Crónicas de jogos

O Sporting voltou a colar-se aos grandes na Liga dos Campeões de andebol, mas “o sonho de uma vida” foi adiado

O trabalho defensivo dos leões sobre Arnoldsen, o melhor marcador dos dinamarqueses
O trabalho defensivo dos leões sobre Arnoldsen, o melhor marcador dos dinamarqueses
BO AMSTRUP

Um golo não parece nada numa eliminatória de 120 minutos. Nos quartos de final da Liga dos Campeões, fez toda a diferença. Os leões tinham a Final Four na mira, mas perderam na visita ao Aalborg (37-36) num momento que não recompensou mais uma época de superação europeia

Há uma diferença grande entre verbalizar ambições desportivas e pôr cá para fora sentimentos íntimos. Acontece que, no segundo caso, revelar tão viscerais confissões leva a uma desconfortável exposição, ao contrário do que acontece quando se anuncia que se quer chegar onde poucos ou nenhuns chegaram. No máximo, estabelecer metas ousadas é um aviso de que ali há algo pelo qual vale a pena lutar. Incompreensivelmente, existe quem seja tão contido na expressão de uma coisa como da outra.

O Sporting é uma equipa despreocupada com o julgamento que possa ser feito sobre aquilo a que se propõe. É tudo mais à base do “vamos” do que do “queremos”. Não é assinar um pacto com o destino, pois, se bastasse falar, o extraordinário sentava-se ao colo de todos. É um compromisso com uma pitada de incerteza em cima da consciência de que se tem tudo para lá chegar.

Os leões estavam a um jogo de atingir “o sonho de uma vida”, o outro nome dado por Ricardo Costa à Final Four da Liga dos Campeões. Embora, em 1971, o Sporting tivesse terminado em terceiro lugar e, em 1994, o ABC Braga tivesse disputado o título até à última, ficando no segundo posto, nenhuma equipa portuguesa se tinha experimentou na derradeira fase da competição desde que esta, em 2010, assumiu o presente formato.

A segunda mão dos quartos de final implicou uma deslocação a um país em que as crianças brincam com bolas de andebol no infantário. O empate (31-31) trazido do primeiro jogo deixava tudo por decidir em frente a um pavilhão a abarrotar. Ganhar em casa do Aalborg seria um feito semelhante ao que Portugal conseguiu ao vencer a Dinamarca neste mesmo território durante o último Europeu.

Na antevisão, Ricardo Costa chamou à Final Four "o sonho de uma vida"
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O ambiente sonoro da Sparekassen Arena mudava de figura mediante a equipa que estava a atacar. Quando o Aalborg circulava o tufo de resina, as palmas embalavam o ataque. Assim que o Sporting pegava na bola, as cornetas e bombos, com um lugar reservado no canto do pavilhão, picavam os tímpanos.

Por parte dos leões não se ouviram golos nos primeiros cinco minutos. Um guarda-redes não é duas vezes eleito o melhor jogador do mundo, em 2019 e 2021, sem ser soberbo. Niklas Landin ofereceu cinco defesas aos cinco primeiros remates esverdeados como tábua de degustação da sua grandeza. O homólogo leonino, André Kristensen, interveio para que o Aalborg não escapasse. É por ter quem, com menos estatuto, se equipare ao que de melhor há no universo é que a equipa de Ricardo Costa está onde está.

O pavimento azul e a movimentação estonteante satisfizeram a expressão fazer piscinas. O Aalborg tentava dominar pela rapidez, mas o Sporting obrigou a uma partilha desse bem. Em tudo houve equiparação. Se o explosivo Mads Hoxer (8 golos) excedia os limites de velocidade e potência de um lado, Francisco Costa (13 golos) retribuía. Quando havia tempo para as ameias das defesas se montarem, o jogo era outro.

A resina parecia toda ela ter transitado da bola para as equipas. Sem nenhuma ter usufruído de uma vantagem de mais de dois golos, 30 minutos se tinham passado sem um spoiler do desfecho da eliminatória. O minucioso Ricardo Costa pediu um desconto de tempo a quatro segundos do final da primeira parte para orquestrar a jogada que libertou Salvador Salvador, mas o golo foi obtido fora do tempo e o Aalborg foi descansar na frente (18-17).

O Sporting estava a ir ao âmago em busca de soluções. Chegou a experimentar ataques em 7x6 e superaram-se jogadores menos óbvios como Emil Berlin, Pedro Martínez ou Natán Suárez (desempoeirado dos constrangimentos que os problemas físicos lhe causaram).

Niklas Landin, a muralha do Aalborg
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Uma das exclusões de Christian Moga, o pilar defensivo leonino, transitou para a segunda parte. O aproveitamento da situação esteve a ser planeado pelo Aalborg no balneário e os dinamarqueses construíram uma vantagem de três golos. Diogo Branquinho também foi brindado com dois minutos de descanso, o que não ajudou a uma reação imediata. Thomas Arnoldsen (10 golos) tomou conta do jogo.

Com torres como Simon Hald a impedirem um grande volume de remates na zona central, Niklas Landin teve sobretudo que se concentrar em defender os que vinham das pontas. Dessa zona, o Sporting esteve desinspirado e incapaz de aproveitar desequilíbrios que tão difíceis eram de criar. Sem ver a margem diminuir (37-36), Ricardo Costa subiu a defesa, o que não confundiu o Aalborg em tempo útil.

A consistência europeia fez do Sporting um dos bastiões do desporto nacional. No entanto, tamanha quantidade de superação, crença e talento (muito talento) não tem sido recompensada. Pelo segundo ano consecutivo, os leões acabam eliminados nos quartos de final da Liga dos Campeões e “o sonho de uma vida” volta a ser adiado.

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