri Veiga não se pode queixar dos colegas não terem aceitado a sua sugestão.

Foi uma boa maneira de encobrir o que o arrebitado Alverca estava a conseguir fazer. Partindo da coordenação defensiva e acertadas passagens de marcação, os jogadores de Custódio souberam orientar-se com bola. Figueiredo, da esquerda para o meio, e Chiquinho, em velocidade, queriam arruinar a festa. Os cabeceamentos de Sandro Lima e Nabil Touaizi representaram bem as aproximações conseguidas.

Oskar Pietuszewski ultrapassa Rhaldney
FERNANDO VELUDO

Farioli ia acautelando sobressaltos, substituindo o amarelado Kiwior que se tinha atrapalhado no controlo a Chiquinho. Por sua vez, o pensamento dos jogadores dedicava-se à escolha de uma boa playlist, da melhor combinação de bebidas, dos melhores adereços para usar na festa. Mentalmente, os dragões já estavam na farra. Lapsos como o passe errado de Martim Fernandes para a zona central eram o reflexo.

Sandro Lima intranquilizava a defesa portista com tentativas de nível médio-baixo. Mais severo foi o perigo que Figueiredo causou. Em diagonal, convidou Diogo Costa a não passar despercebido.

O jogo tornou-se um detalhe perante as celebrações envolvente, dentro e fora do estádio. Quando Alberto Costa contornou Meupiyou e cruzou para Borja Sainz, ainda se chegou a pensar que o resultado cavalgaria um pouco mais. Alargar a vantagem não foi uma necessidade premente para coroar um percurso de domínio e regularidade.

O FC Porto estabeleceu o recorde de pontos (49) na primeira volta do campeonato. Até à jornada 17, tinha apenas deslizado contra o Benfica, num empate (0-0) em casa. Na segunda metade da liga, houve mais percalços, nomeadamente a única derrota registada até ao momento, frente ao Casa Pia (2-1). Mesmo assim, permanece viva para os últimos dois jogos a hipótese dos azuis e brancos atingirem os 91 pontos, patamar onde se encontra o recorde estabelecido pelo FC Porto de Sérgio Conceição, em 2021/22, na última vez que o título tinha rumado ao norte.

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