O campeão FC Porto foi recebido com palmas, e uma derrota, pelo último classificado
Roni, despido de camisola, a mostrar os músculos e a festejar o segundo golo que marcou ao FC Porto pelo AVS
MANUEL FERNANDO ARAÚJO
Era um jogo inusitado logo à partida: conquistado o título, o já campeão visitava a única equipa já despromovida. Com o objetivo maior garantido de um lado e a vontade, do outro, em dar nas vistas sem nada ter a perder, quem mais feliz acabou foi o AVS. Com dois golos de Roni, a equipa já despromovida que fez a pior primeira volta deste século na Liga ganhou, por 3-1, ao FC Porto, que assim não conseguirá igualar o recorde de pontos do clube numa edição do campeonato
Então não é que calhou à melhor equipa do campeonato ter o primeiro jogo após vestir a roupagem de campeã nacional, certa de que terminará no primeiro lugar, visitar a que certamente acabará na última posição. E o facto de não haver volta a dar nas respetivas sinas pode fazer maravilhas pela cabeça de quem joga, livrando o tico e o teco das amarras da pressão, também na de quem decide os que jogam, tirando de lá hesitações. Sem estetoscópio que espreite para dentro da de Francesco Farioli, assim o pareceu.
Conquistado o título, o treinador deixou um croata de pele lisa, isento de barba, no seu topo nem um fio de cabelo fora do sítio, ser titular pela primeira vez à penúltima jornada. Tão novidade era Dominik Prpić que o realizador da transmissão televisiva não mostrou como, nem por onde, o FC Porto construiu a jogada em que Borja Sainz rematou na área e fez a bola rasar a barra: estava demasiado preocupado em centrar o plano, durante largos segundos, só no defesa a olhar para longe num jogging descontraído. Interessou-lhe mais a novidade de quem não jogava desde dezembro.
O mais novo dos centrais portistas (21 anos) jogou ao lado de Thiago Silva, o mais velho (41), serenidade em pessoa a lidar com as investidas rápidas do AVS, confiante em apostar nos contra-ataques pela velocidade dos seus extremos, estratégia de João Henriques, o seu terceiro treinador de uma época desastrosa, leva 13 pontos conquistados na segunda volta do campeonato que não compensaram a pior primeira metade feita por uma equipa este século, só com quatro pontos. Os avenses buscavam pôr Tunde Akinsola a correr, na esquerda, contra Francisco Moura.
Por esse carril chegou o canto com que os anfitriões, inspirados na moda da Premier League, atravancavam a pequena área de jogadores colados a Cláudio Ramos. A bola foi cruzada para lá, o guarda-redes não pôde com tantos corpos no seu quintal, mal conseguiu tocar na bola e, findos dois cortes mal feitos, em esforço, o médio Roni roubou Rodrigo Mora e rematou para a bola passar por uma floresta de pernas - e por entre as de Prpić - para a pior equipa do campeonato, porque a última, marcar aos 23’, à caça de uma consolação: não acabar a temporada com o pior ataque.
Roni a festejar o seu golo com os companheiros do AVS: foi o primeiro que o médio marcou no campeonato
MANUEL FERNANDO ARAÚJO
Pouco antes do golo caíra chuva, Farioli protegeu-se com um casaco e boné, de pé à frente do banco, enquanto via o AVS, com insistência, a fazer Gustavo Mendonça, o seu médio interior direito, atacar o espaço entre Prpić e Francisco Moura. E o FC Porto a tentar agitar perto da outra área com Rodrigo Moura, a quase única fonte de ações em drible, cheio de acelerações, travagens e novos arranques nas suas corridas com a bola, para desequilibrar a organização defensiva do AVS. Com extremos carentes de grande aptidão para ameaçarem com fintas, os dragões confiavam no miúdo-maraviilha.
Sesko Fofana teria um remate a causar arrepios na espinha dos avenses, cortado por Devenish, o capitão, quase na linha de baliza, celebrando efusivamente o feito. A equipa condenada está à descida, mas esperançosos estavam os seus jogadores: afinal, jogar contra os campeões nacionais a quem dedicaram um corredor de honra, com direito a palmas, era uma montra para impressionar clubes que pretendam pescar reforços. Os cortes de vários jogadores do AVS sucederam-se, o FC Porto tinha remates, porém não iam à baliza.
