Crónicas de jogos

O Arsenal não precisa de risco. Já tem o pré-programado que o devolveu à final da Champions

Mikel Arteta a correr na direção dos adeptos do Arsenal, de mãos dadas com os jogadores, após a vitória contra o Atlético de Madrid, em Londres
Mikel Arteta a correr na direção dos adeptos do Arsenal, de mãos dadas com os jogadores, após a vitória contra o Atlético de Madrid, em Londres
Catherine Ivill - AMA

A equipa que antes era das ideias de Thierry Henry e Dennis Bergkamp e hoje assenta no molde de Mikel Arteta ganhou, por um só golo, ao Atlético de Madrid, confirmando o regresso ao maior jogo europeu de clubes. Vinte anos após a final da Liga dos Campeões que perdeu em Paris, o Arsenal, este também de Gyökeres, que se fartou de ganhar faltas, vai jogar em Budapeste contra o PSG ou o Bayern

Que nem bibelô, mora aqui no ambiente de trabalho do computador, guardado há anos, um excerto da bendita hora em que Dennis Bergkamp se predispôs a consentir uma espreitadela à sua cabeça quando jogava, no seu auge, no Arsenal. O tipo pacato de trato, aerofóbico de receios e de setim nos pés contou na sua autobiografia como exigia aos companheiros, porque exigentíssimo consigo próprio, que da bola fizessem uma bala nos treinos, nos jogos, onde fosse, disse ele: “Não me dêem passes frouxos e desleixados, dêem-me bolas rápidas, tensas, porque eu consigo lidar com qualquer coisa e jogar rápido é jogar melhor.”

Quem viu jogar Bergkamp quando ainda se podia chamar holandês a um neerlandês entenderá que a confissão não é lábia, muito menos fanfarronice. A bola enternecia nos seus pés viesse difícil, pela relva, no ar ou aos saltos, de formas como pouco se vêem hoje neste Arsenal montado à regra e esquadro, cheio de movimentos-padrão e trocas de posição laboratoriais para a equipa sair a jogar da sua área de passe em passe, do tipo que Bergkamp gostava: rasteiros, fortes e rápidos, com força para o pé.

O carrossel de jogadas pré-programas pelo treinador, Mikel Arteta, funcionou para a equipa cruzar a linha do meio-campo e desmontar a pressão do combativo Atlético, cheio de gregários em campo como obriga o projeto de autor de Diego Simeone, oleado há quase 15 anos e onde todos têm de correr, todos têm de ficar com os bofes do esforço de fora, todos têm de defender como se a vida disso dependesse. E todos defenderam na primeira parte. Até o avançado Antoine Griezmann descia à área para perseguir Viktor Gyökeres e mostrar a fibra que perfaz os colchoneros.

Em vários momentos foram empurrados lá para trás pelo Arsenal, é verdade, mas, mouros de trabalho, os espanhóis fechavam caminhos quando tinham de se organizar perto da baliza, férreos a correrem uns pelos outros, juntos, por vezes, em duas linhas de cinco jogadores, sem que os ingleses mostrassem ideias para os desmontar nas zonas até onde o seu lado robótico os levava. Depois, faltavam os passes que caíam bem a Dennis Bergkamp, feitos com risco. Ou um golpe de asa dado por um jogador que fugisse ao molde de controlo.

Bukayo Saka a festejar o seu golo, com o desalentado Jan Oblak sentado na relva
Shaun Botterill

Não os houve no remate à distância de Riccardo Calafiori, o suposto lateral esquerdo que, ao atacar, pede a bola em posições de médio, ou no de Gabriel Magalhães, defesa central que muito tocava na bola bem dentro da metade do campo adversária. Nem no golo marcado por Bukayo Saka mesmo antes do intervalo, audaz a atacar a zona de Jan Oblak para fazer a recarga após uma defesa vistosa do guarda-redes polaco ao remate de Leandro Trossard: aconteceu na ressaca de um cruzamento torto de Gyökeres e após uma desmarcação do sueco área dentro, no espaço vago, como nos tempos do Sporting - muito o Arsenal explorou essa antiga vida do sueco. E do pequeno caos surgiu a recompensa.

O Atlético tinha ameaçado tão-só uma vez quando os seus dois mais talentosos, ao reciclarem um livre batido de forma curta, se uniram: Julián Alvarez lançou Antoine Griezmann na área e o cruzamento da lenda do clube encontrou Giuliano Simeone, filho do treinador, mas o guardião David Raya bloqueou a intenção. De resto, os espanhóis correram, cheios de atletas mas não atléticos na mesma medida do Arsenal, um conjunto de portentos físicos que tinham escrito na cara irem resguardar-se um pouco no 1-0.

