Crónicas de jogos

Não há sonho europeu do SC Braga que resista a uma defesa assim

Manzambi festeja o segundo golo do Friburgo frente ao SC Braga
Manzambi festeja o segundo golo do Friburgo frente ao SC Braga
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Sem bola, o SC Braga sofre e uma expulsão aos 7 minutos, à qual se juntou mais uma série de erros próprios, afastaram o SC Braga da sua segunda final europeia. A derrota por 3-1 em Friburgo tornou irrelevante o triunfo em casa e acabou com a fantasia de Istambul

A lesão de Ricardo Horta, que mal jogou na 1ª mão e nem saiu do banco na 2ª, não ajudou. Os azares do jogo da última semana muito menos. Mas o lugar onde os sonhos europeus do SC Braga vão morrer não são feitos de imponderáveis, do que não se pode controlar. Sendo provavelmente a equipa que melhor se ajeitava com a bola das meias-finais da Liga Europa - sim, mais do que as equipas da Premier League -, não a ter era meio caminho andado para a queda.

Ficar com menos um jogador aos 7 minutos de jogo à conta de erros defensivos e decisões irrefletidas fez o resto

A expulsão de Dorgeles, numa fase tão prematura do encontro com o Friburgo, ditou o guião: em vantagem pelo 2-1 em Braga, os minhotos seriam obrigados a sobreviver sem bola durante quase 90 minutos. Poder-se-á criticar a decisão do marfinense - talvez um 1-0 para os alemães fosse menos penalizador para o Braga do que uma expulsão -, mas o pecado original vem de trás, de uma defesa subida a deixar infantilmente uma clareira para as setas do Friburgo correrem.

Com referências bem estudadas, nomeadamente a meio-campo, tudo depois se tornou uma adaptação para o SC Braga. Pau Víctor, um dos melhores desta Liga Europa, tornou-se guardião do lado esquerdo, Zalazar, sozinho na frente, uma sombra, a acompanhar o jogo com os olhos.

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O bizarro erro de Kubler, aos 19’, depois de uma boa primeira reação bracarense ao infortúnio, aposentou ainda mais qualquer ideia de resistência: mais uma vez, há dois centrais do SC Braga que chocam (Paulo Oliveira e Vítor Carvalho) e o alívio de Gorby foi parar aos pés do jogador Friburgo, com a bola ainda precisar de uma série de ressaltos para caprichosamente se dirigir à baliza. Manzambi, já perto do intervalo, aproveitou o espaço que lhe foi concedido à entrada da área para rematar ao poste mais afastado de Hornicek. Com uma defesa assim, não há processo ou sonho europeu que resista.

A entrada forte do Friburgo na 2ª parte foi, à sua maneira, uma reação à resposta dos minhotos após o 2-0 - Víctor Gómez rematou ao poste após grande lançamento de Pau Víctor (e recuperação do eterno Moutinho, já agora) ainda antes do intervalo, num prova de vida que os alemães tentaram rapidamente terraplanar. Grifo teve uma bola ao poste, Ginter perto dele ficou num remate à entrada da área. Manzambi, de longe, chamou Hornicek ao jogo.

O checo, com uma defesa dupla, à queima-roupa, após um canto, manteve o SC Braga à tona, mas novo golo de Kubler, à entrada dos últimos 20 minutos, parecia terminar, com um toque de crueldade, com qualquer fantasia de uma viagem até Istambul. Os erros tinham sido muitos, a derrocada parecia inevitável.

Daniela Porcelli

O golo de Pau Víctor, poucos minutos depois, teve o condão de trazer um pouco do SC Braga da 1ª mão a Friburgo. Perante tamanha montanha para escalar, algo renasceu e a distância de um golo para o prolongamento trouxe uma renovada energia a uma equipa há tantos minutos a jogar em inferioridade. Os alemães temeram, sentiram a pressão intensa depois de uma 2ª parte em que o pensamento inicial foi de destruição. Gorby, de longe, aos 88’, não esteve longe. O guardião Atubolu voltou a brilhar já nos últimos suspiros do jogo, antes de se confirmar a estreia do Friburgo em finais europeias.

E será por culpa própria que o SC Braga não estará na sua segunda. Os últimos minutos, carregando em cima do Friburgo mesmo a jogar com menos um, a criar perigo, provam que a equipa portuguesa, podendo ter a bola, podia ultrapassar com naturalidade uma das equipas mais sólidas da Bundesliga dos últimos anos. Será uma lição para o futuro, quiçá já para o próximo defeso, quiçá para as ambições internas e externas dos minhotos: se uma casa não se constrói pelo telhado, nenhuma equipa sobrevive a uma defesa tão precária.

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