Crónicas de jogos

Não está fácil para o Benfica ser o melhor dos outros e o SC Braga também não ajudou

Empate entre Benfica e SC Braga deixou os encarnados fora dos lugares de Champions
Empate entre Benfica e SC Braga deixou os encarnados fora dos lugares de Champions
RODRIGO ANTUNES
No Estádio da Luz, uma equipa cumpriu o objetivo e não foi o Benfica. Com o empate (2-2) na penúltima jornada, o SC Braga assegurou o quarto lugar, ao contrário dos encarnados, que deixaram fugir o segundo. A equipa de José Mourinho voltou a desperdiçar uma exibição diabólica de Schjelderup com um all-in com muita fé e pouca racionalidade

“Já falou com o Real Madrid?”, “confirma?”, “quer?”. O ego de José Mourinho cobre tantos hectares que é capaz de engolir a equipa de futebol que o próprio treina e, por vezes, até o julgável trabalho que faz. O Real Madrid está para os clubes como Mourinho está para os treinadores e, quando ambos interagem, sorvem a dose mundial de interesse. A luta do Benfica pela presença na Liga dos Campeões foi mediaticamente trocada pela novela e os encarnados esqueceram-se que tinham de vencer para defenderem a segunda posição que, à entrada para a última jornada, é agora do Sporting.

A sobreposição de destinos que obriga os jogos a estarem entrelaçados no mesmo horário é o melhor indicador de que as velas estão quase a parar de arder. O Benfica atentava ao que o Sporting ia fazendo em Vila do Conde, zelando por ser o melhor dos outros. O SC Braga cuidava de estar informado sobre o jogo do Famalicão, de modo a ficar bloqueado na quarta posição, meta que veio a assegurar.

Sincronizar tanta gente em ação no fenecer do campeonato levou a um atraso de quatro minutos em relação à hora prevista para o início do jogo. Impaciente, o Benfica entrou a abrir. O canto foi inspirado no futsal. Aursnes bombeou para o exterior da grande área e Schjelderup não deixou o envio aterrar. Saiu pior a emenda do que a intenção e a muralha arroxeada taxou força à bola, mas colocou-a a jeito de Ivanović, ligeiramente adiantado para o gosto do VAR, impiedoso na anulação do remate certeiro.

A festa do golo de Rafa foi curta. Doi minutos depois, o SC Braga chegaria ao empate
Gualter Fatia

Para quem a certo ponto da época chegou a ser escondido das opções do SC Braga, Leonardo Lelo encontrou uma maneira de se restabelecer. Até pela estatura, via-se no terceiro central dos minhotos era um improviso para compor a organização defensiva, que apelava também ao recuo de Gabri Martínez. Juntos moldavam o que os arsenalistas queriam nas diferentes fases. Em construção e bloco médio, Lelo aconchegava-se à lateral.

As cautelas eram menores no outro flanco. Tão grande era a trajetória que Gorby tinha que fazer do centro para a direita que a demora a chegar à lateral já só lhe permitia limpar o rasto de destruição provocado por Schjelderup. Para piorar, Rafa surgia-lhe nas costas, colocando dúvidas ao médio sobre a capacidade de cobrir tanto espaço.

Schjelderup está a diabolizar-se. No bom sentido, claro. Deixou de poder ser julgado pela aparência. Ali dentro mora um demónio que o Benfica não aproveita. Enquanto os defesas olham para ele a pensar “qual é a pior coisa que este baixinho me pode fazer?”, escapa dando a volta aos tornozelos de quem o tenta parar.

O norueguês criou as próprias chances. Picou sobre Horníček e Lelo cortou em cima da linha. Foi também importunado na finalização por Lagerbielke. Até partilhou a inspiração com Rafa que, rodopiando sobre si, obrigou o guarda-redes a mostrar como voa a sua robusta estrutura. O SC Braga confiava totalmente nas saídas a ritmo próprio de Gabri Martínez, pouco apelativas para o envolvimento dos dois avançados espanhóis, Pau Victor e Fran Navarro. O fôlego viria a faltar ao extremo que foi rendido por Dorgeles.

Apesar do papel tático exigente, Gorby teve pulmão para chegar à frente perto do final
Gualter Fatia

A partir do momento em que João Moutinho comete um erro tão clamoroso, temos razões para deixar de acreditar no conceito de imunidade. Imediatamente após o intervalo, o médio fez um passe intercetado por Prestianni e foi assim que Rafa marcou na jogada inaugural da segunda parte.

O SC Braga acionou logo o plano Victor. Como não se tinha visto até então por estar demasiado entretido com Schjelderup, Gómez subiu no terreno e, num aproveitamento total dos avanços, cruzou para Pau empatar dois minutos depois.

Ivanović é um avançado com uma certa utilidade, mas a monofuncionalidade não tem aplicação universal. Contra o SC Braga, por exemplo, serviu de pouco. Mourinho lançou Pavllidis que, de imediato, marcou. Acontece que Schjelderup – sempre ele – deixou a bola fugir ligeiramente pela linha de fundo antes do cruzamento.

Com o passar do tempo, o SC Braga aceitou o resultado que lhe permitia cumprir o objetivo traçado. A equipa de Carlos Vicens foi à Luz espairecer da eliminação na meia-final da Liga Europa, em Freiburg. Nenhum resultado que viesse a obter conteria uma recompensa mais prazerosa do que chegar a Istambul, mas, no mínimo, garantiu mais uma época em que ninguém interceta o ponto de contacto com os grandes.

Horníček, preponderante como habitualmente, segurou o empate. Mourinho começou a descompensar a equipa entregando praticamente todo o meio-campo a Aursnes e lançando opções ofensivas com pouco enquadramento. Gorby surgiu à entrada da área sem esboço de oposição e deu ao remate uma bela combinação de jeito e força que entrou na malha lateral.

Ao contrário do que geralmente acontece, Schjelderup não foi substituído, somando o terceiro jogo na época em que foi titular e prevaleceu até ao final em campo. Foi ele que arrancou uma grande penalidade que veio atenuar o desastre. Pavllidis viria mesmo a chegar ao 30º golo da época, igualando o registo da temporada passada e também o resultado.

Na última jornada, o Benfica vai implorar que o Sporting perca pontos em casa contra o Gil Vicente. Porém, a condição primordial é os encarnados vencerem no Estoril.

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