O Sporting foi duplamente feliz com 340 quilómetros de distância e tem os milhões na mão
Luis Suárez festeja o 1-1
ESTELA SILVA
Noite cheia de boas incidências para os leões: com um penálti e um auto-golo a favor e terminando contra nove, golearam (4-1) o Rio Ave e beneficiaram do empate (2-2) do Benfica para ir para a última jornada em segundo lugar
O final do Rio Ave-Sporting não foi vivido em Vila do Conde. Deu-se em Lisboa, a cerca de 340 quilómetros. Com o desfecho nos Arcos há muito conhecido, desde que os da casa ficaram com 10 e em desvantagem, os olhos estavam em pequenos ecrãs, os quais mostravam o que sucedia no Benfica-SC Braga.
Foi por isso que, quando tudo acabou em Vila do Conde, não acabou para jogadores e adeptos leoninos. Só concluir-se-ia alguns minutos depois, conhecido o 2-2 da capital. Aí, sim, houve celebrações.
Depois de dias de grandes desilusões, a reta final pode trazer pequenas e milionárias consolações para a equipa de Rui Borges. De Jamor assegurado, a Liga dos Campeões está a uma vitória em casa, diante do Gil Vicente, de distância. Vantagem de dois pontos, hipótese de fazer 82, o mesmo número que valeu o bicampeonato há 12 meses.
A noite em que tudo correu bem para o Sporting desenhou-se com uma série de ocorrências que viraram o rumo da disputa perante o Rio Ave. Os problemas iniciais dos que hoje equiparam de preto dissiparam-se com um penálti, um auto-golo, uma expulsão, depois outra. Deu tempo para terminar olhando para o telefone, com a prioridade colocada a mais de três horas de viagem de carro.
Cerca de duas horas antes, o carrossel dos sete encontros em simultâneo levou a que o arranque do jogo ficasse marcado pela imagem de um delegado da Liga ao telefone, na lateral, aguardando indicações para permitir o apito inicial. Às 20h19, as condições conjugaram-se para o começo do desafio, proporcionando, imediatamente, um guião quase de pré-época.
A sensação de futebol estival não se deveu à ausência de estímulos competitivos, que para os visitantes estavam bem presentes e foram audíveis ao longo do embate, com os adeptos leoninos festejando ou lamentando o que sabiam suceder na Luz. O toque de pré-temporada foi, antes, causado por uma partida de ataque e contra-ataque, de pouco meio-campo, com largas avenidas para correr e fazer mossa. E, nesse contexto, o Rio Ave, sem pressão e com gente que vê baliza na frente, sentiu-se livre até ao momento em que as contrariedades acabaram com qualquer esperança pontual.
O Rio Ave sofreu o 2-1 num caricato auto-golo
ESTELA SILVA
Tardou menos de cinco minutos até Spikic lançar Blesa, o grande herói da manutenção do Rio Ave, um feito, basicamente, logrado com quatro vitórias no espaço de um mês, período em que o espanhol apontou cinco golos. Blesa cruzou para Tamble Monteiro, que não teve pontaria.
Pouco depois, o Sporting reagiu com passividade ao fulgor vila-condense. Houve direito a várias perdas de bola no próprio meio-campo, como a que esteve na origem do 1-0. Luís Guilherme, titular pela primeira vez em dois meses, perdeu para Tamble Monteiro, ponta de lança ainda sem golos mas que incomoda. O ex-Portimonense serviu Diogo Bezerra, outro atacante do Rio Ave virgem em festejos até esta noite. O brasileiro somou o primeiro e colocou os locais na frente.
Sem que os leões protagonizassem uma revolução no seu pobre nível, o resultado ao intervalo viria a contar uma história particular. Remates enquadrados do Sporting que não de penálti: zero. Golos do Sporting: dois.
O 1-1 chegou através de um penálti conquistado e transformado por Luis Suárez. Era o terceiro pedido de castigo máximo seguido do colombiano. Do primeiro saiu com marcas na face, do segundo saiu com amarelo por simulação, do terceiro, sacado após grande arrancada, saiu com o 27.º tiro certeiro na I Liga.
O remate de Trincão para o 3-1
ESTELA SILVA
Passados sete minutos da igualdade, o 2-1. Gustavo Mancha, numa burocrática saída de bola do Rio Ave, juntou os pecados de atrasar a bola para o guarda-redes sem olhar para trás e de o fazer na direção da baliza. Miszta foi apanhado em contrapé e o resultado foi um golo para os apanhados. Num camarote, Evangelos Marinakis, talvez ainda a lamber as feridas de um título grego que foi para o AEK e não para o seu Olympiakos, lamentava-se, de charuto na mão, pela caricata situação que pusera outro dos seus emblemas em desvantagem. O descanso não chegaria sem nova oportunidade para o Rio Ave, com Rui Silva a evitar o 2-2 de Tamble.
A segunda parte trouxe mais uma contrariedade para o Rio Ave, para quem as incidências do encontro foram muito pouco simpáticas. Petrasso, central com gosto por procurar o corpo do adversário antes de tentar cortar a bola, fez uma entrada fora de tempo sobre Suárez, vendo o segundo cartão amarelo aos 52'. Um penálti contra, um auto-golo, uma expulsão. Em poucos minutos, a noite que arrancara promissora para os da casa ganhava contornos de derrota difícil de evitar.
Pior ficaria para quem já se encontrava a perder quando Francisco Trincão agarrou na bola pela direita, fletiu para o meio e apontou o tipo de golo que para o canhoto quase parece fácil, insultantemente fácil, com o físico elegante e o pé esquerdo de seda do internacional português. 3-1 e o resto do serão de Vila do Conde passado a escutar as notícias que a rádio — ou as aplicações de resultados, ou o WhatsApp, mais possivelmente — transportava vindas da capital.
O Sporting foi deixando correr os minutos. O meio-campo acabaria com uma dupla formada por Eduardo Felícissimo e Giorgi Kochorashvili, talvez uma homenagem aos tempos da vaga de lesões de 2024/25, quando Rui Borges teve de formar parelhas de circunstância. Ryan Guilherme ainda veria dois amarelos em dois minutos, acabando o Rio Ave com somente nove homens.
Quando os adeptos forasteiros já festejavam mais o que sucedia no Benfica-SC Braga do que o que se via nos Arcos, Quenda marcou pela primeira vez desde a lesão, quebrando um jejum que vinha de novembro. O Sporting voltou a depender só de si para lograr o mal menor.