Frente ao Vitória, o Sporting provou que ainda há magia nos corpos cansados
Jogadores do Sporting festejam o regresso a uma vitória convincente
JOSE SENA GOULAO
Depois de três jogos sem ganhar e dois empates comprometedores contra AVS e Tondela, o Sporting do jogo com o Vitória voltou a ser aquele Sporting que, durante alguns momentos da temporada, conseguiu juntar a arte aos resultados. O autogolo final do 5-1 seria, no entanto, o recordar de que este final de época tem um sabor agridoce para os leões
Quando as coisas correm mal, parece que a chuva não é simplesmente miudinha: é um aguaceiro forte que leva tudo à frente. Frente ao AVS e ao Tondela, dois empates que poderão custar uns quantos milhões de euros ao Sporting, a equipa de Rui Borges não dava ares de estar simplesmente cansada: era como se tivesse, de repente, desaprendido a jogar junta.
É claro que ninguém “desaprende a jogar”, muito menos quando faltam dois jogos para o final do campeonato. As rotinas, os lances trabalhados, nada disso foge simplesmente das sinapses, o talento não desanda da memória, embora o corpo peça descanso, descanso urgente depois de uma época que será de alguns ensinamentos para os cartolas leoninos: estar bem, em todas as frentes, como o Sporting chegou a estar esta temporada, pressupõe ser ambicioso também nas frentes que não se veem em campo.
Por estes dias, também é certo, e apesar do que aconteceu nas últimas semanas, o Sporting é uma equipa mais capacitada do que em outros tempos. Frente ao Vitória, alguns recordes pouco simpáticos desses outros tempos estavam em risco de serem igualados: uma terceira partida sem ganhar em casa? Só em 2011, com Paulo Sérgio. Quatro jornadas sem ganhar? A última vez foi com Franky Vercauteren, em 2013. E perante tal encontro inesperado com estatísticas pouco simpáticas, veio ao de cima a magia que há nos jogadores do Sporting, a conseguir sair, corajosamente, pelos poros dos músculos massacrados.
JOSÃ SENA GOULÃO
A vitória por 5-1 frente ao Vitória não é um statement porque o Sporting já não está em altura deles: a situação continua a ser frustrante, entrem os golos que entrarem, porque nas duas últimas jornadas entraram alguns na baliza dos leões que mudaram, quiçá irremediavelmente, a história da I Liga. De candidato ao título, o Sporting depende agora de outros para chegar à Liga dos Campeões. Ainda assim, Alvalade terá respirado de alívio perante a certeza que, sim, o Sporting ainda mantém dentro de si a capacidade de jogar futebol.
Mas ter-se-á assustado nos primeiros minutos, que foram de Vitória instalado no meio-campo leonino. Diogo Sousa obrigou, bem cedo, Rui Silva à primeira defesa da noite e só o golo do Sporting, logo aos 9’, num livre estudado que acabou com golo de Gonçalo Inácio, terminaria com as veleidades vitorianas.
Daí para a frente, surgiu o Sporting que, aqui e ali ao longo da época, soube colocar um pouco de arte nos resultados: aos 24’, numa jogada extraordinária no corredor central, Trincão, Suárez e Morita recrearam-se ao primeiro toque, antes da bola chegar a Daniel Bragança que, isolado, terminou o rendilhado com um remate suave, suficiente para dar uma chapelada de classe a Charles. Bragança que, pouco depois, faria mais filigrana futebolística ao tirar dois adversários do caminho antes do guarda-redes do Vitória ser herói. No final do jogo, ainda andava a distribuir passes aos colegas, como que dono de olhos na nuca e de uma balança de precisão nas botas.
Carlos Rodrigues
O Sporting ia, pelo meio dos apontamentos artísticos, falhando oportunidades, mas o fantasma de Tondela ficaria um pouco mais distante quando Maxi, antes do intervalo, recebeu o passe longo de Debast, fino que nem drone, e sentou Óscar Rivas antes de fazer o 3-0.
Com o Vitória embalado para a frente na 2ª parte, como que sentindo a injustiça de um resultado que já se punha gordo - os vimaranenses não foram simplesmente passivos e tiveram as suas oportunidades -, o Sporting recuou, sabendo que haveria espaços para aproveitar. Já depois de Gonçalo Nogueira ter desperdiçado em frente a Rui Silva, Luis Suárez foi o ponto de chegada de mais uma jogada no corredor central, iniciada por Inácio e que ainda passou por Pote, que ofereceu o 26º golo no campeonato ao colombiano. E seria de Suárez o passe para lançar Luís Guilherme, que fez o 5-0 quando ainda havia 15 minutos para jogar.
Até final, ainda houve um pouco deste Sporting de final de época, com um autogolo algo insólito de Debast, quando os leões tentavam uma saída curta. Não manchou a vitória clara, mas deu um gostinho amargo a um panorama que poderá terminar assim mesmo no final do campeonato.