A forçado acometimento do Atlético mal a segunda parte arrancou quase castigou essa postura quando o capitão Koke, sem a rotação de outros tempos embora intacta a mira do seu passe, lançou uma bola longa que Saliba tentou, de cabeça, atrasar para o guarda-redes, mas foi captada por Simeone. O argentino fintou David Raya, ficou com a baliza despida à frente, só um corte matreiro de Gabriel Magalhães salvou o Arsenal. Colado à linha lateral, Arteta urgia os seus jogadores a pressionarem alto, a serem chatos como tinham sido.

Serviu de aviso. Despertaram os ingleses após um primeiro quarto de hora mandrião na segunda parte, repleto de passes dos que furibundiariam Bergkamp, para restabelecerem a sua mão no jogo. Declan Rice assumiu contra-ataques sozinho, galopando com a bola. Saliba e Magalhães atinaram na defesa da área. Trossard era o extremo de dribles, toques espertos, mas cheio de trabalho para ajudar os outros. Quando Eberechi Eze, o potencialmente mais criativo para deambular no ataque, murchou de vez, entrou Martin Ødegaard, criativo norueguês domesticado por Arteta para controlar o jogo com passes banais mais do que o agitar com ideias.

Os jogadores do Atlético, com Antoine Griezmann e Julián Alvarez entre eles, após o golo sofrido contra o Arsenal na 2ª mão das meias-finais da Champions
James Gill - Danehouse

Também foi a jogo Piero Hincapié, cujo pé tirou um cruzamento forte e tenso que Gyökeres desperdiçou, não acertando com a bola na baliza. Foi uma ocasião à Arsenal: o lateral avançou por zonas interiores, arrastou a marcação, Trossard fez o contrário, alargou a sua posição, recebeu a bola e desmarcou o equatoriano que já corria no espaço vago por não estar lá o extremo belga. Um desenho trazido de casa, pré-aquecido, a precisar só de esquentar um pouco se a bola entrar no sítio onde deve estar.

O plano repetido nos treinos causava mossa no Atlético de Madrid demasiado curto. Julián Alvarez era engolido nos duelos com os defesas, muito sozinho na frente, vendo Griezmann ao longe enquanto o francês se cansava em ajudas defensivas. Ambos seriam substituídos. Preferiu o nervoso Simeone, o pai, pulando e gesticulando de camisa e gravata negras, que os espanhóis tivessem o gigante Alexander Sørloth no ataque para dar faísca às disputas com os centrais, além de Thiago Almada e Álex Baena a orbitarem perto do norueguês. Uma torre e dois criativos.

Já foi tarde. Hercúleos nas entre-ajudas, os gunners taparam os espaços à frente da sua área, agressivos a cercarem qualquer adversário, e ao Atlético restou tentar cruzamentos até mais não, ténue truque para tentar repetir a presença na final que logro em 2014 e 2016. Mikel Arteta operou substituições para refrescar todos os nomes do meio-campo para a frente salvo dois: o tectónico Rice, touro de chuteiras calçadas, que roubava todas as bolas (seria eleito o melhor em campo), além do lutador Gyökeres, referência para a equipa o procurar com passes longos e o sueco, entre agarrões e puxões, segurar as solicitações lá na frente. Ou provocar (bastantes) faltas, “imenso“ como Arteta lhe chamaria no final.

Não era assim que Dennis Bergkamp jogava.

Viktor Gyökeres a ser saudado pelos adeptos do Arsenal, ao sair de campo após o jogo
Alex Pantling - UEFA

Mas foi assim, não muito bonito, pouco espetacular, sem jogadas vistosas, que o Arsenal confirmou o regresso à final da Liga dos Campeões, vinte anos após o holandês assistir do banco, sentado, quase desprezado, à derrota dos londrinos contra o Barcelona de Ronaldinho, Deco e Iniesta. É assim que hoje joga o líder da Premier League tornado finalista da maior competição europeia, prova de como o metodismo e uma forma de jogar crente no controlo da execução em vez de arriscar no improviso compensa no futebol atual.

A final de 2006 era o último jogo de Bergkamp, que não o jogou. “Sim, deem-me sempre um passe forte porque quero desafiar-me ao controlar uma bola difícil. Temos que ir forçando para nos testarmos uns aos outros”, dizia ele, fã do risco como arma de elevar o nível. Este Arsenal dispensa-o, prefere empurrar os limites do seu método laborioso, confiante mais nos lances de bola parada. O Paris Saint-Germain ou o Bayern de Munique, ambas equipas nos antípodas do que os ingleses preconizam, serão o último teste.

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