Era a segunda vez em 33 jornadas que os dragões chegavam a perder ao intervalo. Na primeira, em Rio Maior, acabou derrotado.
Os homens equipados às listas vermelhas e brancas bateram em retirada, acumulando os seus 11 jogadores em 30 metros de campo, por vezes menos, junto à própria área. De linhas cerradas e num bloco baixo, resguardando-se da forma que mais custou aos portistas desmontar ao longo da época. Não se veria tal desta vez. Com Alberto Costa muito posicionado por dentro, nos espaços entre a linha defensiva adversária para causar dúvida, os dragões exploraram essa via. A outra, perante um AVS tão recuado e a deixar que os centrais do FC Porto pisassem a relva perto da área, foi usar o pé esquerdo de Dominik Prpić.
Deniz Gül marcou o seu quinto golo no campeonato pelo FC Porto
MANUEL FERNANDO ARAÚJO
Bom de passe, o croata desmarcou Borja Sainz e o espanhol picou a bola sobre o guarda-redes Adriel, com a sua classe a resultar na emenda de Deniz Gül para golo, aos 53’. Pouca dura teve a felicidade do campeão. Cinco minutos volvidos, vista a passividade com que os médios portistas deixaram Pedro Lima pensar o que faria à bola, Roni recebeu o passe e, a uns 25 metros da baliza, armou a perna direita e saiu-lhe o míssil que recolocou o AVS em vantagem. Cláudio Ramos nada pôde contra o remate, Prpić ficou a queixar-se para o ar da sina enquanto o marcador do golo esbaforido correu, sem camisola, a celebrar.
O FC Porto lançou-se então com tudo contra o último classificado, generoso de espaço por explorar nas faixas. Servido por Francisco Moura, o turco Gül, a saltar na pequena área, desviou de cabeça a bola que Adriel defendeu antes de parar também a que o cocuruto de Alberto Costa rematou, em mergulho na área para responder ao cruzamento. A chuva, copiosa, abriu comportas pouco depois, quando AVS já tentava avançar o seu bloco, afastando-o da área e pressionando mais as receções dos adversários. Entrado para dar à equipa o drible que lhe faltava, Pietuszewski teve várias, também Froholdt.
O AVS, com bola, existia só para tentar encontrar a referência Tomané para o avançado segurar a bola e esperar que outros jogadores se aproximassem. Foi recolhendo segundos para a equipa respirar, também faltas. Antes de forçar Prpić a rasteirá-lo, junto à linha lateral, longe da baliza e sem uma unha de perigo, já houvera um remate ao poste dos anfitriões. Na bola cruzada, quase em balão, por Tunde, outro erro de um portista de folha magra em minutos no campeonato engordou o inusitado: Cláudio Ramos saiu da baliza para tentar encostar os punhos à bola, chegou atrasado, mal saltou e a cabeça Aderlan Santos desviou para golo.
Aos 80’, o FC Porto estreava-se a sofrer três golos num jogo neste campeonato.
Nos 10 minutos restantes houve mais balbúrdia do que ordem, nada os dragões criaram de proveitoso. O AVS cerrou de vez as suas fileiras, zeloso da iminente vitória, contando os minutos ao som dos cânticos animados dos adeptos portistas, ultrapassados neste jogo mas cheios de vagar para não se importarem muito com este resultado. Ainda viram Dominik Prpić ser expulso por outra entrada imprudente, garantindo que não joga mais esta temporada.
Esta foi apenas a segunda derrota do FC Porto na liga e a quinta vitória da condenada equipa da Vila das Aves, invencível há cinco partidas. Quando a pressão se sume e nada já há de palpável para conquistar, o futebol muda. Depois de virar campeã, a melhor equipa do campeonato foi perder ao estádio da pior, em pontos. A derrota não belisca os dragões, receberão na mesma o caneco do título no próximo fim de semana, no Dragão, perante os seus. A vitória mostra que o AVS, com a melhor segunda volta da sua história após o descalabro da primeira, atinou tarde demais.